sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

NADA DE CINZA



            Não há nada de cinza a respeito de um seguidor de Cristo ver 50 Tons de Cinza. A questão é preta ou branca. Não vá. Não assista. Não leia. Não alugue.

          Eu não quero sequer falar sobre isso. Outro blogueiro e eu andamos em círculos por várias semanas pensando em como poderíamos escrever uma resenha crítica satírica alfinetando aqueles que acham que precisamos ver esse filme para sermos relevantes. Não conseguimos. Não há forma de fazer um humor forte o suficiente para condenar filme tão vil.

            E não, eu não fui ver o filme. Nem sequer assisti o trailer. Também não li uma única página do livro. Ler sobre a premissa na Wikipedia e no IMDb por alguns minutos me convenceu de que eu não precisava saber mais. O sexo é um presente maravilhoso de Deus mas, assim como todos os presentes de Deus ele pode ser aberto em um contexto errado e reembalado em um pacote feio. Violência contra mulheres não é aceitável só porque ela é aberta à sugestão, e o sexo não é aberto a todas as permutações, até mesmo em um relacionamento adulto. Consentimento mútuo não cria uma filosofia moral.

           Sexo é um assunto privado para ser compartilhado na privacidade e santidade do leito matrimonial (Hebreus 13.4). Sexo, assim como Deus designou, não é para atores que fingem (ou não) que estão fazendo “amor”. O ato da união conjugal é o que casais casados fazem a portas fechadas, não o que discípulos de Jesus Cristo pagam dinheiro para assistir em uma tela do tamanho de suas casas.

          Como já disse antes, precisamos ser criteriosos no que colocamos em frente aos nossos olhos, sendo homens e mulheres sentados em lugares celestiais (Colossenses 3.1-2). Se 50 Tons de Cinza é um problema, qual é o padrão de aceitação para o resto da sexualidade livremente consumida? Veja bem, a consciência do pecado não é por si só o problema. A Bíblia é cheia de relatos de imoralidade. Seria simplista e moralmente insustentável – até mesmo antibíblico – sugerir que você não pode assistir ou ler sobre um pecado sem pecar. Mas a Bíblia nunca se deleita em sua descrição do pecado. Ela nunca pinta o vício com as cores da virtude. Ela nunca se entretém com o mal (senão para zombá-lo). A Bíblia nunca cauteriza a consciência tornando o pecado normal e a justiça estranha.

           Cristãos não deveriam tentar “redimir” 50 Tons de Cinza. Não devemos achar bonitinho e divulgar uma nova série de sermões chamada “50 Tons de Graça”. Não devemos envergonhar a arte ou a santidade ao pensarmos que, de alguma forma, algo tão escuso como 50 Tons vale a pena ser visto ou analisado. De acordo com a lógica de Paulo, é possível expor um pecado e mantê-lo escondido ao mesmo tempo (Efésios 5.11-12). “Um bom homem se envergonha ao falar do que várias pessoas não se envergonham de fazer” (Matthew Henry).

           Alguns filmes não merecem uma análise sofisticada. Eles merecem um sóbrio repúdio. Se a igreja não pode estender graça a pecadores sexuais, nós perdemos o coração do evangelho. E se nós não podemos falar que as pessoas devem ficar longe de 50 Tons de Cinza, perdemos a cabeça.



AutorKevin DeYoungKevin DeYoung is senior pastor of University Reformed Church (RCA) in East Lansing, Michigan, near Michigan State University. He and his wife Trisha have six young children. You can follow him on Twitter.

Traduzido por Marianna Schulz | Reforma21.org | Original aqui
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

FALÁCIAS E A ORDENAÇÃO DA MULHER


            Algumas pessoas são extremamente sensíveis. Isso se manifesta claramente quando assistem a um filme. São as pessoas que choram, que gritam, que usam linguagem corporal e facial para expressar seu intenso envolvimento com o filme a que estão assistindo. O mais engraçado é perceber que em alguns momentos essas pessoas parecem achar que conseguirão influenciar de alguma forma o destino da história desenvolvida diante delas. Você ouvirá em alguns momentos: “Não faça isso! Como você é burro!” “Não entre aí, porque o homem que quer lhe matar está dentro desse quarto!” “Rápido! Rápido! O tempo está acabando!” Todos esses clamores do espectador basicamente se traduzem em: “Se você soubesse o que eu sei, sua decisão seria diferente.” Essa situação não é encontrada apenas em cinéfilos, mas em situações do dia a dia. Vemos alguém tomando uma decisão que temos certeza de que seria diferente, caso a pessoa tivesse as informações ou a experiência que nós temos.

