segunda-feira, 26 de agosto de 2013

CONDIÇÕES PARA O CRESCIMENTO



 
No final de 2008, Gordon Brown, primeiro-ministro da Inglaterra, falou aos diretores da indústria britânica sobre a crise financeira mundial. Ele disse: “É um erro considerar que o trauma da crise financeira atual é algo que precisamos ‘corrigir’ para que as coisas retornem ao que eram antes. A porta pela qual estamos passando não oferece a opção de retorno ao passado. Não podemos mais viver isolados – protegidos e limitados à nossa própria perspectiva, olhando primeiramente para nossos interesses nacionais. Agora, precisamos considerar todo o quadro global. Nossos interesses nacionais são inseparáveis da grande comunidade mundial. As barreiras se foram. O que fazemos para nós mesmos, fazemos para os outros; e o que os outros fazem nos afeta também.”

Ao ouvir isso, pensei: Que percepção! Isso é exatamente o que Jesus disse há dois mil anos, tanto diretamente como por meio de Seus apóstolos: “Diante de vocês está uma porta aberta”; “Em Cristo não há barreiras”; “Vemos as pessoas de modo diferente de como víamos antes”; “Vá a todo o mundo”; “Ame uns aos outros”. Ele está dizendo: nós estamos ligados. O que afeta um de nós afeta a todos. O patrimônio mais valioso da igreja não são suas doutrinas ou finanças, mas as pessoas. Assim, nós devemos ir, espontaneamente, ao seu encontro, apoiar e cuidar de todos os que alcançarmos confirmando seu valor para Deus e para a nossa comunidade e acolhendo-os nela. E quando estiverem conosco, devemos oferecer-lhes um lar e permitir que se sintam amados e aceitos. A igreja que não está disposta ou é incapaz de tal realização é falha.

Quero compartilhar com você alguns pensamentos sobre o “ambiente” que, na intenção de Cristo, deve ser mantido em nossas igrejas – um ambiente acolhedor e que ofereça segurança para os indivíduos crescerem. Meus comentários são sobre a história contada por Jesus e que está registrada em Mateus 13:24-30. É uma história que você conhece bem. É sobre o campo que está quase pronto para a colheita, mas a inevitável erva daninha aparece e complica tudo. Quem é responsável por esse joio e o que deve ser feito com ele? O Dono do campo (e o campo, nessa história, é a igreja ou a comunidade de fiéis) não tem culpa. O joio está lá; e assim é a vida – são assim as pessoas –
e a mesma coisa acontece na igreja.

Então, o que devemos fazer com essa mistura de trigo e joio? Devemos investigar e determinar o que é o quê, e arrancarmos o joio? Jesus disse: “Não, essa não é uma boa ideia.” E essa é Sua decisão final sobre o assunto. “Por enquanto, deixe como está,” diz Ele. “Eu mesmo vou cuidar disso. Há Meu tempo.”

Essa história é incomum; nosso impulso natural é arrancar o joio e, de algum modo, nos livrarmos dele. Mas o Senhor da colheita diz: “Não! Agora não.”

Essa parábola fala muito sobre como o Senhor vê a humanidade e sobre a realidade da vida na igreja. Ele está dizendo que a igreja é formada de solos muito distintos; essa é simplesmente a realidade em que vivemos.

Creio que, pela presença e ação do Espírito, a igreja pode tornar-se uma comunidade melhor; podemos crescer em nosso compromisso e devoção, podemos nos tornar mais úteis a Ele, podemos aprender com nossos erros do passado. Não tenho qualquer simpatia para com os que têm a tendência de realizar uma purificação pré-advento da igreja, impulsionados pela mentalidade de “vamos arrancar tudo o que se parece com joio”.

