terça-feira, 31 de dezembro de 2013

VOCÊ NÃO DEVE ACREDITAR EM TUDO QUE... VÊ, LÊ E OUVE



            Já faz muito tempo. Tanto tempo que a ditadura militar nem havia se instalado no Brasil. O ano era 1963; a escola, o Grupo Escolar Arthur Ribeiro de Macedo e o então menino Nelson Teixeira Santos, com apenas 8 anos de idade cursava a 2ª série do ensino primário (hoje Ensino Fundamental), quando tudo começou.  O nome da professora; sinceramente não me lembro, contudo, as belas lições por ela ensinadas, ficaram indelevelmente gravadas.

            O livro de Português continha vários textos para leitura e interpretação e entre eles um que jamais esqueci. Tratava de uma história, cujo protagonista, um menino chamado Tibúrcio, que como todos nós, tinha muitas virtudes, mas também possuía defeitos. Sua característica marcante – a ingenuidade. Por conta de sua exacerbada ingenuidade ele sempre se colocava em apuros, se metia em confusões e era facilmente enganado.

            Embora aos meus 8 anos de idade fosse incapaz de entender , de fato, o que significava ingenuidade, a lição permanece até hoje: você não deve acreditar em tudo que vê, em tudo que lê, em tudo que ouve.

            O tempo passou e aos 21 anos de idade conheci a Jesus e qual foi a minha surpresa ao descobrir nas Santas Escrituras a seguinte citação: Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo (Atos 17:11- NVI). Gosto demais da mesma passagem na versão NTLH: As pessoas dali eram mais bem educadas do que as de Tessalônica e ouviam a mensagem com muito interesse. Todos os dias estudavam as Escrituras Sagradas para saber se o que Paulo dizia era mesmo verdade”. Agora, já com o aval da Bíblia: você não deve acreditar em tudo que vê, em tudo que lê, em tudo que ouve.

            O tempo passou e aos 45 anos de idade, lá estava eu no IAP cursando o teológico destinado aos obreiros da IASD, quando numa das etapas entra um professor, pastor (cujo nome pelos motivos óbvios prefiro não mencionar) e começa a inquirir a classe (na primeira pessoa), só faltou apontar o dedo em riste, levando a questão para o nível pessoal mesmo: - Você é ASD? Por quê? Porque foi induzido, coagido, convencido?
            Foi um alvoroço geral, muita gente indignada, alegando que foi até lá na esperança de fortalecer ainda mais a sua fé e, de repente, vê a sua religião, sua fé, sua instituição sendo questionada.            
             Com a maturidade de quem já havia vivido quase meio século, entendi perfeitamente o objetivo daquele pastor: você não deve acreditar em tudo que vê, em tudo que lê, em tudo que ouve.  E novamente, com mais um aval bíblico: “Antes santificai em vossos corações a Cristo como Senhor; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pedro 3:15 - AA).

            Entre uma etapa e outra do curso; um belo dia lá estou eu desempenhando as funções de administrador financeiro, numa das escolas da instituição quando o telefone toca. Do outro lado da linha o departamental de educação chamando-me para uma conversa pessoal. Para encurtar a história; meu nome tinha sido escolhido para ocupar a função de tesoureiro geral das escolas da associação. Como fui apanhado de surpresa, pedi um tempo para dar-lhe a resposta. Sabendo que dois departamentais envolvidos com a área educacional estavam em rota de colisão (sendo um deles o que me fez o convite) resolvi declinar da indicação. O homem ficou furioso, indignado mesmo, com a recusa.
            - Como você ousa recusar um chamado de Deus?
            - Desculpe-me pastor. Sinceramente não vi o chamado desta perspectiva. Foi a minha resposta.
            Atrevimento em recusar um chamado de Deus. Chamado de Deus. De Deus. Com estes pensamentos povoando a minha mente, me sentindo um herege, fui procurar outro pastor, grande amigo, já às portas da jubilação, que naquele momento trabalhava como departamental da USB, a fim de pedir ajuda, trocar ideias, receber um bom conselho, para quem sabe, voltar atrás naquela decisão tomada.
            -O que? Quem foi que lhe disse que todo chamado procede de Deus? Fique você sabendo que nem todo chamado procede de Deus.
            - Mas pastor; nem mesmo os que acontecem dentro das igrejas, no seio das instituições religiosas?
            -Pode acreditar – não! Foi a enfática resposta.
            A conversa foi longa e demorada, contudo os motivos apresentados pelo experiente pastor foram bastante convincentes e suficientes para confirmar a decisão previamente tomada, vindo reforçar a máxima de que: você não deve acreditar em tudo que vê, em tudo que lê, em tudo que ouve.

            Há dias atrás vivenciamos a dança dos distritais. E por conta disso, é gente chorando a partida de uns, é gente dando boas vindas aos que chegam, há os ingênuos que acreditam que todos os chamados (neste caso mudanças) procedem de Deus, há gente defendo tais mudanças – “é para o bem deles, é para o bem das igrejas”. Também há os que começam a questionar certas mudanças: porque mudar de uma igreja para outra, dentro de uma mesma associação, distritais que assumiram distritos a cerca de um ano?  Tem até gente encontrando versículo bíblico para referendar tais mudanças – Romanos 8:28. Pode? Faço minhas aqui, as palavras do apóstolo Paulo: “Pois posso testemunhar que eles têm zelo por Deus, mas o seu zelo não se baseia no conhecimento” (Romanos 10:2 - ACF).

            E o que dizer das “mensagens escondidas”?
            “Os salvos serão vistos nos cultos de quarta-feira”.
            “É pecado montar árvores de natal em nossas igrejas”
            “É pecado fazer encenações teatrais (dramatizações) em nossas igrejas”
            “O último trabalho intercessor de Cristo antes que Ele ponha de lado suas vestes sacerdotais, é apresentar as orações dos pais pelos filhos”. A lista é grande!
            Permitam-me nem mencionar a quem tais citações são atribuídas. Coitadinha!
            Quando alguém, seja lá quem for, leigo ou graduado, fizer alguma citação mencionando ou não sua autoria, contudo omitindo a fonte, o livro, a revista, a página; não se sinta constrangido em perguntar aonde é que está escrito? É direito seu, pois você não deve acreditar em tudo que vê, em tudo que lê, em tudo que ouve.

            E quanto às páginas sociais; elas não poderiam se deixadas de lado. Como defini-las? Ainda não encontrei uma definição adequada para tais ferramentas tecnológicas. Um laboratório. Um mosaico de coisas. Uma válvula de escape. Uma página social. Uma forma de entretenimento. Uma vitrine. Um modismo. Pode ser tudo isso. Pode também não ser nada disso. Agora uma constatação: são bastante democráticas; igualmente ecléticas; nelas encontra-se de tudo. Agora só uma coisa. Por amor daquilo que lhes é mais sagrado não me venham com a história de que são coisas do diabo. Podem ser usadas tanto para promover o bem, como para disseminar o mal. Portanto, tome muito cuidado com o que você posta, escreve, curte, compartilha. Não seja ingênuo a ponto de acreditar em tudo que postam nas redes sociais. Afinal, você não deve acreditar em tudo que vê, em tudo que lê, m tudo que ouve.


            Alguns conselhos bíblicos são bastante úteis ao acessarmos Facebook, Orkut,  Twitter, Youtube, Instagran, Pinterest ou qualquer outra rede (nada contra nenhuma delas):
            “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Tessalonicenses 5:21 - ACF).
            “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna” ( Mateus 5:37 - ACF).
                 “Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores!” ( Salmos 1:1 - NVI).
             “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32 – ACF) .  

            Afinal de contas, ser ingênuo é bom ou ruim? A julgar pela definição dada pelo Aurélio: sem malícia, franco, inocente, puro e singelo; ser ingênuo é bom. Estas são qualidades desejáveis entre todos que se dizem ser cristãos, contudo, há um grande problema; o possuidor de tais virtudes torna-se presa fácil (enganada) nas mãos de pessoas despreparadas, mal preparadas e mal intencionadas.
          
            Portanto, você não deve acreditar em tudo que vê, em tudo que lê, em tudo que ouve. Seja nobre ou bem educado como os bereanos. Que o “assim diz o Senhor” seja o fator norteador de sua vida.

            É o meu desejo e a minha oração. Amém!!!






