terça-feira, 26 de março de 2013

QUEBRANDO TABUS - PARTE X


 
Chapter Six

Aconteceu e Agora?

Muitos maridos e esposas pensam que é mais fácil promover a separação do que consertar o casamento. Só quando já é tarde demais é que eles percebem que escolheram o caminho mais fácil, mas não o mais sábio.

 

            Um homem de meia idade e sua esposa estavam de pé na lama e água, olhando tristemente para as ruínas e os escombros de sua casa e de tudo o que possuíam. Eram vítimas de um furacão. A sua bela casa de praia, no Texas, outrora uma propriedade invejável, agora não passava de uma grotesca pilha de pedras, madeiras, eletrodomésticos, móveis, comida e roupa – tudo ensopado de água salgada. As sirenes que advertiam da tempestade haviam soado, dando o seu aviso, mas eles pensavam que estavam em segurança. Não haviam suportado outros vendavais igualmente severos? E este não seria diferente. As ondas retumbantes, que outrora faziam parte do panorama que se via da porta da frente, agora haviam destruído a casa.

            Ao olharem, pasmos, para aqueles destroços chocantes, interrogações que nunca haviam feito antes turbilhonavam em suas mentes: “Será que devemos chamar a Cruz Vermelha? O lixeiro? O Exército da Salvação? Será que há algo que possa ser salvo ou compense o esforço? Devemos construir aqui novamente? Temos condições financeiras para tanto? É seguro? Ou devemos abandonar isto para sempre”?

            Estas são perguntas muito parecidas com as que são feitas sempre que um “caso” extraconjugal é descoberto e a realidade dele nos atinge como uma onda de maremoto. Podemos construir nosso casamento de Novo? Será que quero isso? Há algo nele que possa ser salvo ainda? Se há, como fazê-lo? Por onde começar? Posso confiar mais uma vez, visto que fui traído? Certa mulher expressou a sua reação inicial de desespero, quando descobriu a infidelidade de seu marido. ”Tudo chegou a um fim abrupto. Sinto-me como se tivessem me pisoteado, e estou entorpecida de dor. É tudo tão sem esperança! Ó Deus, ajuda-me! Ajuda-me!”

            A sua reação inicial e as seguintes, diante do “caso” de seu cônjuge, determinarão, em grande medida, quais serão os resultados finais, em termos de dor e de progresso. A infidelidade pode ser o fato, mas o que você sente a respeito desse fato e a sua reação em relação a ele é que formam o x do problema. Algumas reações são maduras, mas não fortes. Outras são totalmente improdutivas desde o começo, especialmente do ponto de vista do casamento e da família. Algumas reações aumentam o problema, já sério. Vamos discutir cinco das relações negativas mais comuns, antes de acentuar o lado positivo. As tendências humanas naturais, numa situação de tanta tensão, são: ficar paralisado, autojustificar-se, dar-se por vencido, lutar e forçar.

 

            FICAR PARALISADO

            Esta reação torna a pessoa imóvel por causa da recusa – a recusa de ver e admitir o que as evidências indicam e o coração confirma. Quando alguém está se envolvendo em uma “transa”, há sempre sinais, sinais definidos que mostram que as coisas não estão como estavam antes. Não é simplesmente a questão de encontrar um bilhetinho de amor esquecido num bolso, ou manchas de batom no colarinho. Há mudanças sutis de personalidade, na atenção, quanto à franqueza e respeito à linguagem corporal.

            Para muitas pessoas, o próprio pensamento de o seu cônjuge estar tendo um “caso” torna-as paralisadas, levando-as a negar o fato e a nada da fazerem. As evidências podem estar por toda parte, porém, elas não querem acreditar. Se o marido chegou em casa com manchas de batom no colarinho, elas dirão que provavelmente ele estava andando debaixo de uma escada e pingou tinta na camisa. Sally era assim. Ela me disse: “Eu não parava de dizer a mim mesma que eu estava imaginando tudo aquilo. Não estava acontecendo – não acontece – não vai acontecer. Estou fazendo uma tempestade em um copo d’água”.  Ela levou mais de um ano para reunir coragem para fazer ao marido uma pergunta a esse respeito.

            Nesse ínterim, o seu marido infiel estava fazendo tudo o que podia para ser descoberto, de forma que ela pudesse saber de tudo e ajudá-lo a enfrentar o problema. Era um grito, pedindo ajuda. Ele chegou ao ponto de dizer, à mesa do café, depois de ter estado fora a noite toda: “Cai no sono na casa dela, e acabei passando a noite lá”. Ainda assim não se fizeram perguntas, não houve confrontação. Sally estava enterrando a cabeça em um travesseiro de fantasia, achando, de alguma forma, que pensar no problema poderia acentuá-lo – que a coisa que ela temia pudesse lhe sobrevir.

            Certa amante questionou em voz alta, duvidando que esse tipo de esposa fosse a parte inocente: “Perguntei ao meu amante se a esposa dele está sabendo de nosso relacionamento, indagando: ‘Ela sabe? ’

            “’Ela não quer saber”’ – respondeu ele. “Ela nunca o pergunta. Se perguntasse, eu lho diria”’.

            A mulher continuou: “Em casos como este, não há partes inocentes. Somente seres humanos, que não fazem perguntas por que não querem saber as respostas”.

            Linda Wolfe, que escreveu muito a respeito de infidelidade conjugal, o diz claramente: “Essa recusa em reconhecer o problema é um artifício psicológico que permite que uma mulher finja para si mesma que o marido dela é perfeitamente fiel, mesmo quando ele se esforça para apresentar-lhe evidências de sua infidelidade. Em um caso típico, a mulher que se recusa a reconhecer esse problema tanta apegar-se ao seu casamento, mesmo quando ele não é mais nada além de uma farsa”.

            A recusa em reconhecer o problema é um mecanismo de escape baseado em medo, falsa esperança e falta de confiança em Deus. Há um medo de incapacidade para enfrentar a crise, um complexo de não se ter recursos para enfrentá-la, de não se saber para onde se voltar, nessa confusão. É assim que sentimentos de desamparo, solidão e desespero o inundam, e você não consegue enfrentar as exigências da situação difícil. “Não me posso permitir crer nisso, pois não saberia o que fazer, se fosse verdade”. Pensamentos de suicídio são comuns nessas circunstâncias. Sally, que mencionei acima, disse-me como, durante o período em que ela estava recusando-se a reconhecer o problema, esforçou-se ao máximo, ficando exasperada dia e noite – tendo algumas noites somente três horas de sono – procurando tirar esse pensamento da cabeça. No limiar de um esgotamento nervoso, ela começou a tomar doses exageradas de comprimidos para dormir, para não ser obrigada a enfrentar o problema, pensando: “A única solução é não sentir nada”.

            O caso de Sally pode parecer extremo, mas qualquer espécie de recusa em reconhecer o problema só o estimula e agrava. Essa recusa produz várias coisas desastrosas:

            Você começa inconscientemente a encobrir as faltas de seu cônjuge, dar desculpas para os seus atos, culpar-se pelo procedimento dele. Você torna-se parte do problema, e não da solução. Quando os seus filhos ou seus pais comentam ou perguntam algo, você se apressa a fingir, apresentar um álibi, tirar as desconfianças das cabeças dele. “Ele tem trabalhado muito... ultimamente não tem dormido bem... etc., etc.”.

            Sem querer, você estimula a infidelidade. Nesse caso, o tempo não cura, só proporciona, ao infrator, maior oportunidade. A recusa em reconhecer o problema, exercida passivamente, dá ao “caso” a oportunidade de se aprofundar, até ao ponto em que seja impossível a recuperação, e o casamento esteja condenado.

            Você prolonga o castigo e impede Deus de dar soluções de maneira ativa. Até o próprio Deus fica limitado, se ninguém admite a verdade. Deus não opera de maneira estranha, etérea, na atmosfera que cerca o problema. Ele opera nas pessoas e através delas –através de alguém que toma a iniciativa, confronta, perdoa, sana.

