sexta-feira, 14 de junho de 2013

RESMUNGOS E MURMÚRIOS


            “O Senhor respondeu: Eu o perdoei, conforme você pediu. No entanto, juro pela glória do Senhor que enche toda a terra, que nenhum dos que viram a minha glória e os sinais milagrosos que realizei no Egito e no deserto, e me puseram à prova e me desobedeceram dez vezes — nenhum deles chegará a ver a terra que prometi com juramento aos seus antepassados. Ninguém que me tratou com desprezo a verá” (Nm 14:20-23- NVI).

 

            Introdução

            Imagine como deve ter sido ter a presença visível de Deus em meio ao Seu povo durante o Êxodo! Pode-se pensar que tendo algo tão claro e evidente (coluna de nuvem, coluna de fogo), os israelitas obedecessem tão prontamente e de boa-vontade ao Seu comando que viajassem em direção ao cumprimento da promessa feita a seus pais muito tempo atrás.

            Evidentemente, não é assim que costuma funcionar, mesmo com o povo de Deus. Nesta mensagem, vamos enfocar um erro depois do outro, uma expressão de dúvida, descrença e ingratidão depois da outra. Ao compartilharmos estas verdades, tenhamos em mente que podemos encontrar paralelos em nossos dias, enquanto aguardamos o cumprimento de uma promessa muito maior.

            O texto chave afirma que em ocasiões diferentes – dez ao todo, os israelitas resmungaram e murmuraram, direta ou indiretamente contra Deus. Aqui estão elas:

 
            Primeira:

             Êxodo 5:20-21 - Ao saírem da presença do faraó, encontraram-se com Moisés e Arão, que estavam à espera deles, e lhes disseram: “O Senhor os examine e os julgue! Vocês atraíram o ódio do faraó e dos seus conselheiros sobre nós, e lhes puseram nas mãos uma espada para que nos matem”.

 
            Segunda:

             Êxodo 14:10-12 - Ao aproximar-se o faraó, os israelitas olharam e avistaram os egípcios que marchavam na direção deles. E, aterrorizados, clamaram ao Senhor. Disseram a Moisés: Foi por falta de túmulos no Egito que você nos trouxe para morrermos no deserto? O que você fez conosco, tirando-nos de lá? Já lhe tínhamos dito no Egito: Deixe-nos em paz! Seremos escravos dos egípcios! Antes ser escravos dos egípcios do que morrer no deserto!

 
            Terceira:

             Êxodo 15:22-24 - Durante três dias caminharam no deserto sem encontrar água. Então chegaram a Mara, mas não pude­ram beber das águas de lá porque eram amargas. Esta é a razão porque o lugar chama-se Mara. E o povo começou a reclamar a Moisés, dizendo: “Que beberemos?”

 
            Quarta:

             Êxodo 16:2-3 - No deserto, toda a comunidade de Israel recla­mou a Moisés e Arão.  Disseram-lhes os israelitas: “Quem dera a mão do Senhor nos tivesse matado no Egito! Lá nos sentávamos ao redor das panelas de carne e comíamos pão à vontade, mas vocês nos trouxeram a este deserto para fazer morrer de fome toda esta multidão!”

 
             Quinta:

              Êxodo 16:19-20,27-28 - “Ninguém deve guardar nada para a manhã seguinte”, ordenou-lhes Moisés. Todavia, alguns deles não deram atenção a Moisés e guardaram um pouco até a manhã seguinte, mas aquilo criou bicho e começou a cheirar mal. Por isso Moisés irou-se contra eles. ... Apesar disso, alguns deles saíram no sétimo dia para recolhê-lo, mas não encontraram nada. Então o Senhor disse a Moisés: Até quando vocês se recusarão a obedecer aos meus mandamentos e às minhas instruções?

 
            Sexta:

             Êxodo 17:1-3 - Toda a comunidade de Israel partiu do deserto de Sim, andando de um lugar para outro, conforme a ordem do Senhor. Acamparam em Refidim, mas lá não havia água para beber. Por essa razão queixaram-se a Moisés e exigiram: “Dê-nos água para beber”. Ele respondeu: “Por que se queixam a mim? Por que colocam o Senhor à prova?” Mas o povo estava sedento e reclamou a Moisés: “Por que você nos tirou do Egito? Foi para matar de sede a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?” 

 
           Sétima:

            Êxodo 32:1-4 – O povo, ao ver que Moisés demora­va a descer do monte, juntou-se ao redor de Arão e lhe disse: “Venha, faça para nós deuses que nos conduzam, pois a esse Moi­sés, o homem que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu”.

Respondeu-lhes Arão: “Tirem os brincos de ouro de suas mulheres, de seus filhos e de suas filhas e tragam-nos a mim”. Todos tiraram os seus brincos de ouro e os levaram a Arão. Ele os recebeu e os fundiu, transformando tudo num ídolo, que modelou com uma ferramenta própria, dando-lhe a forma de um bezerro. Então disseram: “Eis aí os seus deuses, ó Israel, que tiraram vocês do Egito!”

 
            Oitava:

             Números 11:1- Aconteceu que o povo começou a queixar-se das suas dificuldades aos ouvidos do Senhor. Quando ele os ouviu, a sua ira acendeu-se e fogo da parte do Senhor queimou entre eles e consumiu algumas extremidades do acampamento.

 
            Nona:

             Números 11:4-5 - Um bando de estrangeiros que havia no meio deles encheu-se de gula, e até os próprios israelitas tornaram a queixar-se, e diziam: Ah, se tivéssemos carne para comer! Nós nos lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito, e também dos pepinos, das melancias, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos.

 
            Décima:

             Números 13:26; 14:2-4 - Eles então retornaram a Moisés e a Arão e a toda a comunidade de Israel em Cades, no deserto de Parã, onde prestaram relatório a eles e a toda a comunidade de Israel, e lhes mostraram os frutos da terra. ... Todos os israelitas queixaram-se contra Moisés e contra Arão, e toda a comunidade lhes disse: Quem dera tivéssemos morrido no Egito! Ou neste deserto! Por que o Senhor está nos trazendo para esta terra? Só para nos deixar cair à espada? Nossas mulheres e nossos filhos serão tomados como despojo de guerra. Não seria melhor voltar para o Egito? E disseram uns aos outros: “Escolheremos um chefe e voltaremos para o Egito!”

 

            Conclusão

            Deus nos presenteou através do apóstolo Paulo com um magnífico conselho: “Façam tudo sem queixas nem discussões, para que venham a tornar-se puros e irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual vocês brilham como estrelas no universo” (Filipenses 2:14-15, NVI).

 
            Nós, como filhos e filhas de Deus não podemos ser, não podemos agir, da mesma forma com que o mundo age, da maneira como o mundo reage diante das circunstâncias cotidianas, senão... (atentem para a última parte do v 15 – perderemos o brilho, deixaremos de ser a luz do mundo, o sal da terra; em suma: o nosso testemunho será ineficaz).

 
            Voltando ao Egito, entre todas as coisas horríveis que eles disseram, talvez a pior tenha sido que eles quiseram escolher um capitão para voltar para o Egito (v.3,4). Esta foi a gota d’água que extravasou a paciência divina, pois “Deus é longânimo e não quer que ninguém pereça; mas sua paciência tem limite, e quando o limite for ultrapassado, não haverá segunda chance. Sua ira se manifestará e Ele destruirá sem escape”. SDA Bible Commentary, volume 7, página 946

 
            Quando consideramos que o Egito simbolizava a escravidão do pecado, da morte, da alienação de Deus, agir como agiram, depois da libertação tão incrível, foi indesculpável.

 
            Façamos uma breve analogia. Se você está aqui é porque iniciou a caminhada. Não rumo à Canaã terrestre, mas, a Canaã celestial. Qual “Egito” em sua vida o faz, às vezes, querer voltar ao mundo?  Desistir de continuar a caminhada?

 
            A Palavra de Deus tem diversas promessas animadoras para que você não desista de caminhar; como exemplo apenas duas:

 

ü  "Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo" (João 16:33, NVI).

          

ü  Estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6, NVI).

          
            Através dos olhos da fé já é possível presenciar a cena de Deus proferindo as mais desejaveis palavras aos crentes de todas as épocas, inclusvie você: “Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo” (Mateus 25:34, NVI).  

 
            Não desista! Falta tão pouco! Acredite nas promessas de Deus!

            É o meu desejo e a minha oração. Amém!!!

 

 

 

 

 

 

 

 

© Nelson Teixeira Santos

 

 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A ATITUDE DE JESUS PARA COM AS MULHERES


 
            Sua vida na terra foi breve – somente 33 anos e meio. Seu ministério foi ainda mais breve – apenas três anos e meio. Mas ninguém, com sua vida e ensinamentos, impactou tanto a história de uma maneira tão intensa quanto Jesus. O que Ele ensinou e o que fez alterou o curso da história e dramaticamente mudou e continua mudando milhões de vidas ao redor do mundo. Seus ensinamentos têm afetado cada aspecto da vida – religião, educação, trabalho, ética, saúde, justiça social, desenvolvimento econômico e as muitas artes e ciências do viver humano.

Uma faceta da missão de Jesus que é menos conhecida, mas digna de ser recapitulada, é Sua atitude para com as mulheres. Isto é particularmente importante à luz de como o mundo na época de Jesus tratava as mulheres. Romanos e gregos, judeus e gentios, davam às mulheres nada mais que a segunda classe, como se elas fossem prestativas ferramentas em uma sociedade de domínio machista – cozinhar, dar à luz e criar as crianças e desempenhar qualquer função que lhes estivesse designada dentro das paredes de sua casa. Casos individuais de liderança e valentia se destacam em vários lugares, mas muitas mulheres estavam sob o domínio dos homens. Elas eram consideradas uma propriedade, transferida de pai para marido.

            Em um mundo como aquele, Jesus veio e abriu novas perspectivas de igualdade e dignidade humanas. Ele se opôs às tradições e procurou direcionar os homens e as mulheres de volta ao plano original de Deus para a humanidade.

            Este artigo revê brevemente a atitude de Jesus para com as mulheres em Seus ensinamentos e ministério que contrastou com as atitudes em relação à mulher no primeiro século da sociedade judaica.

 

            A posição da mulher na sociedade judaica

            As sinagogas do primeiro século mantêm registros somente de homens.  Homens e meninos podiam entrar nas sinagogas para adorar, mas para as mulheres e meninas havia uma divisória separada onde era permitido que elas se sentassem.