© Nelson Teixeira Santos







quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

SONHO COM UMA IGREJA VIVA


Sonho com uma igreja que seja uma igreja bíblica
que seja leal em cada detalhe à revelação de Deus na Escritura,
cujos pastores expõem a Escritura com integridade e relevância,
e assim procuram apresentar cada membro maduro em Cristo,
cujo povo ama a palavra de Deus, e a adornam com uma vida
obediente e semelhante a Cristo,
que seja preservada de todas as ênfases não bíblicas,
cuja vida inteira manifeste a saúde e beleza do equilíbrio
bíblico.
Sonho com uma igreja bíblica.

Sonho com uma igreja que seja uma igreja adoradora
cujo povo se reúna para se encontrar com Deus e adorá-lo,
que sabe que Deus sempre está no meio deles e que se curva
diante dele em grande humildade,
que frequente regularmente a mesa do Senhor Jesus, para
celebrar seu poderoso ato de redenção na cruz,
que enriqueça o culto com suas habilidades musicais,
que creia na oração e se apegue a Deus em oração,
cuja adoração seja expressa não só nos cultos de domingo e nas
reuniões de oração, mas também em suas casas, no trabalho
durante a semana e nas coisas comuns da vida.
Sonho com uma igreja adoradora.

Sonho com uma igreja que seja uma igreja acolhedora
cuja congregação seja formada de muitas raças, nações, idades
e origens sociais, e manifeste a unidade e diversidade da
família de Deus,
cuja comunhão seja calorosa e receptiva, jamais manchada por
ira, egoísmo, ciúmes ou orgulho,
cujos membros amem com fervor uns aos outros com coração
puro, suportando uns aos outros, perdoando uns aos outros
e levando as cargas uns dos outros,
que ofereça amizade aos solitários, apoio aos fracos e aceitação
aos que são desprezados e rejeitados pela sociedade,
cujo amor derrame sobre o mundo exterior o amor atraente,
contagioso e irresistível do próprio Deus.
Sonho com uma igreja acolhedora.

Sonho com uma igreja que seja uma igreja que sirva
que veja Cristo como o Servo e ouça seu chamado para ser
também serva,
que seja liberta do interesse próprio, virada do avesso e se dê
de modo altruísta ao serviço dos outros,
cujos membros obedeçam ao mandamento de Cristo de viver
no mundo, permear a sociedade secular, ser o sal da terra e
a luz do mundo,
cujo povo compartilhe as boas-novas de Jesus simplesmente,
naturalmente e entusiasticamente com seus amigos,
que sirva com diligência à própria paróquia, bem como aos
residentes e trabalhadores, famílias e solteiros, nacionais e
imigrantes, idosos e criancinhas,
que esteja alerta às necessidades em mudança da sociedade,
sensível e flexível o bastante para continuar adaptando seu
programa para ser mais útil no serviço,
que possua uma visão global e esteja constantemente desafiando
seus jovens a entregar a vida ao serviço e constantemente
enviando seu povo para servir.
Sonho com uma igreja que sirva.

Sonho com uma igreja que seja uma igreja que espera
cujos membros nunca consigam sossegar na afluência material
ou conforto, porque lembram que são estrangeiros e peregrinos
sobre a terra,
que seja ainda mais fiel e ativa porque está esperando e ansiando
a volta do seu Senhor,
que mantenha acesa a chama da esperança cristã num mundo
escuro e desesperador,
que no dia de Cristo não vai se esconder dele envergonhada,
mas levantar-se exultante para recebê-lo.
Sonho com uma igreja que espera.

 

Autor: John Stott

Fonte: ultimato.com.br

terça-feira, 26 de novembro de 2013

QUEBRANDO TABUS - PARTE XII


 
 

Chapter Eight

Anatomia de um “Caso” – e Depois!

Um impulso interior irresistível alimentou esse “caso” ardente por mais de dois anos. Rogando poder, ele agora transformou-se em outra pessoa, o que causou grande regozijo.

 

O EDIFÍCIO cor de âmbar, cercado por centenas de metros quadrados de estacionamento, parecia mais um armazém atacadista do que uma igreja, a casa de Deus. Não havia colonas brancas no pórtico, nem uma cruz no alto da fachada, nem um gramado bem cuidado. Estacionamento para centenas de carros do lado de fora, e dentro, cadeiras simples, e não bancos pesados de mogno, para as centenas de adoradores. De fato, mil pessoas no culto de domingo pela manhã é coisa comum, e ainda mais pessoas vêm, se o programa é especial. Esta é a maior igreja daquele condado, naquele estado no centro dos Estados Unidos.

            No quadro de avisos, na entrada, notei o horário dos cultos e uma linha em tipos pequenos, ao pé da página, que dizia: “Rev. Douglas Nelson, Pastor.” (*) Fiquei imaginando se aquelas centenas de adoradores conheciam a história de Douglas Nelson que eu conhecia. O seu trágico passado. O engano. O desastre. Os “casos”. Como Douglas e Sally viram o seu casamento ressuscitar das cinzas. Não fazia muito tempo, eu me sentara no sofá da sala de visitas de sua casa confortável, e os sondara com dezenas de perguntas. Nenhuma foi rejeitada como ingênua demais. Nenhuma resposta foi sonegada. Sentia vibração de seu relacionamento franco e diáfano, que causa refrigério, e a sua profunda compreensão e dedicação, que foram moldadas através de alguns dias tenebrosos e águas profundas.

            Fiquei impressionado ao ver que todos os princípios que mencionei neste livro tornaram-se realidade na experiência deles. Eles mostraram-se dispostos a reviver comigo, em detalhes vivos, comoventes, todos os emocionantes momentos, “se isso ajudar outros casais a encontrarem juntos o caminho de volta”. É uma história verdadeira e iluminadora, de poder, paixão e lindas promessas.

            Douglas e Sally encontraram-se na igreja durante a sua adolescência’. Na verdade, eles não se conheceram de maneira formal, visto que cresceram juntos na mesma igreja e frequentaram o mesmo ginásio, e, de certa maneira, sempre se conheceram. Vindo de um lar em que ambos os pais nunca haviam experimentado nada mais do que trabalho duro, para se manterem, Sally estava emocionalmente esgotada. Seus pais certamente a amavam – ou diziam que a amavam – mas não sabiam como expressar esse amor de maneira que uma adolescente insegura pudesse entender e receber. Nenhuma afeição era demonstrada. Só o que havia era trabalho, trabalho, trabalho, entremeado com um pouco de comer, dormir e estudar. Assim, como simples aluna do segundo ano do ginásio, ela sentia uma tremenda necessidade de ser apreciada e amada. Nessa pouca idade, quando a maioria das jovens está almejando apenas uma boa nota em estudos sociais ou um acompanhante para a festa de promoção da classe, Sally tinha já um grande desejo de se casar e ter filhos. “Talvez o meu desejo de me casar fosse o de um escape da difícil situação em casa, ou uma esperança de alívio de minha pobreza. Mas sei que da primeira vez que saí com Douglas, desejei casar-me com ele, que eu tinha que me casar com ele e que não permitiria que nada o impedisse”.

            Douglas, uns dois anos mais velho, também ficou apaixonado, mas a ideia de um casamento prematuro o deixou amedrontado. Ele gostava da companhia dela, mas estava totalmente despreparado para pensar em se estabelecer. Os seus pais, que também não eram muito afetuosos, eram bem-sucedidos, muito disciplinados e encorajavam integridade, excelência e uma ambição aventurosa entre os seus filhos. A frequência à igreja era obrigatória; a boa educação, uma necessidade.

            Tanto Douglas como Sally eram ativos em seu grupo de jovens e frequentavam regularmente as reuniões anuais de avivamento, na igreja. Não havia ninguém com quem pudessem conversar; pelo menos eles assim pensavam. Ninguém com quem pudessem compartilhar as suas lutas e seus temores. E, como muitos adolescentes cujos pais não demonstram muita afeição, as suas emoções estavam a flor da pele, esperando para serem incendiadas com uma palavra, um toque e por outro corpo quente. Se uma garota cresceu sendo tocada e abraçada de maneira sadia pelo seu pai, o homem mais importante de sua vida, ela será menos vulnerável sexualmente diante do primeira rapaz que segurar a sua mão.