            Parece ao seu cônjuge que você não o ama. Ficar paralisado em uma posição de inatividade também dá a entender ao cônjuge que está se desencaminhando que você não se importa com ele, que o seu amor é fraco, está baseado nas conveniências. O amor forte diz: “Não quero que você continue a ferir-se e ferindo os outros, perdendo de vista o que Deus espera de você”.

            Em uma história verdadeira, a respeito de um casal anônimo, Ellen Williams descreve vividamente a luta de uma mulher com o seu marido pastor. “Duas vezes, nos meses que se seguiram, eu lhe perguntei, deitada ao lado dele, em nossa cama, tensa e tremendo, reunindo toda a minha coragem: ‘Há outra mulher?’

            “’Não!’ disse ele com raiva na voz, dando-me a única resposta que eu desejava ouvir.  Eu me enrolei agarrada às costas dele, desse homem que eu conhecia tão bem, esse homem com quem me casara vinte e sete anos antes, e dormimos ambos, sabendo que ele me havia mentido. Eu o percebera em sua voz, o sentira em seu corpo. Fiz a única coisa que sabia fazer, quando uma coisa é terrível demais para se enfrentar. Voltei as costas ao problema. Se eu o encarasse, quem sabe, ele se desvaneceria.

 

AUTOJUSTIFICAR-SE

Muitos cônjuges traídos sentem fogo por dentro; eles ardem de autocompaixão e justiça própria. Há também hostilidade e humilhação, mas isso se expressa em um “Veja o que ele me fez!” Ao descobrir o “caso” de seu marido, Lorna explicou, numa atitude de choque e descrença: “Depois de tudo o que fiz por ele, este é o agradecimento que recebo! Dei-lhe os melhores anos de minha vida. Fui a mãe dos filhos dele. Mantive a casa limpa para ele. Fiz a comida dele. Tinha uma camisa limpa para ele todas as manhãs. Fiquei ao lado dele nas horas mais difíceis, e agora não sou suficientemente boa para ele. Essa é a gratidão que recebo”. E ela poderia, provavelmente, ter desfiado um rosário de dezenas de outras coisas boas que havia feito para ele.  Ela possuía uma personalidade muito ordenada e tinha a tendência de tomar as rédeas e dirigir as atividades da família e as tarefas diárias com um rigor de sargento. Ela frequentemente dava ordens em voz estridente, em vez de pedir ajuda. A ideia que tinha de um tempo divertido era quando se “fazia algo construtivo”, como reformar completamente o jardim ou fazer seis pares de cortinas em uma noite.

            Lorna era uma boa mulher, mas o seu senso de valores estava inteiramente envolvido com o que ela conseguia realizar. Presumia que essas realizações também edificariam o seu relacionamento conjugal, e, quando não o fizeram, ela sentiu-se ofendida e deprimida, e censurou severamente o seu esposo, que não dava valor àquelas coisas.

            O meu amigo Bob estava não apenas saindo-se muito bem em seu negócio de vendas de automóveis, mas tinha também a imagem que o ajudava naquilo. Ele gostava de roupas finas, bons carros, uma piscina e tudo mais. O interior de sua casa era imaculado, de fino acabamento, e sempre parecia como se jamais alguém tivesse morado ali. Eu o visitei muitas vezes. Quando ele descobriu o “caso” da esposa, ficou perplexo. E exclamou, incrédulo: “Dei a ela tudo o que queria: roupas, carro, dinheiro – redecorei a casa, comprei móveis novos. Agora ela arruinou a minha reputação, aproveitando-se de mim. Acho que é verdade que é impossível entender ou agradar uma mulher”.

           Amor-próprio

           O orgulho ferido está intimamente relacionado com o amor-próprio de uma pessoa e a imagem que ela faz de si própria. O fato de que o seu cônjuge encontrou alguém mais atraente abala esse amor-próprio. Sobrevém um sentimento de incapacidade, e até de desamor a si mesmo. Uma esposa exclamou: “Comecei a sentir-me feia, horrível, e ficava diante do espelho, examinando-me, para ver o que havia de errado que me fazia tão indesejável”.  Evelyn Miller Berger fala de outra esposa, que ficou sabendo que a sua negligência, permitindo-se engordar além da conta, encorajara o marido a iniciar um relacionamento extraconjugal, e que a auto-aversão que se seguiu quase a destruiu. “Meu marido se queixava de eu ser gorda. Ele me perguntava como eu podia esperar que ele se sentisse sexualmente excitado quando o meu corpo parecia um colchão volumoso. Tentei reduzir o peso, mas as suas críticas me levaram a desejar comer mais – uma espécie de consolo. Mas acho que a essa já estava zangada por ele me culpar, e pensava: ‘Bem, se você não gosta disso, eu vou mostrar-lhe que posso comer até ficar tão gorda quanto quiser! ’ Depois percebi que estavas inequivocadamente feia – gorda – e me odiei por isso”. 

            Uma esposa traída sentiu que a sua reputação estava destruída: “Senti que não tinha mais coragem de sair de casa. O que pensariam agora os meus vizinhos, os meus amigos, o povo da igreja? Todos vão chegar à conclusão de que não consegui prender meu marido. Não é justo”, queixou-se ela. “Como ele espera que eu pareça fascinante, quando tenho filhos e casa para cuidar?”

 

            Perfeccionismo

            A reação de um mártir do orgulho é geralmente a reação predominante de um perfeccionista, quando o cônjuge é infiel. O perfeccionista é um indivíduo amedrontado, competitivo, que sempre deseja vencer, dominar e controlar as pessoas que o rodeiam. Muitas vezes ele é um detectador de falhas crônico, e nada é suficientemente bom para ele. Como crente, ele é legalista. Gosta de regras, rituais e padrões, e não consegue viver espontaneamente. Tendo medo de intimidade, ele faz de seu casamento mais um contrato comercial do que um caso de amor sem peias. O sexo torna-se uma obrigação superficial. Há pouco divertimento, pouco riso.

            Tendo um marido brincalhão e galanteador, uma esposa costumava dizer: “George, para com isso. Não somos mais crianças”. Por fim, ele encontrou uma pessoa  que gostava de suas piscadelas e carícias. E a esposa ficou horrorizada. Ao aconselhá-la, minha esposa perguntou-lhe: “Com que frequência você tinha sexo com seu marido?”

            Ela ficou um pouco embaraçada, e respondeu pensativamente: “Acho que a última vez foi por ocasião do aniversário dele... sim... eu lhe dei sexo no seu aniversário”.

            Um presente anual. Quando minha esposa me contou isso, eu disse: Ainda bem que ele não nasceu no dia 29 de fevereiro, em um ano bissexto.

            Ela desempenhou bem o seu papel de mártir e gostou dele. Além disso, pensava que era uma crente bem doutrinada, avançada, e tinha sérias dúvidas de que o marido fosse crente. Desta forma, no conceito dela, o “caso” dele e o divórcio subsequente faziam parte do fato de ela ser “perseguida por causa da justiça”. Claro que essas coisas não tinham nada a ver com isso, mas para suscitar simpatia, foi isso o que ela anunciou a todos.  Ela ainda acha que a solidão que sofre é o preço que está pagando por ser correta, e isto só aumenta o isolamento em que ela vive.

 

            DAR-SE POR VENCIDO

            O cônjuge que se dá por vencido cai em confusão, e assume toda a culpa, esperando pelo inevitável. Dar-se por vencido significa declarar falência, admitir que os seus recursos estão totalmente esgotados, abandonar a luta, desistir de assumir controle, tornar-se vítima. Como estas frases descrevem bem as reações manifestadas diante da descoberta do adultério do cônjuge!