 

            Salvação. A tradição afirmava que as mulheres não tinham direito à salvação por seus próprios méritos. A única esperança de salvação era se unir a um devoto homem judeu. As prostitutas eram excluídas porque não tinham esse vínculo, e viúvas precisavam ter sido casadas com um judeu piedoso para ter esse privilégio.

 

            Associação em público. Um homem era proibido de falar com uma mulher em lugares públicos. Um rabi deveria ignorar uma mulher em público, mesmo se ela pacientemente persistisse em busca de algum urgente conselho espiritual.

 

            Responsabilidade pelo pecado. Em um enterro, as mulheres caminhavam à frente do caixão. Elas eram consideradas responsáveis pelo pecado e, por isso, encabeçavam a procissão, levando a culpa pelo que havia acontecido. Os homens, não se sentindo responsáveis, caminhavam atrás do corpo.

 

            Impureza. As mulheres eram consideradas cerimonial e socialmente impuras durante seu período menstrual. Durante sua menstruação, elas eram isoladas. Até mesmo aos membros da família não era permitido chegar perto para não serem contaminados.

 

            Gravidez como chave de valor. Aos olhos da sociedade, o valor de uma mulher estava vinculado a sua habilidade de dar à luz. A esterilidade era um estigma social terrível. A responsabilidade da mulher era dar à luz bebês do sexo masculino que perpetuariam, desta maneira, o nome do pai.

 

            Divórcio. Era privilégio do homem iniciar um processo de divórcio, o qual ele podia exercer baseado em considerações que hoje parecem frívolas e dignas de riso.

Posição legal. A palavra de uma mulher, num tribunal, precisava ser confirmada pelo menos por três homens, de outro modo, não tinha valor.

 

            Educação. Não era permitido à mulher entrar em uma sinagoga para estudar; era considerado perda de tempo.

 

            Religião. Não era permitido que as mulheres se aproximassem do Lugar Sagrado no templo. Na época de Jesus, havia um pátio no templo para as mulheres, localizado fora dos recintos reservados para sacerdotes e outros homens, e uns 15 degraus abaixo, que indicava a posição subordinada da mulher.1

 

            Uma revolução silenciosa

            Jesus não começou uma revolução aberta contra o sistema que colocava as mulheres em uma posição subordinada. Todavia, Sua vida fez um manifesto. “Não encontramos em nenhuma de suas ações, seus sermões ou suas parábolas nenhuma depreciação referente às mulheres, tais como podemos facilmente encontrar em qualquer de seus contemporâneos.”2

            Considere alguns exemplos de como Jesus relacionou-Se com as mulheres.

Jesus convidou as mulheres para serem Suas discípulas. Contrariando as expectativas contemporâneas, Jesus deu as boas-vindas às mulheres em seu círculo íntimo de discipulado (veja Lucas 8:1-3). Esta atitude contradisse as especulações rabínicas. As mulheres que seguiram a Cristo desprezaram os postulados da época. Elas se tornaram cuidadosas administradoras de seus recursos e apoiaram a missão de Cristo em momentos críticos (Lucas 8:13). “Uma coisa era as mulheres serem desobrigadas de aprender o Torah e proibidas de associar-se com um rabi, outra totalmente diferente era viajarem com um rabi e se responsabilizarem pelos assuntos financeiros.”3 Elas fizeram isso. Simplesmente revolucionário!

            Jesus aceitou a hospitalidade das mulheres e ensinou-as. O mais importante exemplo é aquele da associação com Maria, Marta e Lázaro. O Mestre encontrou descanso e companheirismo na casa deles (Lucas 10:38-42). Enquanto um rabi judeu quase não olhava para uma mulher, Jesus não hesitou em falar com Maria e Marta em público ou em ensinar-lhes as grandes verdades sobre a morte e ressurreição (veja João 11).

            Para Jesus, mulheres e homens eram igualmente importantes quando se tratava de ensinar sobre as boas-novas de Seu reino. Na época em que foi dito “é melhor queimar as palavras do Torah que confiá-las ao cuidado de uma mulher”,4 Jesus indicou que entre as escolhas abertas às mulheres, Maria “escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada” (Lucas 10:42 – NVI). Desta forma, mostrou que a educação não era para ser um monopólio dos homens e que as mulheres também tinham o direito de aproveitarem as oportunidades para se educarem.

            Outro exemplo da atitude diferente de Jesus para com as mulheres foi a revelação de Sua Missão a uma mulher. Na mais longa conversa registrada nos Evangelhos, Jesus revelou à mulher no poço samaritano (João 4:4-42) algumas das mais profundas doutrinas do reino: a natureza do pecado, o significado da verdadeira adoração, a disponibilidade de perdão para aqueles que se arrependem, a igualdade de todos os seres humanos independentemente de serem judeus ou samaritanos. Assim, em uma simples conversa no poço samaritano, Jesus rompeu dois preconceitos: de gênero e de raça.

            Jesus reconheceu que à vista de Deus a família de Abraão inclui filhos e filhas. Ao curar a mulher incapacitada por 18 anos, Jesus colocou Suas mãos sobre ela e afetuosamente a definiu como “filha de Abraão” (Lucas 13:10-17). Por usar esta designação, Jesus advertiu em público que as mulheres seguramente, tanto quanto os homens, herdam os direitos prometidos a Abraão, e à vista de Deus não há nem homem nem mulher.

            Em nenhuma parte da Bíblia está estabelecido que os homens têm vantagem sobre as mulheres em termos de acesso à salvação. Contrariamente às tradições rabínicas que ensinavam que as mulheres poderiam ser salvas somente pela união com um devoto homem judeu, Jesus convidou tanto homens quanto mulheres a se voltar para Deus e a aceitar o presente da salvação.

            Em outro caso, a defesa e o perdão de Cristo a uma mulher pega em adultério revelaram que Sua definição de pecado e provisão para salvação estabelecia tratamento igual a todos. Quando alguns líderes religiosos trouxeram perante Ele uma mulher pega em adultério, Cristo a defendeu. Ele sabia que os líderes judeus, ao fazer a acusação contra a mulher, estavam, eles mesmos, violando as leis de Moisés. A lei levítica estipulava que ambos, homem e mulher, deviam ser submetidos a julgamento em tais casos (Levítico 20:10), mas os críticos de Jesus trouxeram apenas a mulher, e não os homens envolvidos no suposto ato. A lei também requeria pelo menos duas testemunhas (Deuteronômio 19:15), mas os fariseus não levaram nenhuma. A resposta de Cristo não somente deu à mulher acusada o benefício da lei, mas também mostrou aos presentes que Seu evangelho de perdão, baseado no arrependimento, estava aberto a todos. Assim Ele disse esta notável frase: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (João 8:7). Em outras palavras, Jesus disse aos homens: se vocês têm coragem de acusá-la, primeiro olhem para vocês mesmos em um espelho.

            Jesus permitiu a uma mulher pecadora ungi-Lo. Quando Jesus foi convidado para uma festa na casa de Simão em Betânia, uma mulher conhecida no povoado por sua má reputação lançou-se aos pés de Jesus e o ungiu. Aqueles que estavam reunidos na festa, incluindo Seus discípulos, condenaram o incidente. Como era possível uma mulher pecadora tocar os pés do Messias, ungi-Lo e secar Seus pés com seus cabelos? Uma ofensa absoluta às tradições religiosas! Os que estavam ao redor de Jesus não podiam entender, muito menos aceitar, o ato de uma mulher ou a atitude de Jesus em permitir que ela fizesse o que fez. Mas Jesus disse que a mulher ao ungi-Lo fez uma bonita ação, mostrando às gerações futuras que, como ela, todos os pecadores podem ter a certeza da salvação ao ir até o Salvador e colocar sua vida a Seus pés, em rendição (Marcos 14:1-9; Lucas 7:36-50).

            Jesus usou homens e mulheres para simbolizar os atos de resgate de Deus. Em Lucas 15, Jesus contou três parábolas para ilustrar a profunda e eterna verdade da procura de Deus pela humanidade perdida. Ao passo que as parábolas da ovelha perdida e do filho pródigo ilustram a procura de Deus através de figuras masculinas, do cuidado do pastor e o amante pai, a parábola da moeda perdida revela a procura de Deus através da cuidadosa e persistente missão de uma mulher que não sossegou até encontrar a moeda e regozijar-se com seus amigos (Lucas 15:8-10). Para os ouvidos legalistas daquela época isto deve ter soado herético.

            Jesus dignificou as mulheres como primeiras testemunhas do maior evento da história humana – Sua ressurreição. As tradições rabínicas consideravam as mulheres como mentirosas por natureza. Conceito que advinha da reação de Sara ao ser dito que ela teria uma criança (Gênesis 18:9-15). No modo de pensar deles, a negação e o riso de Sara caracterizavam-se como uma mentira diante de Deus que sempre diz a verdade. Assim, por causa dela, todas as mulheres descendentes eram consideradas mentirosas.5 Nenhuma mulher era aceita como testemunha. Todavia, Jesus rejeitou esta perversa tradição e escolheu mulheres como as primeiras testemunhas de Sua ressurreição (Mateus 28:8-10), “constituindo-as não somente como as primeiras receptoras da mais importante mensagem do cristianismo mas as primeiras a proclamá-la”.6 Jesus reprovou os discípulos por não crerem no testemunho daquelas mulheres (Marcos 16:14) e desta maneira incentivou-os a rejeitarem os preconceitos do passado e caminharem à luz de Seu reino, no qual não há nem homem nem mulher.

 

            Conclusão

            No relato bíblico da vida de Cristo “as mulheres nunca são discriminadas”.7 Não há nada que respalde a visão cultural e religiosa da Sua época que via a mulher como inferior. Pelo contrário, “a atitude e a mensagem de Jesus significaram uma ruptura com a dominante visão mundial”.8

            Jesus “não identificou as mulheres em harmonia com as normas do sistema patriarcal de seu tempo nem tomou parte no sistema como era, por definição, repressivo para as mulheres”.9 Abertamente mas sem fanfarra, Jesus proferiu um golpe mortal na praga da tradição que negava dignidade às mulheres. Através de Seu exemplo e ensino, Jesus reclamou para Seu novo reino as bênçãos de Sua criação original, a igualdade dos dois gêneros à vista de Deus.