            “Nós dois gostávamos de estar bem juntos”, lembrou Douglas. “E, antes de o percebermos, havíamos desenvolvido uma intimidade sexual que durou o tempo todo em que estivemos no colégio, até a faculdade. Ela sempre se manifestava, e nós batalhávamos contra ela constantemente. Guardamos esse segredo durante anos, e ninguém ficou sabendo”. Quando perguntei a respeito de sua relação com a igreja, ele continuou: “Nós dois éramos crentes e membros da igreja, de forma que nos arrependíamos imediatamente, nos abstínhamos durante algum tempo, depois cedíamos novamente à tentação. Não tínhamos apoio interior. Conhecíamos a ética: os Dez Mandamentos, os ‘deveres’, mas isso não era suficiente para nos manter fora da cama. Um sermão ocasional contra a imoralidade só parecia nos fazer mergulhar ainda mais profundamente em autocondenção e sentimento de culpa. Não havia ajuda externa; não que ela fosse ou seria rejeitada, mas não se manifestava. Nenhum dos adultos parecia perceber as lutas que estávamos tendo. Talvez eles se tivessem esquecido de seu próprio passado ou haviam atravessado a sua adolescência com as suas glândulas desajustadas”.

            O casamento aconteceu na semana após a colação de grau, e poucas semanas depois Douglas entrou no seminário evangélico em New York. O casamento foi a culminação de quatro anos de noivado, e a realização de um lindo sonho de Sally. Mas foi uma decisão, para Douglas, que significava o cumprimento de um dever. “Comecei a perceber que estava me casando com ela por causa de um profundo senso de honra colocado em minha vida por meus pais. Eu sabia que, de certa forma, havia desonrada essa mulher, eu a havia deflorado, e agora devia casar-me com ela. Embora estivesse apaixonado por ela, adentramos o casamento com essa maneira de entendê-lo, e ele nunca, absolutamente, foi para mim uma experiência muito profunda. Contudo, éramos um casal que gostava de diversão, e fizemos muitas coisas divertidas juntos”.

            Sally acrescenta: “Mas para mim foi um grande sentimento de paixão, que continuava desde o ginásio. Eu tinha a minha paixão e o meu amor todos ligados em um pacote, e estava emocionado por ser esposa de Douglas, e estava esperando ter filhos”.

            No seminário, o ritmo não diminuiu. Empregos noturnos, para sustentar a família, duas crianças para criar e muita atividade religiosa. Embora Douglas estivesse estudando para ser pastor e profundamente envolvido nos negócios da igreja, classes de Escola Dominical, atividades do seminário, segundo ele disse “não havia em mim nenhuma sensação de intimidade com Cristo, do Espírito Santo realmente atuando dentro de minha vida”. Quando perguntei se ele percebia o vácuo espiritual, ele exclamou: “Oh, não! Todas as outras pessoas estavam agindo da mesma forma, de modo que estávamos todos envolvidos com serviço cristão muito bom. De fato, se àquela época me tivesse perguntado, estou certo que eu lhe teria dito que me sentia realizado em todos os sentidos. Mas o que pensávamos que era a nuvem da unção de Deus sobre nós era, provavelmente, nada mais do que a poeira de nossa própria atividade”.

            Neste ponto, o casamento deles era típico do da maioria dos casais de estudantes. Eles se aconchegavam e se abraçavam muito, lutando para encontrar o seu caminho. Nenhum dos pais de ambos havia estabelecido ou modelado um relacionamento afetuoso, que servisse de exemplo para eles. Eles estavam aprendendo um do outro, e ambos concordam que foi “difícil”. Sally diz que tinha muitas necessidades emocionais, era muito ciumenta e se agarrava a Douglas, procurando segurança. Ambos estavam em um nível espiritual superficial. Ao redor deles havia se formado uma concha, a concha de seus primeiros anos juntos, e “nós sobrevivemos devido à experiência física do amor, a emoção dos filhos, a excitação de estar entrando no ministério”.

            “Não obstante, o nosso casamento naquela época era bem corriqueiro”, lembra Douglas, “as minhas ambições estavam nada mais do que dormentes. Estava crescendo em mim um desejo impulsivo de sucesso e poder. O meu único alvo era subir ao topo da escada eclesiástica, tornar-me pastor de uma grande igreja, a maior do país, e também tornar-me presidente de nossa grande Denominação. Isso, para mim, seria o sumo do sucesso”. 

            Tudo parecia estar caindo em seus devidos lugares, Parecia que Deus estava sorrindo para eles, e seguindo o plano deles. O primeiro convite que ele recebeu, logo que saíram do seminário, foi de uma igreja bem grande, como pastor adjunto. Os móveis deles nem sequer haviam sido arrumados direito ainda, na casa pastoral, quando a tragédia se abateu – não sobre eles, mas sobre o pastor principal. Ele teve um sério ataque cardíaco, e foi removido, tornando-se incapacitado. Passara-se apenas um mês, e já esse agressivo graduado do seminário estava sendo catapultado para a posição de pastor titular, na idade de vinte e seis anos.

            Sentar-se detrás da escrivaninha de pastor titular era uma coisa inebriante para esse jovem pregador. Ele tinha poder, proeminência e controle; as pessoas estavam se convertendo, a igreja crescia, mas ele era como um marinheiro novo ao leme de um navio de guerra. Quando se lhe perguntava se ele era capaz de fazer aquele trabalho, ele confiantemente repetia o chavão, que parecia espiritual: “Deus e eu podemos fazer qualquer coisa juntos”. Mas era uma jactância oca de um homem oco. Ensoberbecido com o pensamento de que estava no caminho do sucesso, ele começou a fazer manobras para abrir caminho através dos canais de influência e poder na comunidade. Enquanto gozava da alegre companhia dos executivos e líderes profissionais da cidade na Associação Cristã de Moços, no Rotary, no Lions e no Clube local, o seu casamento mantinha-se coeso apenas pela atividade estonteante que havia ao redor deles. “Eu estava faminto de poder. Queria ser rei. Queria ser presidente de todas as organizações”. Sally estava envolvida com os filhos – tinha chegado outro – e não entendia a necessidade de Douglas de ser louvado, ou sua luta com um vazio interior crescente. As palavras dele são reveladoras: “O anseio por amor que eu sentia no fundo do coração era quase canibal – procurando devorar qualquer pessoa ao meu redor que parecesse disposta a ser consumida”. Sally não entendia isso. Em vez de se aproximarem, para obterem apoio e compreensão, tendo em vista seu casamento, cada um deles tinha o seu projeto: ele, a igreja, ela, os filhos. As suas necessidades pessoais continuaram, sem serem reconhecidas ou satisfeitas. Um vácuo. Um ambiente perfeito para um “caso”.

            Até para um pastor.

            E isso não é surpresa. Os pastores não são menos susceptíveis ao impulso sexual e à paixão do que qualquer outra pessoa. Se diferença existe, eles são mais susceptíveis. Eles estão expostos a todo tipo de doença emocional e espiritual. As pessoas que os procuram, pedindo ajuda, estão buscando amor simpatia. Alguém que cuide delas. Qualquer pastor, com apenas um toque de compaixão, não pode deixar de se identificar e sentir com o seu povo que sofre. Não só os pastores, mas qualquer pessoa que está em uma profissão destinada a ajudar as pessoas enfrenta as mesmas tentações. Há anos, um pastor contou-me como o seu aconselhamento a uma mulher jovem, em sua igreja, tornou-se a sua ruína.  Enquanto ela chorava lágrimas de alegria, ele a confortou e a abraçou. Dois corpos quentes se tocaram e se fundiram juntos. O fusível foi ligado. Logo aconteceu a explosão inevitável.

 

            Foi assim que começou o primeiro “caso” de Douglas. Um beijo inocente de uma garota agradecida pela obra de Deus em sua vida. A motivação dela era pura, mas um fusível foi ligado, que provocou uma reação em cadeia, e, embora ela e seu jovem pastor fossem ambos inocentes... bem, deixemos que Douglas conte o caso.