 

            Os Dependentes

            Algumas pessoas, especialmente mulheres, caem em confusão por serem dependentes. A escora da esposa é tirada, e ela cai. A única pessoa de quem ela dependia, a sua muleta, foi removida, e ela não consegue ficar de pé sozinha. De repente ela percebe que se sente deserdada, fraca, indefesa, inadequada e amedrontada, como se de súbito tivesse perdido a capacidade de enfrentar a vida. O futuro lhe parece perigoso, agourento. O hábito sem solução de apoiar-se em outrem a deixou incapaz de sustentar-se física e emocionalmente.

            Mary, o tipo de beata religiosa, veio a mim, pedindo aconselhamento. Ela era uma pequena menina amedrontada, embora já estivesse casada havia dezesseis anos. O seu marido, Bill, havia pedido divórcio, para poder continuar o seu “caso” com Dottie. Mary estava visivelmente abalada – devastada. Dottie era uma jovem coquete do escritório dele, cheia de problemas com o marido dela, e Bill havia se tornado o seu “consolador”. A coisa toda aconteceu como uma bomba, embora Mary me tivesse contado que havia tempos estava ouvindo, todos os dias, falar de Dottie e seus problemas com aquele “cachorro” do marido dela. “Era Dottie no café da manhã, no almoço e no jantar, e embora estivesse cansada de ouvir falar nela, não esperava nenhuma infidelidade”.

 

            Quando Bill requereu o divórcio, tudo o que a sustentava foi retirado, e ela desmoronou. Claro que ele a manejava como a um boneco. Ameaçou ir embora – chegou a colocar as roupas na mala – e ela implorou que ele ficasse.  Ele ameaçou vender a casa com ela dentro, e, como ele esperava, ela deu-se por vencida, pedindo misericórdia entre lágrimas. Exatamente como uma escrava. A sua dependência a degradava, e, na verdade, ela se odiava por isso. “Eu me odeio”, disse ela, “por ser tão imatura a ponto de me apoiar em todo mundo tão fortemente que fico completamente perdida quando sou deixada por minha conta”. A situação mudou tremendamente quando ela experimentou uma conversão a Cristo e, através de seu poder, que lhe infundiu nova vida, começou a exercer ações positivas.    

      

            Os Maltratados

            Algumas mulheres dão-se por vencidas por causa de violência e maus-tratos. Uma amiga graciosa, bem-educada e talentosa que encontrei na igreja, Noemi, ficava paralisada por meio de violência corporal. “Se eu enfrentasse o meu marido com o seu engano e infidelidade”, disse-me ela, “estou certa de que nada o impediria de fazer com que eu e as crianças pagassem caro”. Eu o vi. El era um homem grande e de mau gênio – um touro. A despeito de todas as minhas recomendações para ajudá-la a desenvolver uma estratégia de ação, Noemi não o conseguiu. Ele a havia petrificado.

 

            Os culpados

            A culpa também paralisa, provavelmente mais do qualquer outra reação. Muitas vezes o cônjuge rejeitado olha para dentro de si mesmo e aceita toda a culpa pela confusão sórdida em que seu lar entrou. Esta introspecção não é o questionamento sadio que pergunta se a pessoa contribuiu de qualquer forma para a situação, e reconhece, e aprende de qualquer falha. Pelo contrário, é a procura de um bode expiatório, alguém em quem colocar toda a culpa. E, por causa de suas inseguranças, esse cônjuge assume toda a responsabilidade. Como costumava dizer o comercial da televisão: “Comi tudo”.  Isto não é verdadeiro nem útil.

            A esposa rejeitada muitas vezes recapitula todas as coisas que ela poderia ter feito de maneira diferente, e se detém nos seus erros passados – alguns reais e outros imaginários. Quanto mais analisa o seu passado, mais razões encontra para a sua situação. O seu senso de valor próprio vai a zero; o seu sentimento de culpa se multiplica – falsa culpa, em grande parte. O Diabo impedirá certas pessoas de até fazerem um inventário honesto da situação; outras, ele lança por sobre a amurada e as afoga em autocondenação falsa.

            Certa esposa escreveu para um conselheiro de uma revista evangélica: “Meu marido disse-me que ama outra mulher. A princípio fiquei zangada, mas agora acho que tudo foi por minha culpa. Acho que, como crente, eu devia ter feito mais para salvar o meu casamento. Não contribuí com o suficiente. Não amei o suficiente. Sinto-me um fracasso, tanto como mulher quanto como esposa. Algumas manhãs, mal consigo me arrastar para fora da cama. Preferiria dormir e esquecer. Ainda há esperança?”

            Outra disse: “Não posso parar de me focalizar em meus erros. Sinto-me como a ovelha negra, pois em nossa família nunca houve ‘casos’ antes”.

            Como se todos os aspectos do casamento dependessem dela, outra esposa arrasada confessou: “Fracassei como mãe tanto como esposa, porque não ensinei os nossos filhos de forma que o meu esposo desejasse passar o seu tempo como eles em casa”. Visto que esta mulher evidentemente cria que o seu marido não tinha nenhuma responsabilidade pela criação dos filhos ou pela atmosfera do lar, certamente ela não seria capaz de permitir que ele assumisse qualquer responsabilidade por suas escapadas adúlteras. Dessa maneira, ela as encorajava.

            Os Escapistas

            Outra palavra que seria sinônima de “dar-se por vencido”, neste contexto, seria “fugir”. A tendência natural é correr quando você tem medo, e não tem certeza de onde está o que fazer. Nesse caso, a desistência é uma forma de fuga, de admissão de fraqueza. O escapismo pode desencadear uma recusa para considerar o perdão, uma vingança explosiva ou um divórcio rápido. Porém, seja o que for que torne a pessoa imóvel ou incapaz de agir, é doentio e improdutivo.

            Alguns crentes dão-se por vencidos em face de um “caso” por causa de sua própria fé distorcida e anêmica. A sua marca de cristianismo faz deles capachos para serem pisados e esmagados. Eles acham que não têm o direito de fazer perguntas a respeito do mal, e assim precisam suportá-lo passivamente, e sofrer em silêncio. Eles não se permitem lidar com a infidelidade, mas continuam convivendo com ela e, se necessário, aceitam uma vida de extrema humilhação.

            O problema de toda essa inatividade é que ela recompensa o infiel e prolonga a solução do caso. A infidelidade conjugal é resolvida com uma espécie de ação estratégica, e você não pode iniciar ação estando a toda hora procurando escapar do problema.

 

            LUTAR

            Estou certo de que nunca houve um caso de infidelidade conjugal em que não estivesse evidente a ira – ira da parte daquele que é infiel, devido â negligência real ou suposta que motivou a sua infidelidade, e ira, certamente daquele que se sente traído. Não importa como a pessoa pareça, calma ou compreensiva, na superfície, o ultraje sofrido está queimando por dentro ou se preparando para explodir tudo violentamente. Há ira por causa da vergonha, da humilhação, da desilusão, do engano.

            Certa mulher, acerca de quem li, explodiu quando descobriu a infidelidade de seu marido. “Joguei um prato nele. Disse-lhe que ele podia ir embora, que eu não queria um homem que não me amava. ‘Eu não quero ir embora’, disse ele. ‘Amo você e amo as crianças’. Aquilo me deixou ainda mais furiosa; e joguei um copo nele”. Isso deu a ela um pouco de alívio, mas certamente não resolveu nada. E os pratos são caros.

            Seria mórbido se não houvesse ira contra “a terrível violência psicológica do adultério”. Linda Wolfe diz: “Os psicanalistas chamam o adultério de “ferimento psíquico” e de fato parece haver algo quase visceralmente pungente nesse sentido. Não é apenas uma ferida profunda no ego, mas também na confiança entre os cônjuges – uma ferida que pode e, de fato, muitas vezes termina fazendo um casamento sangrar até a morte”.