 

 

 

 

 

 

 

 

Miguel Ángel Núñez (Ph.D., Universidade Adventista del Plata) leciona Teologia na Universidade União Peruana, onde também dirige o programa em Teologia e Psicologia Pastoral e Teologia e Filosofia. Núñez é autor de muitos artigos e de mais de 30 livros. Este trabalho está baseado em uma seção de seu livro Cristología: En las Huellas del Maestro (3ª ed., 2007). E-mail: miguelanp@hotmail.com

Referências

1. Joachim Jeremias. Jerusalén en Tiempos de Jesús: Estudio Económico y Social del Mundo del Nuevo Testamento. Madrid: Cristiandad, 1977. p.97.

2. Marga Muñiz. Femenino Plural: Lãs Mujeres en la Exégesis Bíblica. Barcelona: Clie, 2000. p.183.

3. Alcion Westphal Wilson. “Los discípulos olvidados: La habilitación del amor vs. el amor al poder”, en Bienvenida a la mesap. Langley Park, Maryland: TEAMPress,1998. p.185.

4. Wilson. p.180.

5. Wilson. p.386.

6. Muñiz. p.187.

7. Leonardo Boff. El Rostro Materno de Dios: Ensayo Interdiciplinar sobre lo Femenino y sus Formas Religiosas. Madri: Paulinas, 1988. p. 83. (Em português: O Rosto Materno de Deus. 9ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2003).

8. Boff. p. 84.

9. Muñiz. p.18.

 

Núñez, Miguel Ángel. (2007). A atitude de Jesus para com as mulheres.  Dialogue, 19(2), 14-15, 21.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

COMUNICAÇÃO TRIVIAL OU PERENE?


 
            Depois de ler um livro impactante que me faz pensar dez vezes antes de emitir um parecer, e lembrando as inúmeras vezes em que “morri pela boca” ao dizer a coisa errada em hora imprópria a pessoas amadas, estive navegando no facebook e observando as diferenças no que as pessoas postam. Algumas usam o “face” para emitir suas ideias políticas ou censurar a banalização que ocorre em plano geral. Outras o aproveitam como oportunidade para contar suas novidades na cozinha e mesa ou dicas de moda e design. Alguns pastores e estudiosos escrevem para convencer os outros que suas ideias são as melhores, as únicas bíblicas, academicamente sensatas ou teologicamente corretas. Mães e avós recentes compartilham as fofuras de seus rebentos, e pais orgulhosos os prêmios atléticos ou acadêmicos de seus filhos. Algumas pessoas colecionam dizeres e fotos “bonitinhos”, “agradáveis”, angariando pontos para as fãs clicarem o “curtir”.

            Confesso que “entrei” no facebook para encontrar amigos (as) e compartilhar ideias, visando especialmente oportunidade de tornar conhecidos nosso ministério e nossos livros. Descobri que essa comunicação é efetiva, rápida, de longo alcance – e super-superficial! Amigos, achei muitos, até quem antes não tinha grande amizade, e algumas grandes amigas de há muito perdidas.

            Confesso que dou o “curtir” até mesmo doce apetitoso ou sugestão de sapato confortável e que não custe uma fortuna, ou dicas de onde arrumar livros gratuitos ou passagens mais econômicas. “Curto” todas as fotos de bebês e crianças de amigos, filhos, sobrinhos ou netos, e geralmente “curto” fotos de bichinhos de estimação – embora eu mesma não queira mais tê-los em casa. Descubro mudanças de profissão em algumas amigas: de médica para empresária, de enfermeira para fotógrafa; de aeromoça para psicóloga de agente de viagens para missionária; de dentista para advogada; e um ex-pastor agora é dono de pousada.

            Porém, se quero que minha comunicação virtual tenha repercussão eterna, tenho de me concentrar no foco e olhar para Jesus (Hb 12.2). Parodiando o título de um livro genial publicado por um amigo (O que Jesus beberia?) – o que Jesus diria nas redes sociais? Com certeza ele não descartaria as comunicações que as pessoas fazem sobre o que comem ou bebem (ele mesmo foi criticado por comer e beber com os pecadores), mas estaria mais atento ao que está por trás das comunicações escritas, mesmo as que usam emoticons, acrônimos ou siglas, como hehehe, kkkk, LOL e J, e as múltiplas citações heréticas de secularistas ateus ou panteístas, “evangelistas” aloprados como Osteen e Benny Hinn, e “feel good psychologies” centradas em “amar a mim mesmo” e “eu sou mais eu” em vez de “careço de Jesus”.

            Às vezes minha própria tendência é de criticar os que pensam diferente de mim, e me calo quanto às suas confusões – quando na verdade, meu coração deveria chorar com os que choram, e ser instrumento da paz de Cristo. Jesus olhava a multidão confusa, com carências e querências mal dirigidas, e via-a com compaixão, porque eram como “ovelhas sem pastor” (Mc 6.34).

            Alguns amigos se enveredaram por caminhos que levam de mal a pior, escolhendo relacionamentos tortos ou filosofias torpes – mas ainda assim, são amados pelo Criador, e eu devo usar os meios de comunicação para alcançar seus corações com a Boa Nova do perdão de um Salvador perfeito. Algumas amigas voltaram a doutrinas que aprisionam aqueles que já foram libertados por Jesus. Eu não fui chamada para criticá-las, mas para amá-las a ponto de elas voltarem ao primeiro amor, como diz o antigo corinho baseado em Ap 2.4. Muitos amigos e amigas que vendiam saúde e primavam por atletismo estão doentes: câncer, coração, até HIV acometem servos do Senhor! À medida que vamos envelhecendo, vamos pensando mais na efemeridade da vida que achávamos perene, e precisamos focar a vida eterna, que Jesus definiu assim: “Que te conheçam a ti, o único Deus Verdadeiro, e a Jesus  Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

            Percebi que o facebook não substitui outros meios de propaganda para meus serviços (como tradutora) ou divulgação dos livros que Lau e eu escrevemos (vaidade ou ministério?). As pessoas geralmente abrem apenas os comentários que têm seus próprios nomes como chamariz – afinal, todos nós somos incorrigíveis narcisistas. Aquilo que falam de nós – bem ou mal – é o que nos toca e nos move a agir, ou protestar, ou contemplar no espelho. E nisso não somos em nada como João Batista, que disse “Convém que ele cresça e eu diminua” (Jo 3.30).

            A meta missionária de alcançar mulheres como eu com o amor de Jesus não pode ser de “torta no céu e tolices na terra” – por esta razão, preciso trazer o foco da comunicação ao trono de Cristo, e reconhecer que é só dele todo trabalho, todo mérito, e toda glória. Como é fácil ser “furtadora da glória” e com a cara mais lavada, procurar refletir a mim mesma em vez de resplandecer a glória de Cristo! Preciso que minhas irmãs e meus irmãos enviem “feedback” mais sério do que apenas “curtição”. Tem de comentar: “Está certa, irmã, e eu também luto com isso” e “Minha irmãzinha, pense bíblica, e não bethmente sobre isso, e se arrependa!” Preciso constantemente derrubar os ídolos do próprio coração, em vez de apontar para as idolatrias tolas de outros irmãos. Acima de tudo, em vez de concentrar em meu facebook, tenho de reconhecer e assumir para mim: “Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo”(2Co 4.6).

 

 

 

 

 

Autor: Elizabeth Gomes

Fonte: iPródigo

 

sábado, 1 de junho de 2013

QUEBRANDO TABUS - PARTE XI


 
 
Chapter Seven

Desfazendo o Triângulo

Ainda estou para ver um casamento ameaçado pela intrusão de uma terceira pessoa em que cada um dos parceiros não contribuiu para o triângulo.  - Dra. Evelyn Miller Berger

 

            A suspeita e a descoberta de um “caso” extraconjugal pode ser uma experiência emocional dolorosa. Emoções de surpresa, choque, ira, medo, ódio e culpa vem cascateando sobre você como as cataratas do Niágara. Você fica confuso, e, em vez de suas reações serem planejadas e positivas, são imprevisíveis e explosivas. O sociólogo Lewis Yablonsky nota que, quando um “caso” é descoberto, os homens, provavelmente, manifestarão justiça própria e ira, sendo menos provável que considerem o “caso” como ato contra eles, e tendem a agir. As mulheres, provavelmente, se sentirão feridas; elas absorvem as notícias e ficam imaginando o que há de errado com elas, reexaminam o relacionamento, e tendem, finalmente, a deixar a infidelidade passar.

            Certamente é difícil pensar de maneira lógica e sensata quando o seu casamento, como o Titanic, chocou-se contra um “iceberg” e você sente que tudo aquilo pelo que viveu está soçobrando. Não de admirar que as nossas reações sejam, muitas vezes, frenéticas e impulsivas. É impossível sentar-se calmamente na cobertura do navio que já começa a afundar, e elaborar uma estratégia para salvá-lo.

            Todavia, há diferença entre o Titanic que está sendo levado rapidamente para o fundo do oceano e um casamento profundamente atingido pelo adultério. O casamento é um relacionamento, e não um objeto. Os relacionamentos não são desenvolvidos nem destruídos em um momento, como resultado de uma só experiência, boa ou má. O crescimento, ou deterioração, é determinado por muitas experiências e por nossa reação a essas experiências. Portanto, um esforço feito em momento de pânico não tem valor e é improdutivo.

            “Então, o seu cônjuge prevaricou?”, pergunta a conselheira Evelyn Miller Berger. “Isso não significa que a sua vida está arruinada, que o objetivo de sua vida acabou; há algo que você pode fazer a respeito. Esse acontecimento pode suscitar em você os seus recursos mais insuspeitos, mas, mesmo que você não consiga salvar o seu casamento, pode haver para a sua vida um significado profundo, e, com sabedoria e paciência, quem sabe, você pode até salvar o seu casamento”. Um “caso” é realmente uma coisa muito complexa, e não cede por meio de soluções simples, imediatas. Ele não começo da noite para o dia, e não será resolvido do dia para a noite. Podemos e devemos desenvolver uma estratégia eficiente para nos havermos com esse problema, porque tanto a parte enganada quanto a parte culpada estão mergulhadas em incertezas a respeito de como agir.