 

            “Os pensamentos de imoralidade com qualquer uma das senhoras de minha igreja jamais havia entrado em minha cabeça. Eu achava que estava imune a isso. E então, certa noite, eu batizei uma jovem que havia sido uma verdadeira prostituta, mas que então aceitara a Cristo. Depois daquele culto vespertino de batismo, ela vestiu-se e voltou ao meu gabinete para me agradecer. O cabelo dela ainda estava úmido da água do batismo. Para minha surpresa, ela lançou os braços ao meu redor e estalou um beijo na minha boca, e disse: ‘Nem sei dizer como me sinto maravilhosa e purificada, agora’. Aquilo, provavelmente, fora uma espécie de expressão muito natural para ela – bem meiga. Foi tudo tão espontâneo, e, estou certo, tão puro. Da parte dela não havia nenhum propósito oculto, mas uns sinos começaram a tanger dentro de mim, e isso abriu toda sorte de desejos. A lembrança daquele beijo ficou comigo durante vários dias. Eu lembrei o seu sabor e o revivi muitas vezes, e comecei a sentir que estava no limiar de uma nova aventura – não procurando algo, mas certamente aberto para  uma aventura”.

 

            Essa armadilha satânica fora colocada, e ele sentira o cheiro da isca. Já era tarde para seguir o conselho de John Dryden: “E melhor recusar a isca do que debater-se no laço”. E, um mês mais tarde, apresentou-se a oportunidade para satisfazer o desejo. Se a tentação está esperando à porta, o Diabo tomará providências para que alguém esteja ali para abrir a porta depressa. E essa porta aberta sempre parece tão natural, tão coerente, tão predestinada.

 

            Eram quatro horas da tarde, quando a porta foi escancarada, aberta por um “amigo do peito”. “Eu me lembro muito bem como entrei no hospital para visitar a esposa de um de nossos melhores amigos. Vivíamos a poucos quarteirões de distância, havíamos passado as férias juntos, algumas vezes, éramos ativos na mesma igreja, e a esposa eras especialmente uma íntima amiga de Sally. Elas faziam muitas coisas juntas, e tinham grande consideração uma pela outra. Quando eu estava me preparando para sair, ela agarrou a minha mão e disse: ‘Você não sabe disso, mas isto está no meu coração há dois anos. Eu estou profundamente apaixonada por você. Eu o amo de todo o coração’.

Puxa! Foi como uma festa de São João. Tudo começou a explodir dentro de mim e ao meu redor. O meu coração começou a bater, e as palmas de minhas mãos, a suar, e a minha boca ficou seca, os meus olhos se dilataram. Mas eu saboreei aquelas primeiras sensações embaraçosas, e saí do hospital pisando nas nuvens. O resto da tarde foi um quadro psicodélico, e eu estava de volta às sete da noite, para ouvi-la dizer aquilo de novo, beijá-la e abraçá-la. Nós ambos começamos a viver esperando o dia em que ela tivesse alta e pudéssemos ‘mostrar o nosso amor um ao outro’.”

            Aquela vista pastoral tornou-se um convite apaixonado que não pode ser negado. Um impulso irrefreável incendiou essa “transa” ardente por cerca de dois anos. Durante dois anos eles tinham os seus sinais secretos na igreja, os seus lugares secretos, onde deixar bilhetes de amor, os seus encontros secretos. Ansiando por poder, ele agora o tinha sobre outra pessoa, e isso era emocionante. ‘E eu comecei a ter as mesmas sensações que tivera no ginásio, quando Sally e eu começamos a ter as nossas pequenas intimidades. Aquelas palpitações do coração agora voltavam, e eu disse para mim mesmo: ‘Estou apaixonado. ’”

            A essa altura, achei que precisava perguntar: “Sally, onde estava você? O que estava acontecendo lá ‘na cozinha’? Sally continuou a história: “Bem, eu soube imediatamente que algo estava errado, mas não estava certa do que era. Suspeitei que houvesse algo entre Douglas e Joanne, mas não sabia até que ponto estava indo nem como lutar contra aquilo. As minhas intuições estavam captando sinais por toda parte, e as luzes vermelhas piscando. Tentei afastar-me da família de Joanne – não tivemos mais jantares juntos, não reunimos mais as duas famílias nem tivemos mais férias juntos – mas Douglas insistia em que continuássemos considerando-os como amigos.

            “Mas aconteceu algo de bom”, continuou Sally. “Essa situação derrubou Douglas do pedestal em que eu o tinha colocado. Eu havia pensado que ele não poderia fazer nada de errado; era um homem de Deus. Na verdade, eu estava confiando mais nele do que confiava em Deus. Assim, esse problema realmente me fez recuar, voltar para Deus, e o meu relacionamento com Cristo começou a aprofundar-se, e ele tornou-se mais real para mim”.

            Durante dois anos as coisas continuaram, mas não como haviam sido antes, isso era impossível. Algo tinha que ceder. O que é que acontece por detrás das portas fechadas do coração e da mente do pastor, quando ele se torna hipnotizado pelas suas “maças roubadas” e galvanizado pelo seu engano? Como é que um homem cavalga três cavalos selvagens ao mesmo tempo e conserva o equilíbrio, quando eles começam a enveredar por direções diferentes? Quais são? Casamento, ministério e infidelidade. Os chineses têm um provérbio: “Aquele que sacrifica a sua consciência à ambição queima um quadro para obter as cinzas”. O que estava acontecendo com esse quadro tríplice, quando as chamas da paixão e da ambição continuaram incontroladas? Como um homem conserva a sua santidade mental, quando essas forças de seu inferno interior convergem e concorrem?

            A essa altura, o casamento estava em dificuldades. Sally sabia ao certo que Douglas estava dormindo com a sua amiga, e havia brigas diárias. Acusações. Ameaças. “Em público, quando os rumores a respeito do “caso” começaram a vazar, eu defendi Douglas. Eu não estava disposta a permitir que os outros jogassem pedras nele. Eu achava que era algo que nós precisávamos discutir por detrás de portas fechadas. Eu chegava até a negar o fato diante do povo da igreja, enquanto brigava com ele constantemente a respeito, em particular. Chegamos à agressão física, algumas vezes, quando ameacei contar para todo mundo, e abandoná-lo. As crianças tornaram-se as minhas armas contra ele, e, para chamar a sua atenção, eu dizia a elas, na presença dele: ‘Se vocês soubessem quem é seu pai’, ou dizia: ‘Seu pai é....’ Mas ele somente ficava ainda mais furioso. A minha atitude era abjeta, mas eu estava me debatendo de dor, de toda forma que conseguia.

            “Além do mais, eu estava sempre questionando a conversão dele. Eu não entendia como ele podia estar envolvido com outra mulher, e ainda ter boas relações com Deus. E não havia ninguém a quem eu pudesse recorrer. Muitas vezes senti que estava levando essa carga sozinha. Eu me sentia humilhada, ferida, rejeitada. Mas nunca houve o pensamento ou a ameaça de me divorciar. Nós havíamos selado isso quando havíamos nos casado, de forma que eu nunca desisti. Certamente Douglas estava deixando Deus de lado, deixando-me de lado, mas eu sabia que Deus o faria voltar à razão, embora o processo fosse doloroso, penoso. Eu cria de todo o coração que, enquanto eu fosse obediente a Deus, ele cuidaria de meu marido.

            “Provavelmente, o senhor pode estar tendo interrogações a respeito de nossa vida sexual. Embora eu usasse tudo contra ele, nunca recusei-lhe o sexo. Sexualmente, eu procurava satisfazer todas as necessidade dele, e isso foi uma ‘tábua de salvação’. Raciocinei que, já que ele estava indo a outros lugares para se satisfazer, se eu pudesse satisfazer em casa, afastá-lo-ia desses outros lugares. Muitas vezes eu chegava a ranger os dentes, mas sabia que seria errado se eu me negasse a ele. Acrescentar erro ao erro dele não ajudaria. Dois erros não perfazem uma coisa certa”.

         Qual era a reação de Douglas a isso? Sally estava certa. Embora ela soubesse que eu estivera com outra mulher naquela manhã, ela nunca se negou a fazer sexo naquela noite. Penso que, se ela se negasse, me teria feito sair de casa. Mas disse que isso era problema meu, não dela, e ela estava ali para se dar a mim. Tudo o que tenho, devo a ela”.

            Mas o que estava acontecendo com a consciência de Douglas? “É claro que todo homem que comete adultério também mente. Ambos os pecados vicejam lado a lado. No ato de mentir, o processamento começou a ser muito rápido. Eu precisava manipulá-la, subjugá-la. Diante das acusações de Sally, eu dizia: ‘Você está imaginado coisas. Há algo errado com você. Pessoas normais não são ciumentas assim’. Eu tentava convencê-la de que ela estava louca.