            Todavia, por que esta ira é expressa e em que forma se ela é ou não destrutiva? Estamos lutando pelo casamento, contra o mal, contra o cônjuge ou pelas razões puramente egoístas de terem sido feridos os nossos sentimentos? A luta pode assumir várias formas, a saber:

 

            Vingança, que é tão comum quanto inútil e autodestruidora. Embora os escritores do Novo Testamento mencionem várias vezes: “A ninguém torneis mal por mal”, esta é uma tendência muito humana. “Se ele pode fazê-lo, eu também posso”. Muitas esposas cedem ao desejo de revidar, de dar a ele uma prova de seu próprio remédio, de provar que ainda são desejáveis, que ainda podem arrumar um homem – por malvadez.

            Evelyn Miller Berger fala de uma mulher a quem aconselhou. “Eu senti-me justificada em também ter uma aventura”, disse a cliente, com hostilidade franca. “Eu também queria alguma atenção. Mas quando o ‘caso’ acabou, de repende acordei para o fato de que eu era aquele caráter desprezível, ‘a outra’, eu! Imagine só! Boa, firme, a filha mais velha de um catedrático, sempre uma garota direita, no caminho reto e estreito da virtude!”. Embora exista um inegável prazer egoístico em vingar-se, não obstante, isso só complica o problema – o duplica. Agora são dois que saíram da linha e precisam de perdão.

            A coisa mais importante é: Quem está no controle? Se você paga mal por mal – a sua reação é determinada pela ação de seu cônjuge – o seu cônjuge controla você. Reagir, pagando com a mesma moeda, é ser controlado pela pessoa que iniciou a ação. Você é controlado pela pessoa cujas ações você imita. Você cessa de ser o iniciador, e torna-se apenas um reator, e o tiro sai pela culatra. Você não é mais inocente em toda a situação do que o seu marido ou a outra.

             Vingança é mais do que retaliação. É a busca de uma forma para castigar, como pagamento pela injúria infligida. Um marido que prevaricou pode não ficar absolutamente ferido quando a esposa se envolve em uma aventura, como retaliação contra ele. Ele pode alegrar-se com isso. Agora ele tem uma boa razão para adulterar, e mesmo para desmanchar o casamento. Mas, se ela deseja vingar-se por causa do que está sofrendo, vai tomar providências para que ele também sofra.

            Uma divorciada escreveu para a “Dear Abby” depois do “caso” de seu marido. “Eu me portei como maníaca. Gritei e impliquei com ele. Empacotei as roupas dele, e mandei que saísse de casa. Depois cometi um erro fatal. Contei tudo aos nossos parentes e amigos, e me dirigi imediatamente a um advogado e pedi o divórcio. Criei um escândalo tão notório que meu marido não pode mais ficar na cidade”. Ela empatou o placar, e conseguiu vingança. Mas funcionou? “Agora percebo que só estava pensando em mim. Os meus filhos pagaram  o preço do meu orgulho. Eram três meninos com menos de dez anos de idade”. E ela continua: “Os anos se passaram. Os meus filhos agora estão casados, em seus próprios lares, mas eu estou sozinha. Sinto-me arrasada e a minha amargura se manifesta claramente”.

 

            Culpar. A ira toma outra forma: de culpar. O oposto da pessoa que aceita toda a culpa, que mencionei acima, é a que culpa o cônjuge por tudo. Ela explode em justiça própria, com ira, e espera a confissão e a volta de seu marido. Uma mulher disse-me, espumando de raiva: “O problema é dele; não meu. Fiquei cansada destas perguntas: ‘Onde foi que eu errei? Em que eu fracassei? Como foi que eu o negligenciei? , etc., etc.’ Foi ele quem adulterou; não eu. E, por falar nisso, é bom que eu diga que não o empurrei para a cama da outra; ele subiu nela por iniciativa própria”.

            Há também o desejo de lutar contra “a terceira parte”. “Aquela mulher vil roubou o meu marido, e vai pagar por isso”. Se a outra mulher é uma estranha, você pode ter o desejo incontrolável de se defrontar com ela e fulminá-la com as suas palavras. Doris era uma mulher assim. Ela exigiu que o marido revelasse quem era aquele “verme”. Quando ele se recusou a fazê-lo, ela fez com que alguém o seguisse. Mais tarde, quando ela foi até aquela casa, “para ver quem era a sua competidora”, não conseguiu crer no que viu. A casa era simples, pequena, em um bairro de segunda classe – em agudo contraste com a casa grande e o bairro bonito, cheio de árvores, para onde o seu sucesso os havia levado. Ela tocou a campainha e esperou nervosamente. Quando a porta se abriu, não apareceu nenhuma beleza voluptuosa e alucinante enquadrada nos batentes. Só uma dona-de-casa jovem, despenteada, desmazelada!

            Depois de ter injuriado verbalmente aquela mulher e a ter condenado à perdição, Doris exigiu que ela não permitisse que o seu marido a visitasse outra vez. A resposta que recebeu deu-lhe pouco alívio. “Se o seu marido volta ou não vem mais, isso é decisão dele. Eu não posso controlar isso. Talvez ele esteja encontrando aqui algo que não encontra em casa”.

            Se a “outra” é uma vizinha, amiga ou conhecida, você tenta lutar de outra forma: com difamação – no cabeleireiro, no clube, na igreja, nas reuniões. Ela é metodicamente destruída por aquele “pequeno membro”, a língua não domada, que Tiago diz que está cheia de peçonha. 

 

            FORÇAR

            Forçar significa atacar, empurrar impetuosamente exigindo uma solução, manipular as pessoas envolvidas e a situação, para encontrar um conserto rápido. É natural que desejemos nos ver livres de um problema horrível como o que estamos considerando o mais depressa possível. Nenhuma pessoa emocionalmente sadia quer prolongar a dor um minuto mais do que o necessário. Se você tem a tendência de ser uma pessoa que toma iniciativa, é quase impossível ficar sentada e esperar que as soluções apreçam e amadureçam. É quase como se você achasse que qualquer ação é melhor do que nenhuma.

            A descoberta de um caso extraconjugal desencadeia tantas emoções conflitantes – a surpresa do fato, o engano, o desencanto, a traição. Algo precisa ser feito. Como alguém que está se afogando, você se debate na água selvagemente, esperando agarrar-se a algo que seja a sua salvação: o milagre.

            Essas ações desesperadas podem não estar relacionadas umas com as outras e serem até antagônicas. Ou podem ir desde fingir ignorância, manipular circunstâncias, até a citação da Bíblia.

            Judy, uma nossa distinta amiga crente, ficou arrasada devido às infidelidades crônicas de seu marido e o subsequente divórcio. Eu lhe perguntei que reação ela tivera, que se demonstrara negativa, improdutiva. “Eu fiz tudo de espiritual que pude pensar, para tentar resolver a situação. Eu disse a meu marido: ‘Vamos orar a este respeito’, e esperei um milagre. Citei versículos da Bíblia para ele – versículos que ele conhecia tão bem quanto eu, pois ambos havíamos nascido em lares cristãos. Repeti todos os fatos e fórmulas cristãos apropriados. Então, depois que toda a minha pregação não funcionou, mandei  um oficial da igreja falar com ele, usar sua ‘mágica’ espiritual para com ele. Quando todas essas fórmulas espirituais só complicaram o problema, você começa secretamente a perder a sua fé em Deus também”.

            “Que outras coisas de natureza não espiritual você foi tentada a fazer?” – perguntei.

            “Bem, há a tendência de fazer com que o seu cônjuge fique sabendo que você ficaria destruída sem ele, para que cresça o sentimento de culpa dele. E também você tem vontade de espioná-lo, de manipulá-lo, em uma tentativa de separá-lo da ‘outra’ ou de intervir em um salvamento dramático”. “Aprendi, o que foi duro” – declarou Judy, com grande convicção – “que essa espécie de esforços não apenas falharam, mas também pioraram a situação”.