Quando o Dono da terra diz: “Deixe o joio por enquanto,” Ele não está questionando se na igreja há pessoas que são estranhas ao Senhor. Pode ser que em algum período O tenham conhecido, mas por alguma razão tornaram-se fracos em sua caminhada. Mesmo assim, acham conveniente e seguro permanecer; possivelmente, haja um trabalho em jogo, ou isso envolva questões familiares importantes. Essa é uma triste realidade. Para essa realidade, o Senhor diz: “Deixe que fiquem. Não é uma boa ideia deixar essas pessoas no ostracismo ou como responsáveis pelo terreno; não façam uma limpeza geral. Eu mesmo irei realizá-la quando achar melhor. É muito arriscado deixar que você faça isso.”

Podemos perguntar: “Certamente é bom fazer uma limpeza – não faz sentido? Que risco há nisso?”

O risco é muito alto por causa de minha própria humanidade. Não seria possível que eu cometesse um engano ao avaliar outra pessoa? Tenho certeza, realmente, de que conheço completa e apuradamente o que há no interior da outra pessoa? Certamente, Deus sabe. E se uma pessoa se torna difícil na igreja, especialmente se for um adolescente, não é possível que tal comportamento seja assim porque Deus, de algum modo, está lidando com ele ou tocando em sua vida? Só Deus sabe o que é necessário para nosso crescimento pessoal; eu não sei.

O risco é muito alto porque hoje ainda é o dia de salvação. Pode ser que sejamos capazes de identificar e rotular o “joio”, mas não podemos nos esquecer de que Deus ainda não terminou Seu trabalho. Não estou falando sobre aqueles, em nossas igrejas, que abertamente abusam ou desobedecem aos ensinos da Palavra de Deus. Essas pessoas devem ser disciplinadas pela igreja, para sua própria salvação. A Bíblia dá à igreja a autoridade e a responsabilidade de responder a tais situações. Ao contrário, estou falando de um número maior de pessoas que podem estar gastando seu tempo à margem do reino de Deus. Temos muitos jovens que desaparecem da igreja porque se sentem indignos e rejeitados. Fazemos com que se sintam espiritualmente fracassados. Nós presumimos a mente de Deus muito facilmente. Não é possível que Ele seja mais generoso do que eu?

Vejam essas palavras vindas da pena inspirada de Ellen White:

“Conquanto em nossas igrejas, que pretendem crer em verdades avançadas, haja pessoas em faltas e erros, como o joio em meio do trigo, Deus é longânimo e paciente … Ele … não destrói os que são vagarosos em aprender a lição que lhes quer ensinar; ... Não devem os membros da igreja tomar alguma resolução espasmódica, zelosa, precipitada, ao excluir os que eles porventura considerem de caráter defeituoso.” *

O risco é demasiado elevado, porque a própria igreja é prejudicada por pessoas que se intrometem, mesmo que levemente, na vida e opiniões de outras pessoas. E o estrago pode se espalhar rapidamente; o ambiente pode se deteriorar de tal modo que as pessoas boas podem ser levadas a se sentir inseguras em seu lar espiritual. O ambiente da igreja torna-se desagradável e indesejável, em vez de um lugar onde as pessoas se sintam confortáveis e desejadas, salvas e seguras, aceitas e livres.

Arrancar as ervas daninhas do jardim é muito perigoso porque eu, o investigador, prejudico a mim mesmo com essas atividades. Minha missão equivocada altera meu caráter e minha personalidade se torna sem atrativos. Sou lembrado pelas palavras de um dos meus ex-professores, falando a alguém que, por algum motivo, se vangloriava de seus feitos e criticava as realizações dos outros: “Então, você se acha perfeito, mas tem que ser hostil por causa disso?”

Nossas congregações devem ser lugares de cura e renovação. Devem ser lugares atrativos para receber os infiéis. Devem ser lugares onde os fiéis sintam-se em casa: valorizados e aceitos. Não devem ser campos de batalha, mas cidades de refúgio. Será que a igreja onde você e eu adoramos pode receber tal título? Que tipo de ambiente espiritual estamos criando? Se sua igreja não é a sociedade espiritual mais atrativa e convidativa de sua comunidade, o que você fará para mudar esse quadro?