            O que isso tem a ver com a discussão atual a respeito da ordenação de mulheres? Muita coisa! Com este artigo, pretendo mostrar que se os membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia soubessem de algumas nuances e falácias relacionadas com o debate da ordenação de mulheres, provavelmente a opinião deles seria diferente. Quem sabe não teríamos tamanha polarização entre leigos, teólogos e administradores da igreja e, certamente, não encontraríamos tanta má utilização de argumentos tanto de um lado quanto do outro. Opiniões seriam mais respeitadas e argumentos seriam mais bem desenvolvidos.

            É importante primeiro entender com o que estamos lidando ao falar sobre a ordenação de mulheres e a Conferência de 2015. A discussão atual não é se mulheres podem atuar como pastoras (esse cargo já é reconhecido pela IASD), nem se mulheres podem ser ordenadas (elas já podem ser ordenadas diaconisas e, em alguns casos, anciãs). O debate é especificamente sobre a ordenação da mulher ao ministério pastoral. O motivo pelo qual estou abordando as falácias utilizadas no debate sobre ordenação de mulheres (em geral) é porque alguns advogam que a ordenação da mulher, tanto como diaconisa quanto anciã, e a possibilidade de ser ordenada pastora, deve ser oficialmente abolida.

            Mas o que é uma falácia? Trata-se de um defeito em um argumento que consiste mais do que em premissas (razões) falsas. Todo argumento é constituído de premissas (razões para defender uma conclusão) e uma conclusão. Argumentos podem ser tão simples quanto: “Todo adventista guarda o sábado. Eu sou adventista. Portanto, eu guardo o sábado.” Tudo o que tentamos defender é seguido de premissas, razões do porquê defendemos aquilo. Porém, ao desenvolver argumentos, muitas pessoas os desenvolvem da forma errada, ou com premissas falsas, ou com defeitos no argumento (falácia). Por exemplo, alguém pode dizer: “Não devemos confiar nas doutrinas adventistas porque fulano é adventista e tem um caráter nada exemplar.” Esse argumento, por mais que seja um argumento, é falacioso. Ele cai na falácia chamada ad hominem (contra o homem), que acontece quando alguém vai contra um argumento ao abusar verbalmente de outra pessoa. Esse é um defeito no argumento porque o argumento bíblico/religioso de alguém não é uma pessoa.

            Agora que entendemos melhor o que é uma falácia, antes de comentar aquelas utilizadas no debate sobre a ordenação da mulher, deixe-me esclarecer algumas questões.

            Minha posição no assunto não importa. Você pode se perguntar como isso é possível, uma vez que estou escrevendo um artigo a respeito. Apesar disso, o que irei expor a seguir não é fruto da minha predileção por um posicionamento, mas sim fruto da minha predileção por argumentos válidos quando se trata de um posicionamento. Sou formada em teologia pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo. Fui uma das cinco mulheres que cursaram teologia entre 2006 e 2009, em meio a quase 500 alunos homens. Porém, nunca senti o desejo de ou o chamado para ser ordenada pastora da Igreja Adventista (apesar de repetidamente ser chamada de “pastora”). Minha paixão sempre foi e sempre será levar pessoas a Cristo e disseminar o evangelho correto por onde quer que eu vá. Sempre defendi uma atuação mais destacada das mulheres no ministério, mas ordenação nunca fez parte da minha apologia.

            Em segundo lugar, apesar de já ter ouvido pessoas defendendo o contrário, sou contra qualquer defesa de princípios bíblicos ou eclesiásticos com base em pragmatismo. Ou seja, “é certo” não implica “qualquer argumento vale”. Pode muito bem ser que a ordenação da mulher não faça parte do plano de Deus para a Igreja Adventista. Mas isso não nos autoriza a utilizar argumentos inválidos e falácias para defender essa posição. E vice-versa. A união da igreja é de crucial importância quando se trata dessa questão, mas não deveria levar ninguém a utilizar meios desonestos para chegar a tal fim. Como dizem, o fim não justifica os meios.

           Finalmente, este artigo não busca ser um esclarecimento exegético (bíblico) do assunto. A defesa dos dois lados está disponível na internet para qualquer um que tenha interesse em conhecê-los (www.adventistarchives.org/ordination). Há, inclusive, um livro de edição e autoria evangélica chamado Two Views on Women in Ministry [Dois pontos de vista sobre mulheres no ministério] (Grand Rapids: Zondervan, 2005), organizado por  Stanley Gundry e James Beck. Ele oferece um bom panorama tanto da base bíblica quanto das implicações para os igualitários (aqueles que são a favor) e os complementaristas (os que são contra). O que eu acredito abertamente é: existem versos bíblicos bons e dentro do contexto para ambas as visões sobre a ordenação de mulheres, em geral, e de pastoras, em especial. É por essa razão que tenho a tendência de concordar com a posição de que, por não existir forte base bíblica para qualquer um dos lados, cada Divisão mundial da Igreja Adventista deveria ter a liberdade de decidir a favor ou contra, levando em conta assuntos como a aceitação da cultura e a necessidade urgente de auxílio pastoral. Meus motivos contra a ordenação se caracterizam mais como pragmáticos do que bíblicos.