            “E havia aquele terrível conflito interior. Eu achava que amava ambas. Algumas vezes, durante a noite, eu sonhava. O que aconteceria se eu tivesse que escolher uma das duas? As duas estão no carro, o carro pegou fogo, e eu posso tirar só uma delas. Qual delas vou escolher? Ah, se minha esposa morresse! Embora eu não expressasse esse desejo audivelmente, esse desejo de morte tornou-se tão forte que foi transferido espiritualmente para Sally. E ela começou a desejar morrer. Eu literalmente colocara esse desejo no espírito dela. Intuitivamente. O pecado sempre acaba em morte, propriamente dita, ou em se desejá-la. Ele começa como uma coisa pequena, uma brincadeira, mas termina com você tendo realmente a vontade de que a sua esposa morra”.

            E o ministério de Douglas? Será que ele tinha problema em pecar sábado à noite e pregar o evangelho no domingo de manhã?  Outro pastor que conheço tornou-se mais legalista e reprovador, em suas pregações, para afastar as atenções de seus próprios pecados. Douglas respondeu: “Tornei-me endurecido. A obsessão impulsiva dentro de mim era continuar aquele ‘caso’, não importava como, e eu nunca parei para analisar as coisas loucas, estúpidas que eu estava fazendo. Não havia nenhuma luta semanal antes de subir ao púlpito, pensando como eu podia fazer aquilo. Eu estava totalmente cego. Havia tanta cegueira e engano que eu conseguia justificar o que estava fazendo. De fato, eu pregava melhor quando tinha estado com Joanne na noite de sábado. Mas eu restringia a minha pregação. Eu não diria, do púlpito, que adultério é pecado. Eu rodeava o assunto. Eu tinha muito cuidado, ao atacar os mentirosos. Tudo soava correto, mas eu chegava até a beira e voltava atrás, para não chegar a condenar a mim mesmo no processo. Mas ninguém jamais podia dizer que eu não estava sendo bíblico.

           “E as pessoas estavam sendo salvas. Casamentos sendo restaurados. Eu ainda fico perplexo com isto, porque os meus estudos teológicos diziam que Deus não pode usar pessoas nessas condições. E a minha lógica diz que não há maneiras de se colocar essas duas coisas juntas. Mas eu era como aqueles leões de pedra, com água saindo de suas bocas. O poder de Deus estava operando através de mim, mas não estava operando em mim”.

            Mas o tempo de Deus finalmente chegou, pelo menos o começo dele. A estratégia dele com cada pessoa é diferente, mas os princípios são os mesmos. Um por um, ele remove as escoras, e nos deixa expostos, até que possa obter a nossa atenção. Algumas vezes é uma abordagem direta, sobrepujante. Outras vezes, começa com uma pobreza interior. Mas ele está decidido a completar a obra que começou em nós, não importa quantos obstáculos o nosso orgulho coloque no caminho. Ele nos levará de volta ao caminho real, não importa quantos coelhos estejamos caçando. À sua própria maneira e no seu tempo certo, ele põe os desprezíveis para fora do céu.

           Com Douglas começou durante os feriados de Natal e Ano-Novo. Ele havia mandado a família passá-los com os parentes no Estado de Michigan, e decidira passar a melhor parte da semana sozinho na casa pastoral. “Na véspera do Ano-Novo, eu me lembro que me sentei em casa sozinho, ninguém mais estava na casa, e, ajoelhando-me ao lado de uma cadeira, comecei a chorar. Sem saber por quê. Eu nunca tivera uma explosão emocional como aquela. Repentinamente senti que estava vazio por dentro, e não o havia percebido. Eu não sabia mais como orar. Lembro-me de ter ficado sentado ali, tentando orar por Sally, as crianças e Joane, mas nada saia. Deus ausentara-se. Era a primeira experiência que eu tinha de meu tremendo vazio espiritual. A única coisa que conseguia fazer era apenas chorar, soluçar e dizer: ‘O que há de errado comigo?’ E; ‘Ó Deus, ajuda-me!’ Eu não estava disposto a dizer especificamente: ‘Remove isto de mim’.  Eu não conseguia pedir isso. Tudo o que podia dizer era: ‘Ajuda-me’.

            “No mês seguinte, percebi que tudo estava se despedaçando dentro de mim. De fato, comecei a duvidar que conseguisse continuar no ministério. A convicção de pecado começou a aumentar – profunda convicção de que eu era uma fraude e que a situação ao meu redor estava se deteriorando. A minha amante estava começando a fazer exigências inusitadas, que eu não podia cumprir. Ela me telefonava, para saber se eu fizera sexo com minha esposa na noite anterior. Eu não podia suportar isso. Era um ciúme extremo. Ela queria tudo de mim, o que é, sem dúvida, a inclinação natural da mulher. Eu podia suportar uma esposa e uma amante, mas não podia suportar duas esposas. Isso estava muito além de minhas forças, e eu estava sendo esmagado no meio da situação.

            “Na manha do domingo seguinte havia culto. Fui para o templo bem cedo, cerca de sete e meia, para repassar o meu sermão e me preparar para os cultos daquele dia. Ao entrar no santuário, ouvi o órgão e me assentei no último banco. Nossa organista, uma moça solteira de cerca de vinte e sete anos, estava praticando as músicas para o culto matutino. Não havia ninguém mais no templo. Ao ouvir a música, comecei a chorar novamente, incontrolavelmente. Quando me levantei e fui descendo pelo corredor, ela notou que eu estava realmente perturbado, e me disse: ‘O que é que eu posso fazer? Sei que algo está errado’. De repente percebi que ela sabia que eu estava arrasado, e, provavelmente, sabia a razão. Comecei a sentir que talvez muitas outras pessoas também o soubessem.

            “Ela foi comigo ao meu gabinete e, antes de o perceber, eu, por assim dizer, vomitei para ela o que não dissera para ninguém mais. E solucei: ‘Esta coisa com Joane está me matando’. ‘Sim, eu sei’. Disse ela demonstrando simpatia. De repente eu me descobri nos braços dela, e ela estava me acalmando e acariciando e dizendo: ‘Eu compreendo’. E, daquele momento em diante, o caso com Joane acabou. Aquele episódio terminou com tudo. Eu nunca mais voltei para ela. Senti, em minha mente, que fora libertado daquele laço, e transferi tudo para a organista. Tirei dali e coloquei aqui. Caso número dois”.

            “Ciúme é o inferno do amante injuriado”, escreveu John Milton – “e cruel como a sepultura”, acrescenta Salomão. Joane, agora repudiada, decidiu que, se ela não conseguia ter o pastor para si, nenhuma outra mulher o teria. O telefone de Sally começou a tocar o dia inteiro: chamados anônimos várias vezes por dia: “Com quem o seu marido está fazendo sexo esta noite?” As crianças recebiam telefonemas de uma voz de mulher disfarçada, que dizia: “Você sabe com quem o seu pai está dormindo”?

            Em minha entrevista com Douglas, agora um maduro homem de Deus, notei várias vezes que ele sobressaltou-se, incredulamente, ao perceber o quanto fora estúpido, louco. Eu não pude deixar de perguntar: “Quais são os elementos desses casos? O que você acha que essas mulheres lhe deram, que sua esposa não lhe propiciava em casa? Riso, surpresas, presentes, apreciação, edificação de seu ego?”

            “Allan, eu não sei. Eu já pensei nisso. A minha esposa me amava muito, e é claro que essas duas mulheres diziam que elas também me amavam. Penso que era a emoção de experiências diferentes”.

            “Como maçãs roubadas?”

            “Sim estou certo de que eram maçãs roubadas. A grama do vizinho parece ser mais verde. A coisa proibida. Quando era menino, eu costumava esconder-me atrás da casa para fumar, porque os meus pais não queriam que eu fumasse. E eu achava que era errado fumar na presença deles. Os meus pais, piedosos como eram, estabeleceram padrões muito elevados para mim. É por isso que nunca pensei em divórcio. Eu podia mentir, enganar, cometer adultério, mas não podia pensar em divórcio, porque o divórcio é contra a vontade de Deus. A minha estrutura moral e ética era uma superestrutura. Eu não estava embutido nela – era um estranho nela, de forma que estava constantemente tentando abrir caminho para sair daquela prisão. Só muito mais tarde a moralidade tornou-se parte integrante de mim”.