            Eu isolei dez princípios práticos, que nos propiciarão uma compreensão melhor acerca de nós mesmos, do problema e de suas soluções. Estes princípios ajudarão, quer o “caso” tenha sido apenas descoberto, quer já tenha continuado por muito tempo. Mesmo para as pessoas que não estão sendo afetadas pessoalmente, de forma alguma, por um “caso” extraconjugal no momento presente, estes princípios podem fazer parte de uma estratégia para impedir a infidelidade. Eles não estão relacionados em qualquer ordem de importância ou sequência, mas os primeiros quatro acredito, vêm antes dos últimos seis.

            NÃO SE APRESSE A AGIR

            Esta pode ser a coisa mais difícil de se fazer, mas certamente será a mais sábia. Para proteger-se de julgamentos apressados e emoções súbitas, você precisa afastar-se da situação, em vez de atirar-se nela, correndo. “A coisa mais importante para se fazer imediatamente é não fazer nada”, diz a Dra. R. catedrática de psiquiatria na UCLA (Universidade da Califórnia – Los Angeles) “Não se apresse a agir, mas, pelo contrário, retire-se para refletir. Pese o que tudo realmente significa para o seu cônjuge, bem como para você”. A tendência, ao se descobrir a infidelidade, é culpar, acusar, ameaçar, entrar em pânico. Não há como esta maneira de abordar o problema possa ser construtiva, porque você está agindo baseado em suas emoções, e elas podem fluir desenfreadamente quando você está sofrendo a dor insuportável de um coração partido. O orgulho ferido, o ciúme e a ira justa o impulsionarão a alguma ação explosiva. Não saia imediatamente, para fazer alguma coisa drástica, como correr ao advogado, pedir o divórcio, ameaçar separação ou fazer algum ultimato irrevogável, que force o seu cônjuge a agir de forma também apressada, que torne impossível a restauração de seu casamento.

            Se você agir de maneira impulsiva e imediata, nunca será capaz de entender realmente o que aconteceu e por quê. Espere até saber o que está acontecendo com o seu cônjuge, antes de tomar medidas apressadas ou mal concebidas. Pelo contrário, você precisa dar-se tempo par permitir que as suas emoções se acalmem. Isso pode levar dias; assim sendo, espere. Resista a todas as tentações de fazer algo apressadamente ou de pôr as cartas na mesa. Não fale por enquanto com ninguém, pedindo conselho ou simpatia. Um dia as lágrimas escaldam a sua face, e você acha que poderia chorar a vida toda, mas no dia seguinte você se sentirá totalmente destruído, ou destruída, com dores em todo o corpo ou amortecido de dor.

            Outra sugestão: Nãose apresse a tirar férias sozinha ou coisa parecida, porque você “precisa de tempo para pensar nisso”. Isso só levará a mais envolvimento com “a outra”. Mantenha a sua rotina costumeira; conserve-se ativa fisicamente, mantenha a casa limpa, cuide dos filhos. Não abandone as suas responsabilidades em casa, igreja ou na comunidade, exceto, talvez, por um breve período de descanso e meditação. Se você trabalha fora de casa, permaneça no seu trabalho. Isso é importante para sua cura e seu amor-próprio.

            Esta é a hora de conversar com Deus. Derrame diante dele o seu coração, e diga-lhe exatamente como você se sente. Ele sabe que você é humana.  Não procure medir as suas palavras para encaixar-se na noção que você tem dele. Ele não ficará  chocado ou perturbado. Exponha a coisa toda diante de Deus, e peça a sabedoria dele. Ele é um socorro bem presente na angústia. Uma mulher rejeitada escreveu a um conselheiro: “Eu orei, pedindo paciência para não perdera acalma nem chorar ou criticar, da forma como sentia vontade de fazer. Orei, pedindo ajuda para continuar a amar, em vez de odiar o meu marido, como já estava começando a fazer. Tive muita dificuldade em perdoá-lo pelo que ele havia feito, e por isso orei a esse respeito também”.

            Outra mulher anônima falou da importante compreensão que recebeu ao orar: “A primeira ajuda que recebi naquele dia terrível foi a oração. Só o fato de me comunicar com Deus aliviou parte de minha ansiedade, mas fez mais do que isso. Em oração, cheguei a compreender, num nível emocional, a verdade que eu conhecera até então apenas academicamente. Enfrentando a possibilidade de  uma família dividida e do divórcio, aprendi à força que  o casamento cristão é mais do que um contrato legal entre um homem e uma mulher ou um acordo quer pode ser encerrado, sempre que a esposa ou o marido o julguem conveniente”.

            Ela continuou: “Raciocinei que Deus estava presente quando nos casamos; que ele devia também estar presente então, quando estávamos enfrentando dificuldades. Isto me confortou. Então levei adiante meu raciocínio. Meu marido e eu tínhamos apostado em nosso casamento; Deus também tinha apostado nele. ‘Isto é dois contra um’, pensei capciosamente, colocando Deus – com muita autojustificação, eu o reconheço agora – do meu lado. E então, mentalmente, levei minha lógica um passo além: Deus, eu mesma, três filhos e algo que eu chamava de lar e família – tudo isto pesava contra um homem e uma mulher em um estado de amor romântico. Quem poderia comparar logicamente a tragédia de um romance destruído com a de um lar e um casamento destruídos”?

            Gastar o tempo para refletir e orar, nos primeiros estágios da descoberta da infidelidade, é a ação mais importante que você pode realizar. Creia que, de alguma forma, Deus lhe dará sabedoria, e extrairá o bem a partir de uma situação negativa.

 

            SEPARE OS FATOS DE SUAS OPINIÕES

            Quando um “caso” é descoberto, a mente do cônjuge traído funciona em alta velocidade. Experimenta não apenas todo tipo de emoções, mas essas emoções são também incitadas em seus pensamentos dia e noite. Inconscientemente, você mistura os fatos propriamente ditos com a sua opinião negativa a respeito desses fatos, e cria um quadro falso acerca de si próprio e da dificuldade. Você não apenas rememora os fatos repetidamente, mas também os interpreta e chega a conclusões. Quando as suas interpretações e conclusões são juntadas aos fatos nus e crus, você acaba tendo um quadro totalmente distorcido e inexato.

            Ora, certamente não e fácil pensar lógica e corretamente quando você está debaixo desse tipo de tensão e angústia. Mas é absolutamente essencial forçar-se a pensar claramente, senão as suas emoções fluirão desenfreadamente e criarão toda sorte de inverdades. Não estou dizendo que as suas emoções são corretas ou incorretas, mas que elas carecem de base. Você precisa constantemente fazer diferença entre o que são fatos reais e o que são opiniões negativas, que você inconscientemente misturou com os fatos verdadeiros. Por exemplo: O fato é: “O meu cônjuge é infiel”, mas você pode adicionar uma conclusão falsa e negativa: “... portanto, ele não se importa mais comigo e com as crianças”.

“Meu marido ama outra mulher”. – “Isto quer dizer que perdi a minha beleza e agora sou                                                       feia”. 

“Meu cônjuge me engana”. – “Não posso nunca mais confiar nele”.

“Fui traída”. – “O nosso amor nunca mais pode ser reacendido. Sempre será frio e estéril”.

“Fui ferida tão profundamente”. – “Jamais poderei perdoar e refazer-me disso”.

“Este é o primeiro caso de infidelidade em nossa família”.  – “A nossa reputação está arruinada”.

“O nosso casamento fracassou”. – “Sou um fracasso como esposa e mãe”.

“Este é o primeiro caso de infidelidade em nossa igreja”. – “Agora os crentes não nos aceitarão mais”.

“A nossa família está dividida”.  – “Os nossos filhos ficarão marcados para o resto da vida”.

“Cometi adultério”. – “Deus não me perdoará. De agora em diante serei um crente de segunda classe. Deus não pode mais usar-me; estou destruído”.

   

            Nenhuma dessas deduções é válida. Os fatos são verdadeiros – as conclusões falsas. E, porque essas conclusões são sempre negativas, elas destroem o seu amor-próprio e o levam a mergulhar em desespero irremediável. O fracasso do casamento torna-se o seu fracasso, e o faz ficar imóvel e arrasado pelo sentimento de culpa. Elas também dizem que você crê que o fracasso foi fatal e final; portanto, não há razão para crer e esforçar-se agressivamente para alcançar uma solução.

 

            NÃO DEIXE O PRESENTE DESTRUIR O PASSADO

            A frustração e a decepção ocasionados por um “caso” mudam significativamente o presente, mas, no seu processamento, também podem descolorir o passado ou roubá-lo completamente de você. O desânimo que você está sentindo agora leva-o a imaginar se todas as alegrias do casamento e da família desfrutadas no passado não eram falsas, e o seu cônjuge, um hipócrita. Há uma tendência para pensar: “Ele sempre me enganou; ele nunca me amou; nunca falou de coração o que dizia”. Assim, perdemos a perspectiva das boas experiências do passado. As discordâncias e dificuldades do passado são exageradas, amplificadas, e nada parece bom mais.

            Ellen Williams cita uma esposa anônima que escreveu, depois que o seu marido se envolveu com outra mulher:

            Reconhecemos que o nosso casamento havia sido bom. Era mais fácil para o meu marido afirmar isto do que para mim. Eu tinha a tendência de jogar fora todas as belezas dos anos em que havíamos vividos juntos, por causa de uma mancha, como se algo que havia ocorrido no presente pudesse negar a felicidade do passado. Começamos a relembrar juntos aqueles anos, no calor de nossas discussões e em nossas horas mais tranquilas. A nossa vida em comum tivera uma rica história de experiências compartilhadas, três filhos e uma netinha. Tudo isto foi colocado em um lado da balança. Pesou muito mais do que a infelicidade do ano passado.  

            Assim, dê valor aos bons tempos que você gozou – a alegria que gozaram um com o outro, as risadas, o conforto, a intimidade. Claro que haverá estocadas de dor quando você pensar nessas coisas à luz da traição atual. Mas deixe que as experiências positivas do passado o encorajem a trabalhar em favor de uma solução pressente. Não sacrifique o prazer do passado ao fracasso do presente. Não cancele o passado. Cuide dele com carinho. E edifique sobre ele.

 

            DEDIQUE-SE A APRENDER – NÃO A ABANDONAR

            A descoberta de um “caso” extraconjugal imediatamente inicia um processo doloroso de reavaliação. A dinâmica entre você e o seu cônjuge indubitável e irrevogavelmente será mudada. O relacionamento nunca mais será o mesmo. E duas perguntas, serão sempre feitas, deliberada ou inconscientemente, tanto pela parte inocente quanto pela culpada: “Devo afastar-me? Deve o meu cônjuge afastar-se?” E dezenas de outras perguntas estão incluídas nessas duas: “O que devo fazer?” “Qual será o resultado disso tudo?” “Posso confiar outra vez?” “De quem é a culpa?” etc., etc.