Nossas igrejas não são clubes exclusivos para os que são bons e merecedores. Deus constantemente está justificando pecadores; eles devem ser calorosamente recebidos em nossas igrejas, pois ela é o seu legítimo lar. Serei franco com você: Detestaria gastar meu tempo circundado por pessoas que pensam que tudo o que fazem é perfeito. Eles se tornam arrogantes, frios e judiciosos para com aqueles que ainda necessitam crescer. Cristo nos aceitou a todos “quando ainda éramos pecadores” (Rm 5:8). A aceitação é o fôlego da humanidade. Onde ela é negada, nossa respiração vacila. O ar se torna rarefeito e a vida, insuportável!

Está ao nosso alcance criar e modelar o ambiente espiritual de nossas comunidades para o futuro. Meu apelo é que criemos um lar feliz, familiar, acolhedor, no qual as pessoas possam se comunicar, compreender uns aos outros, respeitar o lugar uns dos outros e reconhecer que o Senhor está sempre em ação, tornando melhor aquilo que, em nossa opinião, pode ser imperfeito.

* Ellen G. White, Testemunhos para Ministros, p. 45, 46.

O pastor Jan Paulsen escreve mensalmente para a Adventist World, periódico mensal publicado pela Review and Herald Publishing Association.

Fonte: Adventist World (abril de 2009)
http://portuguese.adventistworld.org/

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

“UM CORAÇÃO PURO”


 
            Introdução

            Algumas versões bíblicas trazem alguns subtítulos interessantes antes de alguns capítulos ou passagens. A Almeida Revista e Atualizada no Brasil, 2ª edição, por exemplo, descreve a dramaticidade daquele momento: Salmo de Davi, quando o profeta Natã veio ter com ele, depois de haver ele possuído Bate-Seba. Esse Davi era nada mais nada menos que o rei de Israel e o líder espiritual de um povo – o povo de Deus.

 

            Somente uma mulher para descrever com tamanha sensibilidade aquele momento: “Este período da história de Davi está repleto de significação para o pecador arrependido. É uma das ilustrações mais flagrantes que nos são dadas das lutas e tentações da humanidade, do arrependimento genuíno para com Deus e da fé em nosso Senhor Jesus Cristo”. – Ellen G. White, PP, pág. 726.

 

            “Pecador arrependido”. De quem se trata?

            É de bom parecer deixar a resposta por conta da Palavra de Deus. Está escrito: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 8:23). Em outras palavras; eu e você. Todos que nasceram neste mundo, desde Adão e Eva, com exceção de um, cujo “nome dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4:12).

 

            Acerca da palavra “coração”

            A palavra coração é usada na Bíblia centenas de vezes. Para ser mais exato, em uma versão consultada (Almeida Versão Digital Freeware 6.0), 808 vezes. Entretanto, nenhuma das vezes ela é utilizada para descrever o órgão físico.

            Os autores bíblicos, em sentido figurado dão um sentido muito mais amplo do que as línguas modernas lhe atribuem.

            Atualmente, para nós, o coração é geralmente relacionado com as emoções; na Bíblia, denota o homem interior, a área íntima, escondida do ser, bem como o centro das emoções e do intelecto.

            Dever-se notar que os escritores bíblicos consideravam ser o coração a sede do intelecto e, mais especificamente, o centro da vontade.

            “Quando Jesus fala do novo coração, quer dizer a mente, a vida, o ser todo”. Comentários de Ellen G. White, SDA Bible Commentary, vol. 4, pág. 1164.

           

 

            A importância da pureza de coração

            Por que a pureza de coração é algo tão importante na vida do cristão? Vamos recorrer a Palavra de Deus na busca por mais esta resposta.

            “Bem-aventurados os limpos de coração porque verão a Deus (Mt 5:8).

            “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12:14).     

            Neste processo denominado santificação, que durará a vida inteira ou até Jesus voltar, cada um de nós, que almeja o Céu, terá necessariamente que cumprir etapas, condições, pré-requisitos.