            Estas cinco reações – ficar paralisado, autojustificar-se, dar-se por vencido, lutar e forçar – levam a um beco sem saída. As reações negativas sempre fazem isso. Elas têm uma coisa em comum: propiciam ao cônjuge um pouquinho de satisfação própria transitória, mas não contribuem para a solução do dilema. Apenas agravam um assunto já por si só delicado e inseguro.

            Um pai pediu ao seu filho pequeno que desse graças à mesa. Enquanto o restante da família observava, o garotinho fitou cada prato de comida que a mãe havia preparado. Depois do exame, ele baixou a cabeça e orou sinceramente: “Senhor, não estou gostando do aspecto da comida, mas te agradeço por ela, e vou comê-la assim mesmo. Amém”. A reação certa em uma situação difícil.

            De semelhantes circunstâncias tratará o capítulo seguinte.

 

 

 

 

O Mito da Grama Mais Verde de J. Allan Petersen, 4ª Edição/ 1990, Juerp, págs. 95- 110.

 

EU COSTUMAVA SER PERFEITO:


Um ex-legalista reflete sobre lei, perfeição e adventismo

 

Por George R. Knight, Ed.D
Historiador e ex-professor de História da Igreja na Andrews University

 

Resumo: Neste artigo o autor narra sua experiência pessoal em busca da perfeição, anteriormente entendida por ele como um cumprimento minucioso de inúmeras regras comportamentais. De forma criativa e bem-humorada, ele demonstra a incoerência da teoria perfeccionista, que enfatiza as realizações humanas em detrimento da graça divina. Segundo ele, o conceito legalista sobre perfeição mantido por muitos adventistas baseia-se em uma interpretação equivocada de Apocalipse 14:12, que caracteriza o povo de Deus no tempo do fim como aqueles que “guardam os mandamentos de Deus”. O autor argumenta que, no conceito bíblico, a perfeição cristã consiste em amor altruísta e alegre relacionamento com Deus e o próximo. Portanto, a demonstração final de Deus ao Universo será uma revelação de seu amor.

A coisa mais importante que você pode saber sobre mim é que eu costumava ser perfeito1. Note o tempo passado – eu costumava ser perfeito em um sentido em que agora não sou perfeito.

Por que eu era perfeito? Eu era perfeito porque eu era um adventista do sétimo dia. Eu era perfeito porque Jesus viria logo. E, honestamente,
 Eu queria a fé da trasladação,
 Eu queria o caráter da trasladação,
 Eu queria a perfeição da trasladação.

Converti-me do agnosticismo para o adventismo do sétimo dia com a idade de dezenove anos. Depois de me tornar adventista, olhei para minha igreja, seus membros e seus pregadores, e concluí: Que confusão! Vocês não têm atingido o objetivo. Logo raciocinei que eles tinham falhado em ser perfeitos porque não haviam tentado o suficiente. Eu seria diferente. Eu não falharia. Eu tentaria mais do que qualquer um deles já tentou. Na ocasião eu estava trabalhando na estrutura metálica da construção de altos edifícios sobre a Baía de San Francisco. Ainda me lembro que um dia, muito acima da baía, eu estava meditando sobre a perfeição. Foi então que conscientemente decidi e verbalmente me comprometi a ser o primeiro cristão perfeito desde Cristo – e quero dizer exatamente isso. Eu era desesperadamente sincero. Mas esse pensamento continuou em minha mente, por vários anos.

A Raiz da Fascinação Adventista com a Perfeição

A abordagem adventista sobre ser perfeito começa no livro do Apocalipse, nos importantes textos em que os adventistas vêem retratados a si mesmos e seu movimento. O próprio enfoque de vários desses textos nos aponta na direção do
comportamento. “O dragão”, lemos, “irou-se contra a mulher e foi fazer guerra ao resto da sua semente, os que guardam os mandamentos de Deus” (Ap 12:17)2.

E então, é claro, há o interesse adventista no grandioso texto de Apocalipse 14. Note a progressão: A mensagem do primeiro anjo, iniciada por Guilherme Miller nas décadas de 1830 e 1840, declara que “é chegada a hora do seu juízo” (v. 6, 7). A mensagem do segundo anjo, pronunciando a queda de Babilônia (v. 8), foi iniciada em 1843 por Charles Fitch. Então, surge a decisiva terceira mensagem contra a adoração do poder da besta. Os adventistas têm focalizado especialmente o verso 12: “Aqui está a paciência dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé de Jesus” (ARC). Essa passagem tornou-se o texto-chave no adventismo do sétimo dia. Por quase cem anos ele foi citado integralmente sob o cabeçalho de cada edição da Review and Herald. Apocalipse 14 retrata a mensagem do terceiro anjo como a última antes do retorno de Cristo para “ceifar” a Terra (v. 14-20).

Os primeiros adventistas do sétimo dia eram hábeis em pregar a primeira parte de Apocalipse 14:12: “Aqui está a perseverança dos santos”. Nesse versículo, víamos a nós mesmos como aqueles que ainda estavam esperando pela vinda de Jesus, depois do desapontamento de 1844.

E nós adventistas amamos a segunda parte de Apocalipse 14:12: Aqui estão “os que guardam os mandamentos de Deus”. Ah, eu lhe digo, nós adventistas amamos os mandamentos. Se você vir as primeiras publicações adventistas (e provavelmente algumas de hoje), notará que a ênfase estava sempre na palavra guardar. E essa é uma boa ênfase no contexto de um relacionamento salvífico com Cristo. Aqui estão “os que guardam os mandamentos de Deus”.

Mas os primeiros adventistas não tinham muita certeza sobre o que fazer com “a fé de Jesus”, a terceira parte de Apocalipse 14:12. Eles interpretavam “a fé de Jesus” como um conjunto de verdades que deveriam ser obedecidas. Como resultado, nossos primeiros escritores – Tiago White e quase todos os outros diziam: “Deus tem seus mandamentos. E Jesus também tem seus mandamentos, tais como o batismo, o lava-pés e assim por diante.” Eles desenvolveram uma lista completa de mandamentos de Jesus. Como resultado, os adventistas se tornaram o povo “mandamento sob mandamento”, focalizando não apenas os mandamentos de Deus, mas também os mandamentos de Jesus. Éramos (e somos) grandes empreendedores 3.

“A fé de Jesus” é a porção de Apocalipse 14:12 que Ellen G. White e outros reinterpretaram em Mineápolis em 1888 para enfatizar “fé em Jesus”.4 O texto pode ser traduzido como “fé em Jesus” ou “fé de Jesus”. Muitos adventistas do sétimo dia, ao ler o texto como “fé de Jesus”, têm a tendência de sugerir que o verso está dizendo que podemos ter fé exatamente da maneira como Jesus tinha fé. Assim podemos ser tão absolutamente impecáveis como Ele era absolutamente impecável.

Essa interpretação provavelmente foi encorajada pelos primeiros cinco versos de Apocalipse 14. Diz o verso 1: “Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com Ele cento e quarenta e quatro mil, tendo na fronte escrito o seu nome e o nome de seu Pai”. E os versos 4 e 5: “São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá” – não apenas em parte do caminho, mas por todo o caminho. “São os que foram redimidos dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro; e não se achou mentira na sua boca; não têm mácula.” Ora, essa é uma norma muito elevada, certo? Eles “não têm mácula”, ou como diz a King James Version, “eles são sem falta diante do trono de Deus”. Ora, eu chamaria a a essas pessoas “perfeitas”. E não é difícil ver por que muitos adventistas do sétimo dia pensavam dessa maneira sobre o assunto da perfeição. Afinal, Apocalipse 12 e 14 são textos fundamentais para a identidade da denominação.