            Mas os esforços ciumentos de Joanne estavam começando a fazer efeito. As suas acusações tornaram-se cada vez mais públicas, até que exerceu-se uma pressão crescente do povo, começando a dizer que o pastor e a organista estavam tendo um “caso”. Mas ninguém podia provar nada. Por enquanto.

            Confiantemente, mas estupidamente, Douglas estava agindo com essa moça como agira com Joanne. O mesmo padrão de bilhetinhos de amor, nos mesmos lugares. Mas um bilhete, com os dizeres: “Eu te amo”, deixado sobre o teclado do órgão, nunca chegou às mãos da organista. Acabou nas mãos de um diácono. Evidência “preto no branco”. Os cães de caça do céu haviam alcançado o seu fugitivo.

            Os diáconos exigiram uma renúncia imediata. Incapaz de manipular a estrutura política da igreja ainda mais, Douglas estava numa armadilha. Duas vezes antes, ele havia conseguido enganar o conselho da igreja, e obtido um voto de confiança. Sair voluntariamente teria sido uma admissão da culpa. Teria significado também deixar para trás um relacionamento em que ele se revelara com o mesmo grau de intensidade que um alcoólatra se apega à sua garrafa. Agora ele estava sendo completamente desmascarado. As suas entranhas estavam se agitando violentamente. Desesperadamente, ele tentou mostrar uma fachada de falsa confiança. Porém ela começou a se desfazer quando lhe pediram para sair da reunião e esperar do lado de fora, enquanto eles discutiam o assunto.

            “Em vez de pelo menos simular uma saída tranquila, eu me assustei. Fugi. Tropecei pelo santuário escuro, e me ajoelhei, chorando de medo e confusão. De volta à sala de reunião, os homens estavam decidindo o meu destino. Na sala ao lado, havia um pequeno escritório. Telefonei para Sally: ‘Venha me buscar. Não posso aguentar mais isto’. Desliguei e, com tal vergonha que quase me levou a um estado de choque, encarei a hediondez de tudo aquilo, e fugi a esmo, por um lance de escadas iluminado apenas pela luz vermelha das letras que diziam: ‘Saída’.

            “Sally me encontrou, o pastor do rebanho, encurvado, em posição fetal, em um corredor do porão, amontoado contra a escadaria. ‘Seria melhor para você, para as crianças, para esta igreja, se eu estivesse morto’, solucei.

            “Ela me consolou. Ela me acalmou. Ela nunca perguntou os detalhes. Não havia necessidade. Ela me levou pela mão através dos corredores escuros da casa de Deus até o nosso carro, estacionado debaixo da janela iluminada da sala de conferências. Na época eu não o percebi, mas aqueles homens eram servos de Deus, enviados, pelo Espírito Santo, para realizar a desagradável tarefa de sacudir um homem de Deus, até que só o que fosse inabalável permanecesse.

            “Naquela noite eu me encaminhei até o jardim de nossa bela casa pastoral. De pé sob o céu de outono, olhei para os céus e gritei: ‘Leva-me! Leva-me agora! Depressa!” Em um movimento desesperado, agarrei a camisa e a puxei num repelão, abrindo-a ao peito, arrancando os botões juntamente com a bainha, expondo o meu peito nu aos céus, aguardando o relâmpago que eu esperava que viesse e me abrisse ao meio, levando-me para o inferno – lugar ao qual pertencia.

            “Mas não houve o relampejar do raio, pois o fogo purificador já começara a queimar. Além disso, Deus não pune o pecado da mesma maneira como nós o punimos. Da mesma forma como os fazendeiros, muitas vezes, queimam um pasto, para matar as ervas daninhas, de forma que a grama nova possa brotar, assim também o fogo consumidor de Deus queima a escória, sem consumir o pecador”.

            Seguiram-se a revelação dos fatos e a resignação. A igreja lhes deu três meses de salário, três meses na casa pastoral, mas só até a sexta-feira seguinte para desocupar o gabinete pastoral, com a clara advertência de que eles nunca mais seriam bem-vindos àquela igreja, em qualquer tempo. Os líderes da igreja mal souberam como resolver a situação. Através de todo o estado, toda a região, as más línguas depressa levaram aquelas tristes notícias para pastores e líderes denominacionais.

            Douglas procurou desesperadamente os seus amigos, só para descobrir que todos se afastavam dele. Ele era imundo, um leproso. Noventa e duas cartas foram escritas para amigos influentes, dizendo: “Estou sem igreja. Preciso de ajuda”. Só um se incomodou em responder. Talvez esses homens soubessem o que Deus sabia – e, provavelmente, Douglas também – que ele não estava pronto para outra igreja. Pois, a despeito do quebrantamento, da rejeição e do fracasso, por dentro, na verdade, ele ainda não estava diferente. Só a etiqueta exterior havia mudado, na mesma garrafa vazia. Ele ainda era o magnificente manipulador, o mestre em controlar, o defensor de sua posição. Ele ainda estava procurando manejar as pessoas, ainda era mais um político do que um homem de Deus.

            Uma igreja pequena , mas em crescimento, abriu-se em Ohio – a única disponível. Mas, a fim de conseguir a igreja, Douglas mentiu a respeito das razões de sua exoneração. Depois de se mudarem, Sally dedicava-se às crianças em casa, enquanto Douglas continuava seus contatos com a organista, agora em outro estado, pois ela também fora despedida simultaneamente com ele. Havia correspondência, telefonemas, uma caixa postal particular, encontros clandestinos. Viagens a outras cidades, a serviço da igreja, sempre incluíam um parada secreta, mas que não era secreta para Sally. Ela tornara-se uma boa detetive, descobrindo os chamados nas contas de telefone, os bilhetes e recibos de motéis. “Toda vez que ela saia para fazer uma viagem”, lembra Sally, “eu sabia que ele ia vê-la. Eu o podia perceber pela maneira como ele agia. Muitas vezes eu disse a ele que podia suportar melhor a verdade do que as suas mentiras. De qualquer forma, eu iria descobrir, e isso era mais doloroso do que se ele simplesmente me contasse a verdade logo do princípio”.   

            Logo rumores do passado começaram a se infiltrar até Ohio - rumores de adultério, de manipulação, de mentira. E os sentimentos de Douglas? “Eu continuava a lutar, a arrostar corajosamente o ataque violento e crescente de fatos que continuavam a se amontoar contra mim. A velha ressaca exercia sucção contra as minhas entranhas, e eu sentia que estava para ser varrido de volta para o mar.

            “A crise explodiu certa manhã de domingo, quando subi ao púlpito para pregar. No púlpito havia uma petição, para eu renunciar. Era assinada por trezentas e cinquenta pessoas, muitas das quais estavam assentadas sorridentes na congregação. Um grupo de homens havia contratado um detetive particular e examinado o meu passado. O relatório do detetive – quarenta e sete páginas de fatos terrivelmente distorcidos – havia sido fotocopiado e distribuído a toda a congregação.  Os diáconos exigiram que eu fosse submetido a um teste com o detector de mentiras. Embora eu tivesse passado nesse teste, isso não foi o suficiente. Fui despedido. Não tive escolha, a não ser esgueirar-me envergonhado outra vez para casa, e abraçar-me com minha esposa e filhos, enquanto o fogo de Deus continuava a sua obra purificadora”.

            Havia um pequeno grupo de pessoas que deixou a igreja com ele, ainda crendo nele, e eles começaram a reunir-se como uma congregação pequena, lutando para sobreviver, em uma loja.

            Despojado de tudo o que, para conseguir, ele pisara sobre muitas pessoas – poder, controle, reconhecimento – Douglas agora tinha tempo para pensar. Com trinta e oito anos de idade, ele era um homem arrasado, com sonhos arrasados e anos de fracasso atrás dele e ao redor dele. Durante meses ele havia flutuado com a maré, açoitado por todas as circunstâncias que se apresentaram. Vazio, sem objetivos, mas de certa forma ainda determinado a abrir os seus próprios caminhos.