            Você se acha despreparado para responder a essas perguntas na condição de perplexidade em que está. Mas pode decidir se para você essa tragédia será o fim de um casamento ou o início de um processo de aprendizado. Depois que Adão e Eva desobedeceram a Deus e forma descobertos, imediatamente culparam a Deus, ao Diabo, um ao outro e à situação. Preferiram culpar – não ouvir; censurar – não aprender; esconder-se – para se protegerem da desaprovação de Deus e daqueles a quem amavam. Desde então todos os homens têm tido a mesma luta básica. A Dra. Ruth Neubauer, terapeuta do casamento e da família, residente em New York, diz: “A reconstrução de um casamento depende, em grande parte, da rapidez com que um casal pode avançar além do estágio em que simplesmente culpa-se um ao outro. Os cônjuges que nunca avançam além do estágio de culpar podem permanecer casados, mas os problemas que levaram, a princípio, à infidelidade conjugal passam sem ser reexaminados e podem resultar em um ciclo de infidelidades repetidas.”

            Nenhum amigo de Deus ou do casamento pode dizer que o adultério é uma coisa desejável. Mas um “caso” é uma crise que indica uma necessidade, uma indicação da necessidade de uma mudança - de um retorno. A conselheira Marcia Lasswell confirma: “A pessoa envolvida em um caso de infidelidade extraconjugal fez uma declaração ineludivelmente dramática que não pode ser ignorada, e abriu a oportunidade para o casal realizar uma obra construtiva em seu relacionamento.”

            A psicóloga Dra. Ruth K. Westheimer concorda: “Eu nunca recomendaria um “caso”... por causa das outras consequências, que são dolorosas. Não obstante, é um fato que certos cônjuges são sacudidos de sua complacência pelo ‘caso’ de seu parceiro”. Uma esposa abalada, traída, confessou: “Cada vez que penso naqueles dias terríveis, resolvo novamente tratar o meu casamento e o meu marido com mais cuidado”.

            A infidelidade é mais frequentemente um sintoma do que uma causa de fratura marital. Da mesma forma como a lâmpada do óleo em seu carro, a luzinha a cintilar revela um problema que precisa ser resolvido imediatamente – um sintoma de uma grande dificuldade. A luz vermelha não indica que o carro nunca foi bom, uma porcaria desde a fábrica. Nem indica que o carro está arruinado, e você deve levá-lo para o ferro velho. É um sinal, uma advertência de que alguma providência importante é necessária. Muitos anos atrás, minha esposa estava dirigindo o seu carro alegremente, quando a luz vermelha no painel começou a cintilar. Não sabendo ao certo o que ela indicava, mas pensando que poderia estar revelando algum desajuste sem importância, ela continuou dirigindo, até mais depressa ainda, para encontrar um mecânico. Quando chegou à oficina, a muitos quilômetros dali, o motor do carro havia fundido. Se ela tivesse interpretado corretamente o sinal, os resultados teriam sido positivos.

            O “caso” é um indicador – um alarme, um catalisador para mudança positiva. Decida que você vai aprender dele, e não usá-lo como um pretexto para desistir, tirar o corpo fora ou afastar-se. Mesmo que os seus esforços não tenham êxito e seguir-se o divórcio, ainda assim você pode aprender muita coisa que não aprenderia de outra forma. Deus usa todas as coisas – tudo o que deixamos que ele use – para nos ensinar e nos ajustar, até mesmo o desastre de um casamento feito em frangalhos.

 

            DETERMINE OS FATOS ANTES DE DECIDIR O DESTINO

            Os “casos” acontecem em todos os tamanhos e formas, e por várias razões. O cenário e aas causas são diferentes em cada caso, tão diferentes quanto as pessoas envolvidas. Não existe nenhum “caso típico”. O Dr. Westheimer diz: “Há muitas espécies de ‘casos’, iniciados por diferentes razões, com vários graus de seriedade.”

            Embora o adultério seja o problema, tanto numa aventura de uma noite quanto em um relacionamento de longa duração, a dinâmica e os resultados variam e cada um deles precisa ser tratado de maneira diferente. O deão da Escola Bíblica que aconselhei, que deliberadamente seduzia cada garota que podia, na escola, era uma coisa. Um amigo meu que, reagindo a um problema de seu casamento, cedeu a uma experiência, apenas uma noite, e então confessou-a a Deus e à esposa, era outra coisa. A Bíblia faz grande diferença entre a pessoa que é apanhada numa falta – que cai por causa de falta de vigilância da tentação, e depois se recupera – e a que continua em um programa deliberado de pecado, só deplorando ter sido pego. Isto não quer dizer que um é menos pecador que o outro nem que estamos minimizando o pecado, mas significa apenas que o aconselhamento e o contra-ataque devem ser diferentes.  Posso acrescentar, aqui, que o adúltero crônico – cuja infidelidade é um modo de vida – é geralmente um homem cujo comportamento tem pouco a ver com a esposa ou a qualidade de seu matrimônio. Sem que haja um milagre de Deus, não é provável que ele se modifique.

            Em seu livro assaz elucidador, Affair Prevention, o ministro episcopal Peter Kreiter relaciona oito tipos comuns de casos extraconjugais: O Caso de Amizade, O Caso do Bom Vizinho, O Caso do Cafezinho, O Caso do Aproveita-o-momento, O Caso da Velha-Amizade-Nunca-Esquecida, O Caso do Ajudador das Pessoas, O Caso Bang-Bang e o Caso do Escritório. Os nomes que ele deu a esses “casos” mostram como ou onde eles começam, e são bem autoexplicativos, exceto talvez, o Caso Bang-Bang. Este é do homem promíscuo, cujos muitos casos são como entalhos feitos em seu cinto de masculinidade – da mesma forma como um cowboy pode cortar entalhes na culatra de seu revólver para cada bandido que matou.

            Você não pode tratar uma doença, a não ser que saiba qual é. Um estudo mostrou que trinta e um por cento das mulheres envolvidas voluntariamente contaram a seus maridos a respeito de seus “casos”, comparados com apenas dezessete por cento dos homens. Portanto, precisa haver um tempo para discussão aberta e franca, e descobrimento dos fatos. Esta discussão direta tem o objetivo de determinar os fatos básicos do “caso” – a espécie de envolvimento, quem se envolveu, a sua duração, o nível de dedicação do amor por parte do cônjuge. E também é importante conhecer os sentimentos de seu cônjuge em relação ao “caso” e ao futuro de seu casamento. Não deve haver acusações, histeria, ameaças, atribuição de culpa ou sondagem para esmiuçar detalhes. Esta confrontação inicial pode indicar se há qualquer possibilidade de o casamento sobreviver.

            Antes da descoberta propriamente dita do “caso”, você, provavelmente, percebeu alguns dos sinais, de forma que tinha já algumas informações. Houve mudança nos hábitos de seu cônjuge ou nos padrões estabelecidos em seu casamento – ou um interesse incomum ou exagerado com sua aparência pessoal ou um desinteresse para com sexo, e até impotência. Ou um interesse renovado em experimentos sexuais, ou mudanças frequentes e inexplicadas em seu programa ou horário de trabalho ou tempo de lazer. Ou o fato de ele (ou ela) se fechar em longos períodos de silêncio.

           O Dr. Richard Fisch, catedrático de psiquiatria na Escola de Medicina da Universidade Stanford, sugere isto:

            Se você deseja consertar o seu casamento, e não se livrar de seu marido, não tente fazê-lo confessar o adultério, através do interrogatório, insinuações ou outras formas de ciladas. Diga-lhe abertamente o que você sabe... e como ficou sabendo.  E também espere até que o primeiro choque emocional passe, antes de tentar falar sobre todo o problema. Quando, por fim, você conseguir trazer o assunto à baila, não use de ameaças, tais como divórcio ou separação, não fique lembrando-lhe que você se sente traída, que ele nunca mais será digno de sua confiança. E não insista para que ele procure ajuda profissional.

            Durante esta primeira discussão ficou ele aliviado pelo fato de o problema ser exposto abertamente? Ele queria falar? Expressou remorso pelo fato de você ter sido ferida ou indicou um desejo de fazer o casamento funcionar? Esses são bons sinais e devem ser estimulados. Propiciam uma oportunidade de ouro para você usar o melhor de sua sabedoria, e as chances são razoavelmente boas de que será capaz de salvar o seu casamento.

            No entanto, talvez ele tenha sido reticente, negando, culpando, desafiando. Esta situação torna o desafio maior, mas não, necessariamente, irrealizável. Reações sensatas e cuidadosamente consideradas, da sua parte, a esta confrontação inicial, serão muito importantes. O seu único objetivo, nesta ocasião, será obter os fatos, e não saltar para conclusões ou iniciar qualquer ação.

 

            PERGUNTE AS RAZÕES, E NÃO OS DETALHES

            Quando obtiver os fatos reais, você poderá explorar as razões para a infidelidade – razões que a ajudarão a entender as causas e a parte que lhe toca, neste envolvimento. Por que foi que o seu marido se voltou para outra mulher? Quais são as lutas dele? Em quase todos os casos de infidelidade conjugal, a “outra” propiciou algo que a esposa não estava dando. A sua motivação precisa ser de aprender e entender, e não de se defender ou culpar – confrontação com cuidado, não com crítica – de ouvir sem malícia ou ira. Esta pode ser a tarefa mais difícil de todas: ouvir, colocar-se no lugar de seu cônjuge, tentar entender os sentimentos dele e por que ele acha que aconteceu o “caso”. Algumas das coisas que você ouvir serão difíceis de aceitar. Podem atingi-la diretamente. Você pode ser ferida e até mesmo acusada injustamente. Certa mulher contou-me que o marido dela disse: “Eu não posso conversar com você, e só queria alguém com quem conversar.” Você pode sentir-se injustamente criticada. Contudo, morda os seus lábios, enxugue as lágrimas, e ouça – ouça! Nem pense em usar de menosprezo, de moralização, de sermões, de versículos bíblicos.

