terça-feira, 14 de março de 2017

O PECADO DA CONIVÊNCIA


“Não te tornes cúmplice de pecados de outrem” (I Tim 5:22 - ARA).


            Introdução
            Talvez, por motivos óbvios, você nunca tenha ouvido falar sobre a existência de tal pecado em sua igreja e, dificilmente ouvirá, entretanto ele existe há muito tempo. Trata-se de uma das transgressões da Lei de Deus mais difundida em meio às instituições religiosas.

            A etimologia da palavra
            A palavra conivência não é encontrada na Palavra de Deus, mas sim uma correlata – cumplicidade.
            Segundo a Pequena Enciclopédia Bíblica O. S. Boyer, cúmplice é a pessoa que tomou parte num delito ou crime. Ela está presente em Mateus 23:30; Efésios 5:11; I Timóteo 5:22; II João 11 e em Apocalipse 18:4.
            A Grande Enciclopédia Larousse Cultural é mais contundente em definir conivência como: s.f. (Do latim conniventia, conivência, indulgência). Cumplicidade, conluio; acordo secreto, mancomunação e conivente como: adj. (Do latim connivens, conniventis). Diz-se daquele que está secretamente de acordo com outrem para a prática de alguma ação condenável; cúmplice, comparsa.

            Tudo em nome de Deus
            Não é novidade para ninguém que em nome de Deus já se travaram muitas batalhas e guerras. Pessoas foram, são e serão, em nome de Deus, perseguidas, presas, violentadas, torturadas e mortas. Durante os 1260 anos de supremacia papal (538 d.C. /1798), por exemplo, o mundo viveu uma das páginas mais horrorosas de sua história. Os livros de história geral, museus, estão aí para quem quiser saber mais a respeito.
            Durante este período de supremacia papal, a igreja romana matou mais pessoas do que a 1ª (9 milhões) e 2ª (entre 50 e 70 milhões) guerras mundiais juntas. Tudo feito em nome de Deus!

            Como já foi dito, a violência contra cristãos continua ativa. Sites como Missão A Voz dos Mártires e Missão Portas Abertas podem referendar tal afirmação.

 

            O x da questão

            As Cruzadas, a “Santa Inquisição”, entre outras, fazem parte da História Geral, são de conhecimento público, ou seja, todo mundo sabe ou pelo menos devia saber; mas o que dizer acerca daquilo que acontece nos bastidores das instituições religiosas? Será que você é tão ingênuo assim a ponto de achar que tudo no meio evangélico funciona como um verdadeiro relógio suíço? Que não exististe politicagem, nepotismo, favoritismo, corrupção. Acredite, existe sim e o que é pior; de forma velada e pior ainda, com a conivência de muitos, mas que por motivos diversos, se calam, consentem. 

            Trata-se de um assunto mantido a sete chaves ou quase. Sempre que alguém dos altos escalões de alguma entidade religiosa se envolve em alguma coisa estranha à missão da igreja, todo um arsenal de proteção é disparado visando resguardar a moral, o caráter, a dignidade do ungido, sob a alegação de o “ungido do Senhor é intocável”.

 

            Quando o vazamento acontece

            Pelo fato de estar escrito: “Porque nada há encoberto que não haja de ser manifesto; e nada se faz para ficar oculto, mas para ser descoberto” (Marcos 4:22); um belo dia as coisas mal feitas aparecem e aí, podem até virar livros como no caso da jornalista Marília de Camargo César ao escrever Feridos em nome de Deus, um retrato verídico de toda forma de abusos cometidos em nome de Deus.

             Na primeira orelha do referido livro está escrito: “Quando a fé se deixa manipular, pessoas viram presas fáceis de toda sorte de abuso. A confiança autêntica e sincera em Deus é gradualmente substituída pela submissão acrítica aos desmando de lideranças despreparadas. Carentes de acolhimento são habilmente capturados pela manipulação emocional de líderes medíocres de plantão e ambos seguem de braços dados experimentando religiosidade fútil e meritória, barganhando a todo momento com Deus. Por ser uma religiosidade descaracterizada da adoração sincera, mais cedo ou mais tarde o castelo de cartas desmorona deixando feridas abertas pelo caminho”.

 

            A clássica

            Há ainda outra situação, a clássica, deprimente, em que tal modalidade de pecado acontece: toda vez que se quer literalmente meter a mão no bolso da relutante congregação. O clichê, redundâncias a parte, sempre se repete e inicia-se mais ou menos assim: “Deus não precisa de dinheiro” ... “eu não vim aqui buscar dinheiro”... e continua lembrando aos desavisados membros que na ocasião dos votos batismais ele se comprometeu a manter a igreja com seus recursos. Via de regra termina com a alegação mais contundente da paróquia: “A sua obrigação é dar, devolver, ofertar, dizimar. O vai ser feito dali para frente com os recursos auferidos não é de sua responsabilidade”. Será?

 

 

            Até onde vai a responsabilidade

            Antes que você me pergunte se tal afirmação procede, prefiro que você tire suas próprias conclusões. Por isso, sinceramente responda-me:

            Se um piromaníaco contumaz e inveterado chega para você e alegando estar devidamente curado de sua insanidade, suplica-lhe por apenas uma caixa de fósforos. Você ingenuamente acreditando dá a ele o tão sonhado objeto de desejo. E ele o que faz? Sai por aí colocando fogo em tudo que encontra pela frente.  E aí, ainda que indiretamente, você é ou não responsável pelos delitos cometidos?

            Um velho adágio popular reza que “os nossos direitos terminam onde começam os direitos dos outros”; perfeito. Acontece que não estamos tratando de direitos e sim de deveres, de obrigações, de responsabilidades.

 

            Conclusão

            Como membro, colaborador, associado, seja lá o nome como você é chamado em sua comunidade, igreja ou congregação; saiba que você tem todo o direito de protestar quando perceber que as coisas não estão acontecendo segundo o “assim diz o Senhor”, inclusive quando os recursos auferidos não estiverem sendo utilizados de maneira correta.

            Você pode não ser responsável direto, mas é corresponsável, é conivente sim! E conivência, conforme afirma a mensagem, é pecado!

 

 

 

 

 

 

 

© Nelson Teixeira Santos



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