            Mas o começo de uma mudança de cento e oitenta graus foi uma reunião “casual” com um estranho que se tornara seu amigo. Esse amigo lhe compartilhara uma profunda experiência espiritual – algumas das grandes coisas que Deus fizera por ele – e convidara Douglas a participar de uma conferência, com ele, em Chicago. Conferências eram coisas costumeiras para ele, mas aquela devia ser a experiência de sua vida. Todos os seus outros encontros durante os últimos anos ele havia preparado pessoalmente e procurado infatigavelmente. Esse encontro foi preparado por Deus. Douglas não tinha ideia do que o esperava, à sua família e ao seu futuro, quando atravessou o vestíbulo daquele hotel, e entrou no salão de convenções, onde estava se realizando a conferência.

            Sendo um visitante, sem responsabilidades determinadas naquela reunião, Douglas ficou observando o povo, enquanto este entrava para as reuniões. Ele sentiu o seu deleite e excitação de tão somente estarem ali. Havia reuniões com diferentes oradores, o dia inteiro, para vários grupos: uma refeição variegada de oportunidades espirituais de ensino, inspiração e comunhão.  Contatos pessoais, no intervalo das reuniões, à mesa de refeições e nos corredores, fizeram Douglas entrar em contato frontal com pessoas cujas vidas haviam sido radicalmente e lindamente mudadas por Deus. Tudo isso começou a se focalizar em um vazio interior que estava no centro do ser de Douglas, que havia sido cercado pela sua criação religiosa, seu treinamento, suas atividades. Esta sensação de vazio só aumentou a sua luta, enquanto ele se assentou para assistir à última reunião vespertina. Sem nenhuma intenção de se envolver  pessoalmente ou de responder ao apelo público do orador de ir à frente para orar, ele colocou a cabeça nas costas do assento que ficava à sua frente.

            De repente, sem aviso prévio, ele começou a chorar incontrolavelmente – a chorar tanto que com dificuldade conseguia respirar. Era como se todas as represas interiores tivessem se rompido, e ele estava sendo inundado de dentro para fora. Sentiu o braço de um amigo ao redor dele, e ouviu a sua voz orando por ele. Até essa hora, Douglas sempre se preocupara com a opinião pública, a sua imagem pública. Anteriormente, as lágrimas eram derramadas em particular. Ninguém sabia, ninguém as via. Agora ele estava soluçando convulsivamente, com gente a toda sua volta. Fora posto a descoberto. Não era mais capaz de controlar ou manipular as suas emoções, visando seus próprios interesses.

            Aquela intensa agitação emocional colocou em posição diametralmente oposta o único ponto de todo conflito de sua vida: o medo. “Eu sabia que, se eu me abrisse, Deus iria tirar de mim todas as coisas que eu considerava preciosas, deixando-me à sua mercê, inteiramente dele. Mas eu não aguentava lutar mais, e, como um cavalo selvagem, estava totalmente domado por meu novo possuidor: o próprio Deus. Uma grande paz me inundou, como se Deus tivesse, com a sua mão, enxugado todas as lágrimas. Pela primeira vez na vida senti que era uma ‘pessoa integral’. A luz fora acesa em meu abismo negro.

            “Quando voltei ao meu quarto, no hotel, era meia-noite. A primeira coisa que desejei fazer foi telefonar para Sally, acordá-la e contar-lhe as boas-novas. Eu disse: ‘Eu precisava telefonar para você e dizer-lhe como a amo do fundo do coração’. E chorei novamente. Desta vez, uma espécie diferente de lágrimas. Limpas. Refrescantes”.

           Qual foi a reação de Sally ao telefonema de Douglas, e que significado teve? Sem dúvida, ela pensou que ele estava visitando a sua amante enquanto assistia à conferência. “Sim, mas quando ele telefonou, chorando à meia-noite, para me dizer que me amava, percebi que algo havia se rompido dentro dele. Ele nunca demonstrara emoções, como o choro, antes disso – pelo menos não em minha presença. E então, é claro que eu também comecei a chorar. Ele nem conseguia explicar o que lhe acontecera, mas o resto daquela maravilhosa noite de vigília fiquei pensando se esta finalmente não seria a resposta às minhas orações”.

           No dia seguinte, Douglas pegou um avião diretamente para casa, desta vez com um desejo novo e dominador: contar a Sally toda a história – tudo a respeito de seu encontro com Deus e tudo acerca de seu dois “casos”. Deitados juntos na cama, ele começou uma confissão que durou a maior parte daquela noite de domingo. “Abri o coração acerca de tudo o que havia feito, tudo o que estava fazendo e tudo o que havia planejado fazer nos próximos dias – porque eu tinha um encontro marcado no dia seguinte em outra cidade. Expus tudo. As mentiras, o engano. Apesar de ela chorar, suportou-o extremamente bem. Ela nunca exigiu detalhes, embora eu estivesse preparado para lhe contar todos os detalhes, tudo o que ela pedisse. Foi uma grande catarse, apesar de muito dolorosa para Sally, e especialmente dolorosa para mim.

       “Todavia, pela primeira vez em minha vida, percebi que, se as nossas vidas e o nosso casamento deviam ser salvos, teria que ser através da sinceridade. A única maneira de eu o poder era desarmando-me e dando a ela o pino percussor da granada e dizendo: “Segure-o. Você pode me explodir a qualquer momento, se quiser, mas precisa saber tudo a meu respeito. ‘Tomei a decisão de nunca mais deixar que algo se interpusesse entre nosso relacionamento que eu não pudesse compartilhar com ela. Fosse o que fosse”.

            Perdão!  Esta palavra é linda e é fácil de pronunciá-la. Mas como é que você esquece anos de engano e devastação? Este era o problema de Sally. A confissão de Douglas foi como o nascimento do sol depois de sete anos de noite. Como é que você se acostuma com a luz, quando ela começa a revelar algo a respeito de você mesmo? O perdão se completa em um momento, mas, e a cura, leva mais tempo? O ato de perdoar restaura a confiança automaticamente? E que dizer das cicatrizes?

            Voltei-me para Sally, sentada em uma cadeira ao meu lado, e notei a paz e a serenidade expressas em sua fisionomia. Ela era uma mulher encantadora, agora com quase cinquenta anos. “É claro que eu estava me regozijando”, comentou ela, pensativamente.  “Mas estava um pouco temerosa ao mesmo tempo. Aquilo iria durar? Eu já me sentira desapontada tantas vezes, que hesitava em me permitir crer totalmente que todo aquele pesadelo acabara. Eu não podia relaxar completamente. À medida que o tempo passou, Deus começou a revelar-me as minhas atitudes de justiça própria. Eu ainda estava julgando o meu marido de maneira crítica e sentindo pena de mim mesma, e comecei a querer possuí-lo, controlá-lo. Se eu tão somente pudesse agarrá-lo, não deixá-lo sair de minhas garras, ele não cometeria mais erros. Essa possessividade também me fez tentar modificá-lo, para que não tivéssemos mais problemas. Finalmente percebi que, se Deus havia começado essa obra nova em Douglas, também só ele poderia continuá-la e completá-la. Assim, reunindo toda a minha força de vontade, entreguei-o totalmente a Deus – eu o liberei. ‘Ele é teu... ele realmente não pertence a mim’. E foi então que a verdadeira cura começou a acontecer”.

            Do outro lado da sala estava Douglas; olhei para ele – agora, dificilmente se diria que era o retrato do homem que acabara de me descrever. Como eu, com uns poucos quilos além do peso ideal, ele tem uma fisionomia agradável, com um sorriso fácil, traços animados, mente rápida. “Qual foi o ponto central de sua experiência?” – perguntei. “O que realmente surgiu da experiência purificadora e saneadora que você teve com Deus? Certamente ela afetou as suas emoções, mas como ela mudou a sua atitude, as suas ações?”

            A resposta dele foi clara, limpa. “Fui levado em direção à verdade – verdade para com minha esposa, verdade para com Deus. Imediatamente depois daquela experiência decidi que passaria o resto de minha vida sendo honesto. Eu sabia o que o fingimento nos custara. Perdoe-me a expressão, mas nós dois havíamos apanhado como o Diabo. Assim, ser honestos, na verdade, não nos custou nada. E também uma nova apreciação por minha esposa começou a se desenvolver. Passei a vê-la sob uma nova luz. Eu não só descobri que ela é uma comigo em seu relacionamento com Deus, e igual a mim em sua inteligência e caracterização emocional, mas que em muitas áreas excede muito a mim no que faço. Ela algumas vezes ouve Deus muito melhor do que eu. Também notei que desejava colocar o meu braço ao redor dela em público, e segurar a mão dela, o que não era meu costume. Uma outra coisa: comecei a ver a diferença entre amor e paixão. Os sentimentos que vêm da paixão, eu não posso controlar. Mas posso controlar a maneira como expressarei esses sentimentos em ações. Posso controlar para quem vou telefonar. Para quem vou escrever. Posso controlar quem vou ver, quando vou ver essa pessoa e com quem irei. Aprendi que amor é um ato, e que preciso começar a trabalhar nesse sentido – que os meus sentimentos devem ser colocados sob o controle de meus atos”.