            Não estou sugerindo uma impassibilidade prática, isto é, que o cônjuge ofendido se assente passivamente sem expressar sentimento, reprimindo toda a dor. Essa pode ser a hora em que você diga como foi ferida profundamente, e comece a estabelecer diretrizes para a reconstrução da confiança entre vocês dois. Mas, se você está amargurada, e não vê nada, a não ser falhas, e começa a menosprezar seu cônjuge,já arrasado pelo sentimento de culpa, pode ser desastroso. O Dr. John F. O’Connor, do Centro Psicanalítico da Colúmbia Para Treinamento e Pesquisa, adiciona esta sugestão: “Quando estiver falando, use a regra do ‘eu’. Diga: ‘Eu fui ferida’, em vez de dizer: ‘Você me feriu’. Em outras palavras, nunca comece uma sentença, numa conversa com ele, que o coloque na defensiva. Vocês dois devem tentar pensar: ‘Este é um ponto morto em nosso casamento’, e tentar começar a resolver a situação juntos”.

            Um terapeuta do Hospital Northside de Atlanta, Geórgia, Dr. Alfred A. Messe, comenta: “Toda esposa que se defronta com o adultério de seu marido deve insistir para que ele corte todas as ligações com a outra pessoa e se concentre em incentivar a satisfação de seu casamento. A descoberta diminui a  atração de um “caso”. Ele perde o seu encanto clandestino e torna-se menos sedutor e menos significativo”.

            Esta interação aberta é imperativa. Teria sido o “caso” a reação dele à sua ausência física ou emocional ou a evidência de uma crise na vida de vocês? Uma escapatória de uma situação desanimadora no trabalho ou incerteza a respeito de sua masculinidade? Fora uma erupção de orgulho, da parte dele, um sustento para os seus sentimentos de inadequação? Pressão dos colegas? Perda do amor próprio, devido à perda de um emprego ou problemas de serviço? Medo da idade? Redução de capacidades sexuais no casamento? Mudança de cargo ou de careira? Nascimento ou enfermidade de um filho? Viagem da esposa, a serviço? Vingança? Insatisfação emocional? Um desesperado grito, pedindo socorro? (Ou qualquer uma dentre cem outras considerações?) Este é o tipo de informação de que você necessita para obter compreensão. Você não conseguirá abordar todos esses aspectos em uma hora; pode levar dias. E certamente não conseguirá ouvir tudo isto, se manifestar crítica e não aceitação. Porém ouvir, observar e compartilhar, a fim de se tornar sensível ao profundo significado do “caso”, é da maior importância. A esposa precisa colocar as suas cartas na mesa, e convencer o marido a fazer o mesmo.

            Uma advertência: Não sonde, para descobrir os detalhes picantes.  “Onde vocês dois iam quando estavam juntos?” “Quando fazia amor comigo, você estava pensando nela?” “Você alguma vez a trouxe aqui para nossa casa, para a nossa cama?” Certa mulher, descobrindo que seu marido infiel ia, com a “outra”, ao Holiday Inn, exclamou: “Eu nunca vou me hospedar em um Holiday Inn enquanto viver!” Pode haver alguns detalhes que você está morrendo de vontade de conhecer, mas não procure sabê-los. Eles são irrelevantes para a solução do problema. O fato de conhecê-los pode satisfazer a sua curiosidade e acender o seu ciúme, mas não contribuirá para a solução.

            Resista a todos os desejos de fazer perguntas que a comparem de qualquer forma, com a outra, em termos de aparência, maneira de vestir e realizações.

            Também, por favor, não lhe pergunte se ele a ama. Você o estará forçando a ficar constrangido. Nesse ponto, ele não sabe; está dividido. Ele está vivendo no mundo dos seus sentimentos, e, sem dúvida, sendo enganado por esses sentimentos. Se você perguntar: “Você ainda me ama?” e ele lhe disser a verdade, é bem possível que ele diga: “Não”, ou: “Não sei”, e então você ficaria abalada – sem esperanças. Se ele disser: “Sim”, você será tentada a achar que ele está mentindo, ou dizer: “Então, por que você fez uma coisa dessas? Isso prova que você não me ama”. Isto só agrava a situação. Neste ponto, os atos dele falam  mais alto do que qualquer coisa que ele possa dizer.

 

            INCENTIVE O SEU CRESCIMENTO, NÃO O SENTIMENTO DE CULPA

            Talvez a coisa mais difícil der todas para se fazer – e ao mesmo tempo a mais necessária – seja examinar a possibilidade de sua culpabilidade no “caso”. Você, de alguma forma, falhou para com o seu cônjuge? A Dra. Mary Ann Bartusis, psiquiatra e autora, aponta o que devia ser óbvio para todo mundo: “É necessário haver três ângulos para se fazer um triângulo, e um desses ângulos, inevitavelmente, é o seu”. Raramente um marido ou uma esposa iniciam um triângulo amoroso, se o casamento não estiver seriamente enfermo. O reconhecimento de que falhamos, de alguma forma, ou contribuímos para o “caso” não nos deve surpreender nem nos lançar em uma excitação de autodefesa. Afinal de contas, você é perfeita? Você não comete erros? Você não é humana, como nós outros, com entendimento ilimitado, fraquezas pessoais, pecados e possibilidades de fracasso? A autojustificação, em qualquer dos cônjuges, condena o casamento em qualquer estágio. É difícil conviver com a perfeição.

            Por que não engolir o seu orgulho e admitir diante de você mesma, de Deus e de seu cônjuge o que você de fato sabe ser a verdade, e enfrentar a pergunta necessária e difícil: “O que é que eu fiz que contribuiu para esta situação?” Não estou sugerindo um prolongado processo de introspecção, onde você disseca todas aas suas falhas, afirma o quanto é má e aumenta o seu sentimento de culpa.Não precisamos, além do mais, disso. Da mesma forma, não estou recomendando que você assuma toda culpa por toda a confusão, isentando o seu cônjuge do pecado que cometeu. Tenho conhecido mulheres que eram tudo o que um marido poderia desejar, mas assim mesmo o marido as enganou. Há mais razões para a infidelidade do que uma esposa inadequada. Porém precisamos perguntar realisticamente: “Eu falhei?” “O que posso aprender com isto?” “Em que devo mudar?” Da mesma forma como espera que o seu cônjuge infiel reconheça a infidelidade dele e aprenda com ela, você precisa fazer com qualquer falha de sua parte.

            Natalie Gittelson, a autora de Redbook, sugere isto:                                           Cabe a cada esposa que sabe ou suspeita que o seu marido está enganando-a dar uma boa olhada em sua própria conduta, suas próprias atitudes e as mensagens mudas que dirige ao homem de sua vida. Ela deve perguntar a si mesma francamente se, de certas maneiras sutis, não pode estar privando-o da dedicação de seu tempo, simpatia, interesse, compaixão. Se não está compartilhando as suas melhores ideias com a sua melhor amiga, e deixando para o marido apenas os detalhes monótonos da vida doméstica. Se não está fazendo ouvidos moucos quando ele traz para casa algumas das frustrações de seu dia, e, pelo contrário, exigindo as atenções dele para as frustrações dela. Será que ele não se tornou personagem de secundária importância em sua escala de prioridades? Bode expiatório? Muro de lamentações? Criança problema?                                                 

            Certa esposa ferida, todavia, nem por isso mais sábia, concorda: “Você pode se envolver terrivelmente com os filhos e com o trabalho, sem perceber, e não dar ao seu marido a atenção de que ele precisa. Descobri que também não era principalmente sexo o que o meu marido queria. Ele estava procurando todos os outros tipos de atenções que eu estava negligenciando em proporcionar-lhe, até mesmo, ocasionalmente, o carinho maternal, que todo mundo precisa de vez em quando, e que eu às vezes desejava receber dele”. Marjorie Zimmerman cita um marido infiel, mas penitente: “Um homem precisa ser mais do que um comensal em sua própria casa”.

            Uma esposa anônima entristecida acrescenta o seu ponto de vista: “Olhando para o passado, verifiquei que houve muitas ocasiões – oh, tantas ocasiões! – quando o meu marido procurou proximidade e compreensão, que não lhe dei. Eu estava sempre fazendo algo mais urgente, como remendar, limpar o refrigerador, arrancar as ervas daninhas do jardim. Lembrei das inúmeras vezes que ele disse, de modo anelante: ‘Por que não saímos sozinhos por uns dois dias? Você poderia comprar um vestido  novo. E nós simplesmente gozaríamos umas férias dos filhos, da casa – ficando sem fazer  nada, sentindo-nos jovens’. Eu não disse diretamente: ‘Não seja tolo, somos adultos’, mas a minha falta de entusiasmo, sem dúvida, foi óbvia”. Outra mulher, embora uma crente firme, percebeu outra coisa: “Estou tão envergonhada! Eu devo ter sido uma mulher muito dominadora. E nunca percebi o que estava fazendo”.

            Ao abandonar sua esposa crente, um marido incrédulo disse, candidamente: “Essa outra mulher n ao é tão bonita como você – ela não é nem muito limpa. Sem mim ela seria uma alcoólatra. Mas é a única pessoa que conheço que precisa de mim e me aceita como sou. Ela tem algo para mim que você nunca teve”. Linda Wolfe acrescenta: “A maior parte dos adultérios não ocorre devido aos conflitos internos de um indivíduo. É bem mais frequente o adultério ser o resultado de um conflito interpessoal. O amor próprio, em declínio, de um homem, pode estar ligado ao fato de a esposa ser a causa do ‘ego’ danificado desse homem. Ela pode ser supinamente crítica ou excessivamente exigente para com o seu marido ou sexualmente indiferente ou até rejeitá-lo sexualmente”.

            Um conselho semelhante vem do Pastor Henry Wildeboer, da Igreja Reformada:

            Pelo fato de as relações extraconjugais muitas vezes suprirem o que falta ao casamento, a sua causa é frequentemente um ou mais pecados de omissão, tais como deixar de mostrar consideração para com o seu cônjuge, negligência, deixar de propiciar-lhe a certeza de seu amor, não expressando-o audivelmente, negligência em expressar afeição ou em se apresentar atraente, acessível, comunicativa. Algumas vezes uma esposa com um programa intenso parece desinteressada e fria. Filhos, clubes, negócios e atividades na igreja, embora importantes, precisam ser conservados em suas devidas perspectivas... Quando a parte ofendida reconhecer as suas próprias falhas e como elas contribuíram para a crise, ainda pode, com a ajuda de Deus, começar a perdoar o ofensor e reedificar a confiança.