           Para deixar claro como o sol: meu objetivo não é defender uma posição ou provocar conflitos, mas, simplesmente, apontar as falácias utilizadas nesse debate (principalmente do lado complementarista) e ajudar a promover uma compreensão mais objetiva do que é um bom argumento e do que não é. Vídeos e textos em defesa da visão complementarista podem ser facilmente encontrados na internet. Também não estou alegando que todos os que participam dessa conversa utilizam esses argumentos, mas todos já foram escutados ou lidos por mim em algum meio de comunicação.

           Sem mais delongas, vamos ao assunto do título: falácias e a ordenação da mulher.

           Falácia da rampa escorregadia

           Ao lermos o que se diz contra a ordenação da mulher, encontramos repetidas vezes argumentos semelhantes a estes:

            Se aceitarmos a ordenação de mulheres, em seguida teremos que mudar todo o nosso método de interpretação bíblica, e isso vai mudar doutrinas adventistas com o tempo. Depois disso, aceitaremos a agenda social do homossexualismo. Uma coisa certamente levará a outra! Se fosse só uma questão de ordenação da mulher, tudo bem, mas é mais do que isso. Tudo vai mudar depois disso. Essa será uma decisão destrutiva para a interpretação bíblica da Igreja Adventista.

            Essa falácia é conhecida como “falácia da rampa escorregadia” (ou “bola de neve”). Ou seja, ela ocorre quando a conclusão de um argumento se baseia em uma suposta reação em cadeia e não existe razão suficiente para pensar que essa reação irá, de fato, acontecer.

            Muitos filhos reconheceriam essa falácia por já terem ouvido da boca da mãe: “Filho(a), se você sair hoje com aquele menino(a), você vai virar um delinquente. Amanhã você estará usando drogas, depois vai começar a roubar e daqui a pouco tempo estará na prisão, onde certamente você vai morrer. Ou vai sair da prisão e morrer!”

            O exemplo foi exagerado, mas demonstra bem o erro do argumento. É difícil compreender como a ordenação de mulheres pode desencadear uma cadeia de eventos tão desastrosa, e certamente não existe razão suficiente para pensar que ela de fato acontecerá.

           Falácia da falsa dicotomia

           Outro argumento utilizado e que pode ser colocado de maneira formal é o seguinte:

            1. Ou a Bíblia tem uma mistura de mandamentos universais e mandamentos culturais e é uma mistura de verdade e erros, ou todos os seus mandamentos são universais.
            2. A Bíblia não é uma mistura de verdade e erros.
            3. Portanto, todos os mandamentos da Bíblia são universais.

            Ou:

            Uma igreja que segue a Bíblia e a Jesus Cristo não ordenaria mulheres. Devemos ser a igreja de Jesus, o “povo da Bíblia”, o que sempre nos consideramos.

            A falácia que aparece nesses dois argumentos é chamada de “falsa dicotomia”. Ela é cometida quando o argumentador apresenta duas alternativas pouco prováveis como se elas fossem as únicas disponíveis. O argumentador então elimina a alternativa menos desejada, deixando-nos com a que ele prefere. Você se lembra de alguém que já tenha lhe falado: “Ou você concorda comigo sobre esse assunto ou você vai se perder eternamente”? Talvez não tenham lhe falado isso abertamente, mas implicitamente.

            No primeiro argumento acima, a falácia está em não apresentar uma terceira alternativa, certamente mais equilibrada, de que a Bíblia possui, sim, mandamentos culturais e universais, mas isso não quer dizer que ela seja uma mistura de verdade e erro! O que fazer com o mandamento do ósculo santo (1Co 16:20)? Quem está solteiro não deve procurar esposa (1Co 7:27)? Por que dizer que tudo o que foi escrito na Bíblia é para nós, no século 21, obedecermos? Onde está o respeito para com o contexto cultural em que os autores estavam inseridos? Essa é uma das principais regras da interpretação bíblica.