Todos sabemos que temos uma espécie de perfeição por meio da justificação pela fé porque estamos em Cristo. Mas esses textos de Apocalipse 14 despertam a pergunta: É suficiente a justificação pela fé, ou devemos ser impecavelmente perfeitos para fazer parte dos 144 mil? E se há algo mais do que justificação, o que deve ocorrer dentro de nós? Essa questão tem dividido os adventistas do sétimo dia por um século. O que deve ocorrer no povo de Deus do tempo do fim?

Antes de prosseguirmos, devemos notar o importante desenvolvimento de Apocalipse 14. Temos os 144 mil, o primeiro anjo, o segundo anjo, o terceiro anjo, e imediatamente após o terceiro anjo o grande drama da segunda vinda – a ceifa. Lemos nos versos 14 e 15: “Olhei, e eis uma nuvem branca, e sentado sobre a nuvem um semelhante a filho de homem, tendo na cabeça uma coroa de ouro e na mão uma foice afiada. Outro anjo saiu do santuário, gritando em grande voz para Aquele que se achava sentado sobre a nuvem: Toma a tua foice e ceifa, pois chegou a hora de ceifar, visto que a seara da terra já amadureceu.”

Os adventistas têm desejado sinceramente estar prontos para a vinda de Jesus. E eles não têm apenas a Bíblia para encorajá-los a respeito da perfeição de caráter, mas têm também os escritos de Ellen G. White. Aqui está uma das suas mais impressionantes declarações: “Cristo aguarda com fremente desejo a manifestação de si mesmo em sua igreja. Quando o caráter de Cristo se reproduzir perfeitamente em seu povo, então virá para reclamá-los como seus”.5 A passagem então imediatamente muda para a cena da colheita. Em muitos sentidos esse texto de Ellen G. White é paralelo ao progresso e desenvolvimento dos eventos de Apocalipse 14.

O conceito-chave nesta citação de Parábolas de Jesus é reproduzir perfeitamente o caráter de Cristo. Infelizmente, quando os adventistas do sétimo dia lêem expressões como “reproduzir-se perfeitamente”, eles têm a tendência de se tornarem um tanto emocionais. Isso aconteceu comigo quando as li pela primeira vez. Fiquei entusiasmado tanto com a magnificência, quanto com a possibilidade da missão e promessa.

Não sei se você já viu alguém que é perfeito. Às vezes, fecho os olhos e visualizo  algumas das pessoas perfeitas que conheço. Neste momento, me lembro de uma dessas pessoas. Ela está muito satisfeita porque obteve a vitória sobre o queijo. Agora lembro-me de outra pessoa. Essa é um fariseu do primeiro século. Esse indivíduo é realmente “religioso”. Ele sabe exatamente qual é o tamanho da rocha
que pode carregar no dia de sábado e a que distância ele pode levá-la sem cometer pecado. Ele reduz a justiça a algumas fatias muito estreitas de “religião”. Está convencido de que com essa dedicação aos detalhes do estilo de vida logo ele será perfeito.

Há também aqueles que parecem ser perfeitos devido à reforma de saúde. Em uma pequena igreja adventista de trinta membros, há um ancião que está disposto a levar os emblemas da santa ceia (ou cerimônia da comunhão) àqueles que não puderam ir à igreja. Mas não participará dos emblemas com eles, porque isso seria comer entre as refeições. Eu me pergunto: o que significa “comunhão” para esse ancião?

A mesma congregação tem um homem de quase dois metros de altura que pesa apenas 59 quilos. Ele conseguiu tremendas vitórias sobre o apetite enquanto caminhava na direção de ser “perfeito como Cristo”. Até mesmo se convenceu de que é errado comer cereais como trigo e aveia. Como resultado, infelizmente, ele sente um intenso desejo de comer coisas estranhas. Toda quinta-feira ele “cai em tentação” e come dois pedaços de lazanha de berinjela. Esse homem, aos seus próprios olhos, está avançando no caminho para a “verdadeira perfeição”. Quando uma pessoa diz que sua mais “pecaminosa atividade” é comer dois pedaços de lasanha de berinjela por semana, ela deve estar fazendo progresso. Esse indivíduo deve ser quase perfeito, ao menos segundo seu entendimento de “perfeição”.

Há um outro santo nessa mesma pequena igreja que tinha um ferimento. Uma pessoa normal teria levado três semanas para curar-se. Mas essa “reformadora de saúde” ainda não estava curada depois de seis semanas por causa das deficiências dietéticas. Esse foi o resultado de sua reforma de saúde. Ellen G. White rotulou tal dedicação em seus dias como “deforma de saúde”6.

Alguns adventistas do sétimo dia têm caminhado em estranhas direções em sua busca de perfeição de caráter. Talvez isso seja porque alguns de nós não temos a mais leve idéia do que seja caráter. Nem temos a mínima noção do que Ellen G. White queria dizer por caráter de Cristo.

Meu Caminho para a Perfeição

A passagem de Parábolas de Jesus que eu citei acima teve um grande impacto sobre minha própria experiência adventista. Logo depois de me tornar adventista do sétimo dia, algum querido irmão mostrou-me essa passagem. E foi depois de ler que Cristo só viria quando seu caráter estivesse perfeitamente reproduzido em seus filhos que eu conscienciosamente decidi que seria o primeiro cristão perfeito desde Cristo. Imediatamente segui em minha busca. Como resultado, dentro de algumas semanas, eu podia dizer o que estava errado em quase tudo.

 Eu podia dizer o que estava errado em qualquer coisa que você desejasse comer.

 Eu podia dizer o que estava errado em qualquer coisa que você desejasse assistir.

 Eu podia dizer o que estava errado em quase qualquer coisa que você desejasse fazer.

 E eu podia dizer o que estava errado em quase tudo o que você desejasse pensar.

Em minha própria e rigorosa abordagem da alimentação, eu baixei de 75 quilos para aproximadamente 56 quilos em cerca de três meses. Alguns temiam que eu morresse de “reforma da saúde”.

 E eu quero que você saiba algo. Em minha luta pela perfeição, eu me tornei perfeito. Realmente.

 Eu era o perfeito fariseu segundo a ordem de Saulo antes da estrada de Damasco.

 Eu era o perfeito monge segundo a ordem de Martinho Lutero antes de descobrir o evangelho em Romanos.

 Eu era o perfeito metodista segundo a ordem do combatente e esforçado John Wesley antes de sua experiência de conversão em Aldersgate.

Como posteriormente descobri, meu caminho para a perfeição tinha sido bem trilhado antes de mim. Isto me leva ao paradoxo da perfeição. Aqueles dentre vocês que conhecem alguém “perfeito” reconhecerão o paradoxo. Alguns terão passado por esse caminho, e em muitas congregações encontro pessoas ainda percorrendo-o, ou, pior ainda, pessoas tentando conviver com alguém que está tentando atravessá-lo.

O paradoxo de minha perfeição era que quanto mais pensava acerca de mim mesmo e minha perfeição, mais egocêntrico me tornava. Não somente me tornava egocêntrico, mas quanto mais lutava e tentava, mais crítico me tornava para com aqueles que não haviam alcançado o meu “alto nível”. Não era apenas crítico ou intolerante, mas quanto mais “perfeito” me tornava, mais áspero eu era com os outros que não haviam igualado minha “condição superior”. E mais negativo me tornava para com a igreja e outros que não eram tão “puros” ou “consagrados” como eu.

Resumindo, quanto mais eu tentava, pior eu ficava. Esse era o paradoxo da minha perfeição. Em meu esforço para reproduzir perfeitamente o caráter de Cristo, eu havia mais de perto imitado o caráter do diabo. Para dizer o mínimo, tornei-me uma pessoa de difícil convivência. As pessoas se tornavam um problema em minha vida enquanto eu procurava imitar o caráter do Salvador. Afinal, as pessoas eram um obstáculo ao meu rigor na alimentação. E interferiam em minha refletida hora de meditar sobre Cristo cada dia. As pessoas dificultavam meu avanço para a perfeição.