 

            Para Maridos Também

            Tudo o que dissemos acima vale par aos maridos também, cujas esposas foram infiéis. Tudo o que uma esposa deve ao marido, o marido deve a ela também – sem exceção. O Dr. David Reuben, autor de sucesso, observa: “O casamento é como uma longa viagem em um barco pequenino: se um dos dois passageiros começar a fazer o barco balançar, o outro tem que segurá-lo, fazê-lo ficar firme; senão irão ambos para o fundo”.

            “Com o ‘caso’ de meu marido”, contou-me certa senhora, “aprendi tanto a respeito de mim mesma, que me tornei uma mulher inteiramente diferente. Enfrentei o que vi e ouvi a respeito de mim mesma, e orei para que Deus me ensinasse, me transformasse. Tive uma profunda experiência com Deus, fui realmente convertida, e as minhas atitudes mudaram. Repetidamente orei para que Deus me desse sabedoria para me tornar a esposa mais perfeita possível para o meu marido. Até o meu marido notou a mudança”.

            Nenhum casamento é reconstruído, a não ser que cada um dos cônjuges esteja disposto a aprender com o problema e a sofrer modificações positivas. Nenhuma ação direta, de minha parte, mudará o meu cônjuge, mas eu posso mudar. A graça de Deus está disponível para me fazer crescer, confessar os meus pecados, a minha necessidade, e ele promete ser “fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”. Ele também promete dar-me generosamente de sua força, para eu fazer o que não consigo fazer sozinho.

 

            PERMITA QUE CADA CÔNJUGE CONFESSE AS SUAS AÇÕES

            Visto que são necessárias duas pessoas para constituir um casamento, se uma delas falha, ambas têm alguma responsabilidade por esse fracasso. A sua responsabilidade não é a mesma, mas elas são igualmente responsáveis. Uma age, a outra reage; uma negligencia o seu parceiro, a outra, os seus votos. Uma é infiel nas atenções, a outra adulterando. Nenhuma pode carregar os fardos da outra. Cada uma precisa se responsabilizar por suas próprias ações, não importa o que a outra tenha feito. Nenhuma das duas é responsável pelas ações da outra, mas cada uma, pelo seu próprio comportamento. “Tudo o que o homem semear, isso também ceifará” aplica-se a cada pessoa em particular e individualmente.

            O ato de se esquivar da responsabilidade é uma característica humana, posta em prática desde Adão. Gostamos de jogar o “jogo da culpa”, e procurar um bode expiatório. O marido infiel acusa: “Você estava tão preocupada com os filhos que nunca prestou nenhuma atenção a mim”. Ou: “Desde que você arrumou aquele emprego, a perdi de vista”, etc. Ele aponta o dedo, e diz: “Você”, “você”, “você”. O que você fez desculpa o que eu fiz. Se pode conseguir que a sua esposa aceite toda a responsabilidade, ele fez o bolo e ele mesmo o come. Como um alcoólatra, ele pode continuar a sua ação destrutiva, sabendo que a sua “mãe” o protegerá das consequências e assumirá toda a culpa. Qualquer mulher que fizer isto estará apenas dando ao seu marido experiência em atitudes evasivas e irresponsabilidades egocêntricas. Os doutores Willard e Marguerite Beecher apresentam um parágrafo ímpar a respeito deste princípio:

          Uma pessoa pode ter um problema ou ser um problema. A pessoa que é um problema não acha que tem problemas. Continua a vida esplendidamente, explorando os outros e tirando das pessoas que a acolhem. A pessoa que a acolhe é a que tem um problema: o problema de propiciar apoio para a que é um problema. Em suma, são necessários os dois para tornar possível que um deles falhe!  

            Lembro-me de um homem, Charles, que era perito nisso. Depois de ficar um ou dois dias com a amante, ele vinha para casa e esperava que a esposa o abraçasse e se relacionasse sexualmente com ele. Quando ela hesitava ou se recusava, ele dizia: “Você está me jogando bem nos braços dessa outra mulher. A culpa é sua se o nosso casamento acabar. É isso que você quer que aconteça?” Ele era um patife. A verdade é que ele não tinha intenção de desistir de seu “caso”, mas queria fazer a esposa sentir que era culpada. Ela era a lata de lixo dele.

            Qualquer decisão tem que mudar do sentimento de culpa para a responsabilidade. Da mesma forma como não podemos escapar da participação que tivemos no problema, não devemos desculpar a parte que os outros tiveram. Não podemos defender o pecado de adultério, mas ao mesmo tempo podemos reconhecer o nosso pecado de negligência, que contribuiu para a crise. Algumas esposas rejeitadas, por medo e insegurança, assumem toda a culpa pelas ações de seu marido, e rogam, imploram, pressionam e aceitam qualquer tipo de humilhação, para impedir que eles as abandonem. “Você pode fazer qualquer coisa, mas não me abandone. O que eu faria sem você?” Nenhum homem, no seu íntimo, respeita uma mulher assim. O que ela pode pensar que lhe propicia controle sobre ele realmente é um sinal de sua fraqueza. Ela está dizendo: “Eu não sou uma pessoa importante”. O marido dela a abandonará por falta de respeito, ou continuará com os seus “casos” e ficará, mas para usá-la como peteca ou como capacho.

            O marido que prevaricou, da mesma forma como começou voluntariamente o seu “caso”, precisa escolher voluntariamente permanecer no casamento. Certamente você ora e confia em Deus para ocasionar uma transformação, mas nem toda a pressão do mundo conseguirá isso. Você precisa abrir a gaiola de forma que ele fique livre para tomar uma decisão voluntária. Só esse tipo de escolha tem algum valor no casamento. Ao mesmo tempo, você expressa o pensamento encontrado nas palavras do Rev. Mr. Kreitler: “Penso que você seria louco se arriscasse a me perder”, ou: “O que temos juntos é bom demais para ser destruído”. Anos atrás, quando estávamos discutindo a infidelidade conjugal quanto a alguns amigos que estávamos tentando ajudar, perguntei à minha esposa: “O que você faria se descobrisse que eu estivesse tendo um ‘caso’ e pensando em abandonar o lar? Sem hesitação, ela respondeu: “Ficaria com o coração partido e, provavelmente, choraria muito. Mas Deus me ajudaria a atravessar a crise, e eu ainda conservaria as memórias dos bons anos que vivemos juntos. Mas não choraria eternamente. Há muitos homens que ficariam entusiasmados com a ideia de ter uma esposa como eu, que os amasse como eu o amei. E estou certa de que não teria problema nenhum em encontrar um deles”. Uma boa resposta. Esse é o tipo de esposa a quem você se apega.

 

            ABRA-SE COM UM CONFIDENTE OU UM COSNELHEIRO

            De acordo com as autoridades médicas, oitenta por cento de todos os problemas curam-se a si mesmos. Devemos enfrentar os problemas do casamento da mesma forma. “Sim”, diz Natalie Gittelson, que mencionei anteriormente, “o casamento que emenda os seus próprios ossos, por assim dizer, muitas vezes é fortalecido no processo. Só quando tudo o mais falha e passa a haver uma emergência emocional insolúvel é que se torna essencial a ajuda psicológica exterior”. Assim, um casal deve ir tão longe quanto possível em resolver a crise sem a assistência de profissionais.

            Contudo, algumas vezes a dor da infidelidade é tão grande que as pessoas envolvidas precisam descarregar as suas emoções, abrindo-se com alguém, antes de começarem a ser honestas uma com a outra. É muito difícil desemaranhar as emoções de ira e culpa, e ter uma perspectiva nova. E elas precisam desabafar as emoções com alguém que não coloque mais lenha no fogo. Esta deve ser, provavelmente, uma pessoa que não seja influenciada, imparcial: um pastor, um conselheiro, um psicólogo. Quarenta a cinquenta por cento de todos os problemas levados ao pastor, hoje em dia, relacionam-se com a família e os interesses matrimoniais. Procurar aconselhamento necessário é um sinal de força, e não de fraqueza. É o mesmo que procurar a ajuda de um especialista para salvar os seus olhos, ao invés de tolamente e desnecessariamente ficar cego.

            Acho maravilhoso que em nossa época o campo de conselheiros cristãos está se expandindo rapidamente (pelo menos nos Estados Unidos), e, na maioria dos centros metropolitanos, há um serviço de aconselhamento cristão.  Muitas igrejas grandes agora têm as suas próprias clínicas, nos Estados Unidos. Ao procurar aconselhamento, primeiro consulte o seu pastor. Se ele achar que não pode ajudá-lo, pode recomendar outra pessoa com a capacidade para isso. Se você é crente, não hesite em perguntar ao psicólogo, se for consultá-lo, quais são os valores espirituais que ele preza e quais os seus objetivos em aconselhar. Embora outras pessoas possam ajudar até certo ponto, faça todo o possível para encontrar um conselheiro competente que aprecie a sua dedicação a Cristo e possa ajudá-lo no contexto de sua fé, preferivelmente alguém que tenha tido sucesso em seu próprio casamento e vida familiar. Se o conselho dele, ou dela, não funcionou no seu próprio caso, ele, ou ela, não poderá ajudá-lo em quase nada.

            Qualquer pessoa que esteja sofrendo a dor aguda e a perda ocasionados por infidelidade de seu cônjuge também precisa de um amigo, um confidente – alguém que saiba ouvir, sem dar palpites. Alguém que dê apoio, mas sem se enternecer – que manifeste aceitação, mas não dê conselhos. Todos nós temos uma porção de amigos e conhecidos que gostariam de compartilhar dos detalhes picantes de um mexerico, ou que sempre têm o conselho certo para qualquer situação, embora o próprio casamento deles dificilmente seja excitante. Evite-os como a uma praga. A maioria das pessoas, na verdade, não entende as complexidades ou ramificações de um “caso”, e não são capazes de dar conselhos objetivos. Apressam-se a dizer: “O que eu faria é...”, ou: “Eu não confiaria mais nele”, ou: “Seja sincera para consigo mesma”. Estes conselheiros encontram-se por aí às dúzias. Não faça publicidade de sua angústia. Pelo contrário, encontre uma caixa de ressonância onde você possa abrir o coração, expressar tranquilamente os seus sentimentos e deixar as lágrimas caírem, um amigo ou amiga que orará por você e orará com você – alguém que não tem todas as respostas. Um amigo que, como diz o verso do poeta, “tomará juntos o grão e a palha, e, com um sopro de bondade, soprará a palha para longe”.