            Em primeira instância, Deus falou com os profetas e o povo daquele tempo. Em segunda instância, essa mensagem é aplicada a nós. Não estou dizendo com isso que aquilo que nos deixa desconfortáveis deva ser descartado e aquilo que se ajusta às nossas ideias deva ser incorporado em nossa vida. Jamais! Mas devemos utilizar instrumentos de interpretação bíblica para ter o discernimento entre comandos culturalmente embasados e comandos universais.*

            No segundo argumento, é fácil ver qual é a falsa dicotomia: ou somos o povo da Bíblia ou ordenamos mulheres. Não há terceira alternativa e não há como unificar as duas ideias. Isso é falacioso.

            Falácia do apelo ao medo

            O medo leva muitas pessoas a fazerem e decidirem coisas que, do contrário, não fariam ou decidiriam. Muitos defensores do complementarismo recorrem a essa falácia, como vemos no seguinte argumento:

            Se permitirmos a ordenação da mulher na Igreja Adventista, logo as pessoas perguntarão por que guardamos o sábado. Pois se fizermos o primeiro por questões culturais, por que não seguimos a norma cultural em relação ao segundo?

            Ao seguirmos a cultura do mundo, estamos deixando os princípios da Bíblia.

            A “falácia de apelo ao medo” é autoexplicativa. O argumentador recorre ao medo da audiência a fim de convencê-la da conclusão. Se existe algo que fomenta o medo de qualquer adventista é ser “do mundo”, a igreja se “secularizar”, se tornar “pós-moderna”. Esses, de fato, são problemas, e a igreja tem feito esforços formidáveis para fugir da tendência de nos adequarmos ao “mundo”. Porém, muitas vezes, “cultura” se torna uma palavra que produz arrepios, e não um fenômeno que sempre existiu e sempre nos influenciará, não necessariamente para o mal.

            A implicação dessa falácia é simples: não sei qual é a relação entre a guarda do sábado e a ordenação de pastoras, mas se eu conseguir convencê-lo de que existe uma relação estreita entre os dois assuntos, o medo prevalecerá.

            Falácia da supressão de evidência

            A Bíblia é claramente contra a autoridade da mulher sobre o homem. Portanto, não devemos ordenar mulheres (nem pastoras).

            A “falácia da supressão de evidência” ocorre quando um argumento ignora uma premissa importante que, se levada em consideração, provavelmente modificaria a conclusão. Isso é utilizado comumente em comerciais como, por exemplo: “Use este desodorante e tenha mulheres caindo aos seus pés!” O comercial deixou de mencionar que as mulheres não vêm “junto com o pacote” do desodorante, mas que, a fim de ter mulheres caindo aos seus pés, você provavelmente também terá que ser apresentável.

            No argumento aparentemente bíblico colocado acima, o argumentador ignora uma premissa importante que poderia mudar a conclusão: a Bíblia também apresenta mulheres em posição de liderança (At 1:12-14; 18:24-26; 21:7-9; Rm 16:1-16).

            Falácia do apelo à ignorância

            Não existe evidência bíblica para a ordenação de mulheres. Portanto, mulheres não devem ser ordenadas.

            Esse é um argumento muito comum na discussão. A “falácia do apelo à ignorância” acontece quando as premissas de um argumento afirmam que nada foi provado sobre algo, e a conclusão então faz uma afirmação definitiva sobre o assunto.

            Essa falácia se torna complicada quando o assunto é ordenação de mulheres, porque não existe uma declaração absoluta para nenhum dos lados. Nenhum verso bíblico diz: “Mulheres não devem ser ordenadas para o ministério”, ou: “Mulheres devem ser ordenadas para o ministério.” Fazer uma dessas declarações é errôneo e implica esperar algo da Bíblia que não está lá.

            Pode-se pensar que estou desviando a atenção do estudo da Bíblia a fim de utilizar métodos filosóficos para discutir a questão. Muito pelo contrário. Creio que somos e devemos continuar sendo o “povo da Bíblia”. Porém, creio que devemos sê-lo de forma responsável.

            Meu desejo é que continuemos a orar pelos líderes da igreja a fim de serem dirigidos por Deus neste ano, não somente na decisão sobre a ordenação de mulheres, mas também no desenvolvimento e no uso de argumentos a favor ou contra.














Autora: Marina Garner Assis - formada em Teologia pelo Unasp e mestranda em Filosofia da Religião pela Trinity International University, nos EUA

* Para uma ótima obra adventista sobre métodos de interpretação bíblica, veja George W. Reed (ed.), Compreendendo as Escrituras: Uma abordagem adventista (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2007).

** Quero agradecer ao meu amigo e teólogo Matheus Cardoso pela edição do texto e esclarecimento de pontos importantes.


Fonte: www.criacionismo.com.br