Infelizmente, há uma forma de perfeição que leva ao próprio egocentrismo do pecado. Há um caminho para a perfeição que é o caminho da morte. Há um caminho para perfeição que é destrutivo, e muitíssimos adventistas têm seguido esse caminho para supostamente reproduzir o caráter de Cristo. É a trilha errada. É a estrada artificial, construída pelo homem.

Em minha frustração com minha igreja e comigo mesmo, eu entreguei minhas credenciais ministeriais. Mas o presidente de minha associação, vendo minha perplexidade e querendo “salvar-me para a obra”, viajou comigo em um passeio de carro por quase quinhentos quilômetros para que pudesse me aconselhar, me encorajar e devolver minhas credenciais. Eu não pude me livrar delas. Entreguei-as uma segunda vez, e elas retornaram novamente. Na terceira vez eu escrevi uma carta cuidadosamente redigida contando ao presidente da minha associação como eu me sentia. Obtive o resultado desejado. As credenciais não voltaram.

Minha vida como ministro adventista havia acabado. Tanto quanto me dizia respeito, eu havia terminado como adventista e como cristão. Durante seis anos não orei nem li a Bíblia a menos que fosse forçado a fazer isso em público. Estudei filosofia para descobrir uma resposta mais adequada para o significado da vida, somente para encontrar sua falência a respeito das questões reais. Perto
do final de meus anos em uma “terra distante”, cheguei à conclusão de que se o cristianismo não tivesse a resposta, não existia uma resposta. Essa foi uma das conclusões mais assustadoras da minha vida.

Então, no início de 1975, Deus estendeu a mão e me tocou. Ele disse: “George, você tem sido um adventista, mas não tem sido um cristão. Você tem conhecido todas as doutrinas, mas não tem conhecido a Mim.” A essa altura, passei por minha própria crise de 1888. Encontrei a Jesus, e meu adventismo foi batizado, tornando-se cristianismo.

A tragédia para mim, para aqueles que tinham de viver comigo e para aqueles semelhantes a mim, é que muitas dessas situações poderiam ter sido evitadas se houvéssemos sido mais fiéis em nossa leitura das declarações inspiradas. Tivesse eu simplesmente lido o contexto de muitas das minhas declarações favoritas, eu teria sido salvo dos erros mais graves da minha vida.

O Caminho Divino para a Perfeição

Com muita freqüência, temos distorcido a Bíblia e os escritos de Ellen G. White. Uma maneira de fazer isso é não ler as declarações em seu contexto. Tiramos as citações do contexto, tais como aquela de Parábolas de Jesus sobre reproduzir perfeitamente o caráter de Cristo. Então nos dirigimos a tais livros como Conselhos Sobre o Regime Alimentar ou Mensagens aos Jovens, e removemos mais um grupo de citações. Em seguida as ligamos com a passagem de Parábolas de Jesus de tal forma que criamos uma teologia que nem mesmo Deus reconheceria.

Sempre leia o contexto.7 Descubra o que o autor inspirado está dizendo, quer seja o autor Paulo ou Pedro ou João ou Ellen G. White. Que diferença o contexto pode fazer em nossa compreensão e em nossa vida. Por exemplo,  vejamos o contexto de nossa declaração do livro Parábolas de Jesus sobre reproduzir perfeitamente o caráter de Cristo. Nos parágrafos imediatamente precedentes, lemos:

Cristo procura reproduzir-se no coração dos homens; e faz isto por intermédio daqueles que nele crêem. O objetivo da vida cristã é a frutificação – a reprodução do caráter de Cristo no crente, para que se possa reproduzir em outros…. Na vida que se centraliza no eu não pode haver crescimento nem frutificação. Se aceitastes a Cristo como Salvador pessoal, deveis esquecer-vos e procurar auxiliar a outros. Falai do amor de Cristo, contai de sua bondade. Cumpri todo dever que se vos apresenta. Levai sobre o coração o peso da salvação das pessoas. … Recebendo o Espírito de Cristo – o espírito do amor abnegado e do sacrifício por outrem – crescereis e produzireis fruto. As graças do Espírito amadurecerão em vosso caráter. Vossa fé aumentará; vossas convicções aprofundar-se-ão, vosso amor será mais perfeito. Mais e mais refletireis a semelhança de Cristo em tudo que é puro, nobre e amável.”8

A seguir, ela diz que “quando o caráter de Cristo se reproduzir perfeitamente em seu povo, então virá para reclamá-los como seus”. 9 Reproduzir perfeitamente o caráter de Cristo é refletir o seu amor. O caráter de Cristo centraliza-se em compassivo relacionamento.

Com muita freqüência os adventistas têm olhado para a religião como algo negativo, mas cristianismo não é o que não fazemos. Ninguém será salvo pelo que evitou. O cristianismo é positivo em vez de negativo. O verdadeiro cristianismo é uma religião que nos livra da preocupação com nós mesmos e a luta para ganhar a salvação de sorte que podemos amar verdadeiramente ao nosso próximo, ao nosso Deus, aos nossos irmãos, à nossa esposa, ao nosso esposo, aos nossos filhos, e assim por diante.

Essa foi a grande mensagem de Jesus. “Portanto, sede vós perfeitos”, proclamou Ele, “como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5:48). Remova esse texto do seu contexto, e você pode transformá-lo em algo que a Bíblia jamais disse. Leia-o no contexto, e você descobrirá o que Jesus estava tentando ensinar. Começando no versículo 43, essa passagem ensina que Deus ama a todos. Ele faz com que a chuva caia e o sol brilhe sobre bons e maus, justos e injustos. Jesus está dizendo que devemos ser perfeitos ou maduros em amor aos outros como nosso “Pai celestial é perfeito” em seu amor por nós. Por favor, lembre-se que Cristo morreu por você enquanto você era ainda seu inimigo (Rm 5:6, 10).

Você pode amar como Deus amou? Isso é maturidade cristã ou perfeição cristã. E se você não crê nisso, compare Mateus 5:48 com Lucas 6:36. Lucas 6:27-36 é uma passagem paralela a Mateus 5:43-48. Ambas lidam com o amor aos inimigos, e ambas concluem com a declaração de que os cristãos devem ser semelhantes a Deus. Mas a passagem de Lucas não diz: “Portanto, sede vós perfeitos”, mas “sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai” (Lc 6:36). Os evangelistas igualaram com misericórdia a afirmação de Cristo sobre perfeição.

Para compreender melhor esse assunto, precisamos voltar a Mateus 25:31-46 e à cena do grande julgamento das ovelhas e dos cabritos.

Essa é uma passagem muito interessante. Leia-a hoje para você mesmo, e conte os pontos de interrogação. Note a grande surpresa que é experimentada no juízo. Por um lado, Jesus diz a um grupo: “Entrai em meu reino”. Segundo a parábola, eles dizem: “Senhor, como fizemos isto? Não somos como aqueles fariseus. Não passamos toda a nossa vida preocupados com a multidão de faz e não faz.” Jesus responde: “Vocês não compreendem. Quando estive faminto, me alimentaram. Quando estive na prisão, vocês me visitaram. E quando estive sedento, me deram de beber.”

Eles voltam a perguntar: “Espere um minuto. Como pode ser isto? Nunca te vimos ou alimentamos.” “Mas”, responde Jesus, “se vocês fizeram isso a um destes meus pequeninos irmãos, vocês fizeram a mim.” A essa altura o outro grupo está realmente se tornando agitado. Há um bom número de fariseus nesse segundo grupo, indivíduos que têm dedicado toda a sua vida a observar a multidão de detalhes sobre a lei. “Espere um segundo, Senhor”, exclamam eles, “guardamos o sábado. Realmente guardamos o sábado. Tínhamos umas 1.500 leis e normas e regulamentos concernentes ao sábado, e guardamos todos eles. E não somente guardamos o sábado; pagamos o dízimo rigorosamente. Éramos tão escrupulosos que dizimávamos cada décima folha de nossas pequenas hortelãs. E
tínhamos uma boa dieta. Senhor, tens de salvar-nos. Nós merecemos isto.”