             Como exemplo, II Pe 1:5-7 é muitas vezes descrita como “A Escada de Pedro” merece toda a nossa atenção. Nenhum dos degraus representa autossalvação.

           Cada um deles se baseia num atributo comunicado pelo Céu que representa cooperação com o que Deus já realizou.

           Os degraus são: fé, virtude, conhecimento, domínio-próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor.

            A santificação passa por diversos caminhos, entre eles, o caminho do perdão, da misericórdia, da liberalidade, da justiça, da longanimidade, da bondade, da benignidade, da mansidão e tantas outras virtudes apontadas nas Santas Escrituras; inclusive, pela pureza.

            Assim sendo algumas condições precisam ser satisfeitas para que Deus purifique o nosso coração.

 

            Condições

            O Salmo 51 revela os quatro passos básicos que cada um de nós deve dar, para que o processo de regeneração tenha lugar:

 

            Deve-se ter a coragem de reconhecer o estado pecaminoso.

            O doente precisa reconhecer que está doente: “Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis” (Tiago 5:16).

            “Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares” (Salmos 51:3-4).

            Sem o reconhecimento do estado pecaminoso, sem uma sincera confissão das transgressões, não pode haver perdão e sem perdão não há Céu. “O arrependimento de Davi foi sincero e profundo. Não houve esforço para atenuar seu delito. Nenhum desejo de escapar dos juízos ameaçados inspirou sua oração. ... Não era unicamente pelo perdão que ele orava, mas pela pureza de coração” – Ellen G. White, PP, pág. 725).

 

            Deve-se desejar ardentemente receber a verdade.

            “Eis que Te comprazes na verdade no íntimo e no recôndito me fazes conhecer a sabedoria”. Outra versão bíblica diz: “Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria” (Salmos 51:6).

            Deus usa a verdade para nos santificar; “Tua palavra é a verdade” (João 17:17). Por um lado, revelando-nos os pecados, a Palavra de Deus nos permite ver-nos como somos (ver Tiago 1:23-24); por outro, mostra-nos o que nos podemos tornar por Sua graça.

 

            Deve-se pedir que Deus crie um novo coração.

            Davi conhecia uma verdade e esta verdade está contida neste Salmo. Ela jamais deve ser olvidada – “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” Salmos 51:10 .

            Toda transformação na vida do cristão é feita de fora para dentro. Não temos competências, habilidades ou qualquer coisa que o valha para a realização desta obra que nos habilitará para vivermos a eternidade no Céu, ao lado de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Cabe a Ele executar esta tarefa. A verdade: nós carecemos de um Salvador e esse Salvador chama-se Jesus. É dEle, segundo Sua palavra, através do profeta Ezequiel, a promessa de nos conceder um novo coração: E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne” (Ezequiel 11:19). “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” (Ezequiel 36:26).

 

 

            Deve-se oferecer o eu a Deus.

            “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus”. Outra versão assevera: “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” (Salmos 51:17).

            O que vale aos olhos de Deus não são os aspectos exteriores da santidade, mas a disposição íntima do coração e da mente. (Ver Isaías 1:11-17). Também está escrito: “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Oséias 6:6). Isso é tão importante que o próprio Jesus repetiu esta verdade  duas vezes; em Mateus 9:13 e em Mateus 12:7.

 

            Conclusão

            “Aqueles que têm coração puro abandonaram o pecado como o princípio governante da vida, e esta encontra-se consagrada sem reservas a Deus. ... Ser ‘puro de coração’ não significa que a pessoa está completamente livre de pecado, mas que seus motivos são corretos; que, pela graça de Cristo, ele voltou as  costas aos erros passados e está buscando o alvo da perfeição em Cristo Jesus (Fil 3:13-15)”. SDA Bible Commentary, vol. 5, pág. 327.

 

 

 

 

 

© Nelson Teixeira Santos