          Faz quinze anos, agora, que o casamento de Douglas e Sally ressuscitou dentre os mortos. A sua casa espaçosa tornou-se uma Betel – uma casa de Deus – onde eles agora têm um ministério que tem alcançado outros casais atingidos pela fratura de um “caso” e que estão lutando com a dor que ele causou. Eles suportaram essa dor pessoalmente. Eles a podem compreender, mostrar simpatia. Eles atravessaram o sofrimento excruciante causado pelas feridas autoafligidas.  Agora podem aconselhar com compaixão e certeza. Quando tão somente um casal pode descobrir, através deles, que há esperança e cura, eles sentem que a experiência que sofreram não foi em vão.

            Enquanto os dois falavam com tanta sinceridade e franqueza a respeito de seus fracassos e da restauração de seu casamento, o meu coração sentiu-se aquecido e estimulado. Desejei que outros casais problemáticos que conheço pudessem enfrentar os seus problemas com tanto sucesso. Levantei-me do sofá confortável, e preparei-me para ir embora. A filha mais nova entrou – uma bela jovem de dezenove anos. Um netinho veio engatinhando na direção deles. Outros netos que vivem perto, brincavam no quintal. Era uma cena tranquila. Senti pena de ter de ir embora, mas o meu avião não iria esperar.

            Mas eu tinha mais uma pergunta para ambos. “Que lições profundas foram gravadas em suas almas, com todos esses problemas, e como é que vocês tratam os ecos do passado?”

            Sally falou primeiro: “Antes de tudo, uma palavra acerca do perdão. É fácil perdoar alguém quando você realmente o ama. Esta foi a única razão por que consegui continuar perdoando Douglas durante todos aqueles anos. Perdão não é apenas algo que você faz. É algo que você é. Não se constitui de palavras que saem de minha boca, dizendo: ‘Eu te perdoo’. É a maneira como uma pessoa vive. Não deixando a vingança para uma hora mais propícia. É apagar completamente a lousa.

            “E, também, o divórcio nunca foi uma opção. Olhando para o passado, fico contente por ninguém ter aparecido, aconselhando-me a me divorciar. Se eu tivesse sido maltratada fisicamente, separação ou divórcio poderiam ser necessários, para a minha proteção. Eu sei que tinha todos os direitos legais e morais de me divorciar, mas preferi permanecer com ele. Vejo toda a mensagem da cruz nos chamando para permanecer no relacionamento matrimonial e morrer para o eu ali. De que outra forma a vida nova jorrará em seu cônjuge, a não ser que você esteja disposta a ‘morrer’?

            “Finalmente, a cura não acontece da noite para o dia. Mas sempre começa com a veracidade – por dolorosa que seja. Ela leva muito tempo, mas melhora cada dia. As cicatrizes ainda estão lá dentro, mas o tempo é um fator curador. Eu me focalizo nas experiências felizes de nossos anos recentes, em vez de nas más recordações do passado tenebroso. Quando um eco do passado repercute, agora podemos enfrentá-lo juntos, com toda franqueza. Por que creio que o casamento é para sempre, Deus me capacitou a me firmar, e agora ele nos abençoou além de nossa imaginação”.

            Douglas concluiu: “Estou convencido de que uma união mística realmente existe no casamento. Nós nos tornamos um. Não somos mais duas pessoas vivendo na mesma casa, dois corpos dormindo no mesmo leito. Em nossos espíritos aconteceu algo que nos tornou um. Esta unidade do casamento tem como condição necessária o fato de cada cônjuge ter total acesso a tudo que está acontecendo no outro. Isso não significa dragar todo o passado, e revelar tudo o que aconteceu antes do casamento. Mas significa viver agora, em nosso relacionamento, com total franqueza. Aconselho os casais da forma que desejaria que alguém nos tivesse ensinado quando começamos. Façam um contrato de que, não importa como doa, vocês dois compartilharão todos os sentimentos que tiverem. Não só fatos, mas também sentimentos, porque os sentimentos são sempre as coisas que nos levam aos fatos. Na verdade, não somos responsáveis por nossos sentimentos, mas pela maneira como os expressamos e colocamos em ação.

            “Sally e eu temos posto em prática deliberadamente este conceito da verdade. A coisa que destrói o casamento é a mentira. O adultério sozinho não destruirá, necessariamente, o casamento; é a mentira. Fomos capazes de resolver o problema do adultério quando o trouxemos à luz. Todo homem tem defeitos e pecados. Só quando você o conserva no escuro é que o pecado cresce e se multiplica. Se ele não é trazido à luz, não há esperança para ele. No começo, eu não queria trazê-lo à luz, porque não queria ajuda. Agora quero ajuda. Assim, se eu for tentado a pecar, quero que a coisa seja exposta imediatamente e isto significa que preciso incluir minha esposa. Pertencemos a um grupo de mais outros quatro casais, com os quais fizemos um contrato de compartilhar e apoiar uns aos outros.

            “E também, lembre-se daquele preceito que foi mencionado ligeiramente acima, a respeito de amor e confiança. Minha esposa o percebeu antes de mim, porque ela achava difícil confiar em mim. Na verdade, não somos chamados para confiar uns nos outros. Não há  ninguém em quem se possa confiar totalmente. Todas as pessoas são capazes de me decepcionar ou trair, e eu sou capaz de trair os outros. Somos chamados para confiar naquele que nunca nos trairá, nunca nos decepcionará.  Mas somos chamados também para amarmos uns aos outros. Se o nosso relacionamento for baseado na confiança, então no momento em que essa confiança for traída, o relacionamento estará destruído. Assim, confio em Deus e amo minha esposa. Ela confia em Deus e me ama. E, se ela me decepcionar, vou continuar a amá-la de qualquer forma, porque é a isso que estou dedicado. O amor de Sally continuou a manifestar-se a mim, preenchendo a brecha que eu constantemente criava, mediante o meu adultério. Ela estava sempre indo ao meu encontro. A distância entre nós continuou a mesma, porque ela continuou iniciando, tendo a iniciativa de me amar. O seu amor, que não me condenava, é a coisa que cobriu uma multidão de pecados.

            “Deixe-me também acrescentar algo à palavra de Sally a respeito do perdão. Temos a tendência de querer perdão instantâneo um do outro. Só Deus pode propiciar isso. Quando digo à minha esposa que o assunto acabou, quero que ela nunca mais o aborde outra vez, por que acho que ela deve fazer como Deus faz – apagá-lo para sempre da memória dela. Porém ela não é igual a Deus. Ela opera na dimensão do tempo, enquanto Deus opera na dimensão da eternidade. Descobrimos  que tempo e paciência são necessários para que o perdão amadureça em cada um de nós, de forma que muitas vezes precisamos esperar um pelo outro, enquanto ele se desenvolve.

            “Finalmente, sei que o fracasso não é fatal nem final. Deus é um Deus restaurador, que nos levanta de onde estamos e nos propicia um novo começo. Eu estava numa verdadeira fossa. Posso dizer-lhe exatamente como ela é, como cheira mal e o que sai dela. Sei o que os ‘casos fazem ao seu cônjuge e aos seus filhos, se você continua nesse caminho. ’ Mas Sally e eu somos testemunhos vivos de que não importa o quanto seja tenebrosa a situação em qualquer casamento, no momento, ou quantas nuvens negras estejam pairando sobre você por causa de fracassos passados, Deus pode perdoar completamente. Os campos que foram consumidos pelos gafanhotos são restaurados com belas colheitas”.

            Nessas circunstâncias tenebrosas, não conheço nada melhor do que esta certeza.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

O Mito da Grama Mais Verde de J. Allan Petersen, 4ª Edição/ 1990, Juerp, págs. 137 - 160.