“Bem”, responde Jesus, “há apenas um problema. Quando estive na prisão, vocês não pareciam se preocupar. Quando estive faminto, onde estavam vocês?” “Senhor”, eles respondem rapidamente, “se soubéssemos que eras tu, certamente teríamos estado lá.” “Mas”, Jesus responde, “vocês não compreenderam. Não assimilaram o princípio do meu reino. Vocês não assimilaram o grande princípio
do amor. E se vocês não têm isso, não serão felizes em meu reino.”

Mateus 25 é muito explícito sobre o fato de que o juízo gira em torno de uma questão específica. Mas se você precisa de mais ajuda, tente O Desejado de Todas as Nações. Ellen G. White diz isso tão claramente como as palavras podem expressar. “Assim”, escreve ela depois de citar Mateus 25,

descreveu Cristo aos discípulos, no Monte das Oliveiras, as cenas do grande dia do Juízo. E apresentou sua decisão como girando em torno de um ponto. Quando as nações se reunirem diante dele, não haverá senão duas classes, e seu destino eterno será determinado pelo que houverem feito ou negligenciado fazer por Ele na pessoa dos pobres e sofredores.10

Se as pessoas não estão transmitindo o amor de Deus ao seu próximo, é

porque não o têm. Se as pessoas têm o amor de Deus no coração, não há nenhuma maneira em que ele possa ser reprimido. Ele encontrará expressão.A expressão do amor divino por aqueles a quem Jesus ama é o importante critério no grande julgamento final Deus quer que todos os que estiverem no Céu sejam felizes lá. E os que serão felizes são aqueles que renunciaram ao princípio do amor egoísta e auto-suficiência (pecado) e permitem que Deus implante no coração e na vida o grande princípio de sua LEI.

O novo nascimento inclui a mudança na vida de uma pessoa do egoísmo e egocentrismo (pecado) para altruísmo e amor ao próximo (os princípios da LEI). Santificação é meramente o processo de alguém tornar-se mais amoroso. O retrato bíblico de perfeição é tornar-se maduro em expressar o amor de Deus. Tais pessoas estão formando um caráter semelhante ao de Cristo, porque “Deus é amor” (1Jo 4:8). Sobre essas pessoas, é certo que serão salvas para a eternidade.

A Demonstração Final de Deus ao Universo

Esse pensamento nos conduz ao assunto da demonstração final de Deus ao Universo. Em Parábolas de Jesus lemos que “a última mensagem de graça a ser dada ao mundo, é uma revelação do caráter do amor divino”. 11 A demonstração final ao universo do que a graça pode fazer na vida humana será uma demonstração do poder de Deus em transformar indivíduos egoístas em pessoas que amam a Deus e à humanidade. A demonstração final não é alguém retratar uma pessoa que finalmente alcançou a vitória sobre pizza quatro queijos, refrigerantes, ou algum artigo de alimentação ou comportamento. A grande demonstração ao universo trata com a reprodução do caráter de Cristo.

Um dos grandes textos do Novo Testamento atinge o âmago da questão. “Nisto”, disse Jesus, “conhecerão todos que sois meus discípulos”, se guardardes o sábado. “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos”, se devolverdes o dízimo. “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos”, se tiverdes uma alimentação adequada.

Inúmeros adventistas lêem o Novo Testamento como se ele estivesse dizendo esse tipo de coisas. Mas, em realidade, Jesus disse: “Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13:35). O amor não é apenas o único ponto em torno do qual gira o juízo, é também o ponto pelo qual Jesus identifica seus discípulos. Ser seguidor de Cristo é ser alguém que
ama a Deus e aos semelhantes.

Inúmeros adventistas passam por alto esse ensino fundamental do Novo Testamento. Muitíssimos têm as normas, regulamentos e leis, mas negligenciam o grande princípio que constitui o fundamento da lei de Deus. Muitos, em sua luta pela perfeição, trabalham ao nível de pecados e leis em vez de permitir que Deus opere neles ao nível de pecado e lei. Infelizmente, todas as normas e regulamentos sem o amor de Jesus muito contribuem para a religião sombria, triste, desolada, deprimente, melancólica – ou pior ainda, religião destrutiva.

Quando vou a uma reunião campal, posso olhar para uma audiência de dez mil pessoas e identificar de um relance os assim chamados “perfeitos”. São aqueles que não estão sorrindo. São os que evidentemente não têm nada a celebrar e em que rejubilar-se porque não têm segurança em Cristo.

Ora, se eu fosse o diabo, daria a vocês adventistas a verdade bíblica, mas tornaria vocês e suas igrejas mais frios do que uma fôrma de gelo no inverno da Sibéria. Por outro lado, eu daria a alguns cristãos alegria na igreja e na vida cristã, mas confundiria de tal forma sua teologia que eles não saberiam distinguir Gênesis de Apocalipse.

O que os adventistas precisam é a alegria da salvação combinada com suas grandes verdades doutrinárias. Quando os adventistas tiverem a Jesus no coração e certeza da salvação, eles não apenas terão a verdade com um v minúsculo (isto é, verdade doutrinária), mas terão a verdade com um V maiúsculo (o Senhor da Verdade). “Eu sou … a verdade”, disse Jesus (Jo 14:6).

Estou pessoalmente convencido de que a grande coisa necessária para manter o adventismo em movimento não é apenas verdade doutrinária, mas um maior conhecimento de Jesus e a bela certeza de salvação em Cristo. Necessitamos tanto da verdade quanto da Verdade. Quando os adventistas tiverem ambas, isso
será proclamado de cada parte do seu ser e em sua adoração, e estarão em uma situação de permitir que o Espírito Santo os use para mover o mundo com a bela mensagem que Deus lhes confiou.

Referências

1 Publicado originalmente em George R. Knight, I Used to Be Perfect: A Study of Sin and Salvation (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2001), 85-99. Traduzido do original em inglês por Francisco Alves de Pontes.

2 Salvo outra indicação, as citações bíblicas foram extraídas da tradução Almeida Revista e Atualizada, 2ª edição.

3 Para estudo mais detido da compreensão adventista tradicional de Apocalipse 14:12, ver George R. Knight, Angry Saints: Tensions and Possibilities in The Adventist Struggle Over Righteousness By Faith (Hagerstown, MD: Review and Herald, 1989), 53-55; idem, A Mensagem de 1888 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004), 115-117. Ver também Alberto R. Timm, O Santuário e as Três Mensagens Angélicas: Fatores integrativos no desenvolvimento das doutrinas adventistas (Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista, 2007), 89, 126-127, 198-201, 225, 230, 238-239.

4 Para avaliação da nova compreensão de Apocalipse 14:12, ver Knight, Angry Saints, 55-60; idem, A Mensagem de 1888, 117-121.

5 Ellen G. White, Parábolas de Jesus, 69; grifos acrescidos.

6 Ellen G. White ao irmão e irmã Kress, 29 de maio de 1901; publicado em Ellen G. White, Conselhos Sobre o Regime Alimentar, 202. Em português, a expressão foi traduzida como “deformação da saúde”. O texto original é um trocadilho entre “reforma de saúde” (em inglês, health reform) e “deforma [ou deformação] da saúde” (em inglês, health deform).

7 Para estudo mais aprofundado sobre princípios de interpretação dos escritos de Ellen G. White, ver George R. Knight, Reading Ellen G. White: How to Understand and Apply Her Writings (Hagerstown, MD: Review and Herald, 1997). Ver também Herbert E. Douglass, Mensageira do Senhor: O ministério profético de Ellen G. White (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001), 372-443.

8 White, Parábolas de Jesus, 67, 68; grifos acrescidos.

9 Ibid., 69.

10 Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, 637.

11 White, Parábolas de Jesus, 415.