            Um amigo assim, ou um casal, é suficiente. Não conte o que você está passando pata toda a classe da Escola Bíblica Dominical ou para a sociedade de senhoras ou para os parentes. Sentimos a tentação de, ao descrever o problema, de rebaixar o nosso cônjuge, para ganhar simpatia. Desta forma, isto envenena a reputação de seu marido, e, depois que o “caso” for resolvido, ele será malvisto. Haverá períodos escuros, tenebrosos, sentimento de isolamento. Por vezes você terá vontade de entrar em um buraco e evitar o embaraço de ver velhos amigos ou de ir à igreja sozinha. O pastor e sua esposa, que mencionei em capítulo anterior, a respeito de quem Ellen Williams escreveu, encontraram forças em um grupo de amigos na igreja. A esposa disse: “A pressão positiva da comunidade cristã foi um fator enormemente positivo, enquanto abríamos caminho por entre a crise. Havíamos nos decidido a compartilhar a nossa dificuldade com outro casal de crentes. Eles foram capazes de nos ajudar a ambos. Eles tornaram-se um anteparo para mim, no sentido de que a sua influência inabalável me conservou firme, quando facilmente eu poderia ter explodido. De maneira simbólica, eles ofereceram ao meu marido aceitação e a certeza de que nada que ele havia feito podia separá-lo do amor de Deus ou da igreja”.

 

BUSQUE O SEU PERDÃO - DEPOIS EXPRESSE O SEU PERDÃO

Sempre que há pecado, uma traição de confiança, apresenta-se o assunto do perdão. Quer ele seja procurado pelas partes que precisam dele ou oferecido a elas, nem se precisa dizer que é essencial para a recuperação do casamento, depois de um “caso”, que se entenda bem o que é perdão. Perdão é o assunto central. Como qualquer pessoa que tenha passado por essa experiência pode testificar, a restauração de um casamento, depois da infidelidade, não é assunto fácil. O perdão não se manifesta rapidamente. É difícil. Mas é a única maneira de curar e libertar, a única solução para a dor pungente.

            O que é que sabemos realmente acerca do perdão? Como pode ele ser praticado em situação tão carregada de emoções?

 

O Perdão É Possível

É possível para ambos os cônjuges: o infiel e o traído. O adultério não é um pecado sem perdão, como parece que algumas pessoas pensam. A Bíblia não relaciona os pecados como se alguns deles fossem mais hediondos do que os outros, e alguns mais facilmente perdoados. Alguns pecados causam mais danos do que os outros, e, em suas consequências, são de mais longo alcance. Paulo fala a respeito de como o adultério, de maneira peculiar, afeta tão seriamente o corpo:

Fugi da prostituição. Qualquer outro pecado que o homem comete, é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu próprio corpo. Ou não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós, o qual possuís da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.

            Mas todo pecado confessado pode ser perdoado. Nada é impossível para Deus. Depois de seu adultério com Bate-Seba, Davi disse: “Confessei-te o meu pecado, e a minha iniquidade não encobri. Disse eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a culpa do meu pecado”. Os pecados de omissão, dentro do casamento – negligência, rejeição, egocentrismo, amargura – podem, por vezes, ser mais corrosivos do que o adultério, e também precisam ser perdoados. Os pecados de temperamento precisam ser confessados, tanto quanto os pecados da carne. Todo pecado é primordialmente cometido contra Deus, embora, na infidelidade, muitas outras pessoas sejam feridas: os cônjuges de ambos os lados, as duas famílias, todos os filhos. Visto que Deus criou cada um de nós, planejou o casamento e os relacionamentos familiares, e tem um lindo plano para cada pessoa. Quando pecamos, rejeitamos o plano de Deus. Ele odeia o pecado, porque destrói o homem que ele tanto ama, de forma que a confissão precisa ser primeiramente feita a ele. Davi enxergou esta perspectiva: “Contra ti, contra ti somente, pequei, e fiz o que é mau diante dos teus olhos”. 

O Perdão É Necessário

É essencial para a nossa saúde mental tanto quanto para a nossa saúde conjugal. Davi falou a respeito do sentimento de culpa e do engano de seu “caso”, e como ele o deixou seco por dentro. E finalmente a libertação: “Como é feliz o home cujos pecados Deus apagou e está livre de más intenções em seu coração! Eu tentei, por algum tempo, esconder de mim mesmo o meu pecado. O resultado foi que fiquei muito fraco, gemendo de dor e aflição o dia inteiro. De dia e de noite sentia a mão de Deus pesando sobre mim, fazendo com as minhas forças o que a seca faz com um pequeno riacho. O sofrimento continuou até que admiti minha culpa e confessei a ti o meu pecado. Pensei comigo mesmo: ‘Confessarei ao Senhor como desobedeci às suas leis’. Quando confessei, tu perdoaste meu terrível pecado”.

 

O Perdão É Difícil

Ele atinge o âmago de nossa justiça própria. Algumas vezes gostamos de nos sentir condenados. Agarramo-nos às nossas feridas, desejando ainda empatar, nos vingando. Perdoar é abrir mão dos sentimentos de vítima, e isso não é fácil. O nosso ódio próprio muitas vezes está no alicerce de nossa incapacidade de perdoar; por não conseguirmos aceitar as nossas características humanas, não temos a capacidade de aceitar o nosso cônjuge que falhou. A nossa incapacidade de aceitar o amor limita a nossa capacidade de dá-lo. Sempre julgamos os outros da maneira como nos julgamos a nós mesmos. Se não temos um amor-próprio sadio e não nos consideramos valiosos, pessoas em estágio de crescimento, muitas vezes necessitando de perdão, não conseguimos dar ao nosso cônjuge o que não podemos dar a nós mesmos. Só quando reconhecemos as nossas deficiências é que estamos prontos para aceitar as imperfeições dos outros. Não podemos oferecer perdão, se estamos num vácuo. Na medida em que recebemos e gozamos do amor de Deus e dos outros, aprendemos a amar.

            Precisamos deixar Deus nos amar. O que recebemos e experimentamos, podemos depois repartir. O mesmo é verdadeiro em relação ao perdão. Quanto mais sou perdoado, mais perdoador me torno.

O Perdão É Uma Escolha

Jesus coloca o perdão no nível da decisão pessoal, e não da emoção. “Quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que também vosso Pai que está no céu vos perdoe as vossas ofensas”. Esta é uma ordem dada à vontade. As emoções e os sentimentos não podem receber ordens. Preciso decidir-me a perdoar, mesmo quando todos os meus sentimentos clamem contra isso. Muitas vezes, quando tenha enfrentado um luta para perdoar alguém, levanto-me, em, meu escritório, e digo em voz alta: “Eu o perdoo, perdoo, perdoo”. Quando coloco a minha vontade e o meu coração nessa direção, sentimentos de perdão começam a seguir-se, e então consigo dizer à pessoa envolvida: “Eu te perdoo”. Pode levar algum tempo para que as feridas sarem, mas a sua decisão alivia a tensão, e o tempo começa o processo de cura.

 

Perdoar Não É Esquecer

O Perdão não é um apagador que apaga a lembrança do ato de sua mente definitivamente. Isso é impossível. Ainda continua sendo história. A cicatriz pode ser permanente. Perdoar e esquecer é esquecer ma ira que sentimos contra a pessoa que nos prejudicou – para nunca mais a usar contra ela, e para não tirar mais do armário esse esqueleto. Embora nos lembremos do fato, tratamos a pessoa como se ele nunca tivesse acontecido. Lembrar constantemente o “caso” de seu cônjuge quando estão no quarto, ou durante algum conflito, assegura que a infidelidade jamais será esquecida por ambas as partes, e isso pode encorajá-lo a voltar a cometê-la.

            Certamente, onde a confiança foi abalada pode haver interrogações durante certo tempo, pontadas ocasionais de dúvida, ou ecos, mas esses sintomas desaparecerão, se houver um esforço mútuo para melhorar o relacionamento conjugal.

 

O Perdão É Oferecido

Gosto da maneira como o Pastor Wildeboer o expressa:                                                   Da mesma forma como o perdão divino não depende do fato de o homem sentir-se perdoado, mas da declaração de perdão feita por Deus, a ser aceita com base em sua Palavra, assim também cada cônjuge precisa declarar que perdoa o outro e aceita o perdão do outro com base na palavra dele. Ambas as partes precisam renovar a dedicação um ao outro, não apenas de maneira emocional, mas com uma declaração – e com atos que confirmem as palavras... Eles precisarão dizer um ao outro o que, se são crentes, já disseram a Deus: “Eu lhe pertenço: coração, alma, mente e forças. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para ser fiel a você”. Depois precisarão pôr em prática o amor um ao outro. Precisarão dar de si tanto quanto foram capazes de dar e querer e esforçar-se para dar muito mais”. 

            Este perdão pode ser a pedra angular de um casamento mais forte do que nunca. Há anos, li uma história clássica de perdão excelente, que me comove outra vez, ao escrevê-la. A mulher a conservou trancada n coração durante meio século, mas compartilhou-a com a “Dear Abby”, para ajudar outras pessoas que se encontrem nas mesmas condições:

Eu tinha vinte anos, e ele, vinte e seis. Fazia dois anos que estávamos casados, e eu nem sonhava que ele pudesse ser infiel. A terrível verdade foi-me comunicada quando uma jovem viúva de uma fazenda vizinha me veio dizer que o filho que ela estava esperando era do meu marido. O meu mundo veio abaixo. Eu queria morrer. Lutei contra uma vontade imensa de matá-la. E a ele também.

            Eu sabia que isso não resolveria o caso. Orei, pedindo forças e orientação. E elas vieram. Eu sabia que precisava perdoar aquele homem, e o fiz. E perdoei a ela também. Calmamente contei ao meu marido o que havia aprendido, e nós três juntos elaboramos uma solução. (Que criaturazinha amedrontada era ela!). O bebê nasceu em minha casa. Todo mundo pensou que eu dera à luz, e que a minha vizinha estava me “ajudando”. Na verdade, era exatamente o contrário. Mas poupamos à viúva a humilhação (ela tinha mais três filhos), e o garotinho foi criado como meu. E nunca ficou sabendo da verdade.

            Teria sido esta a compensação divina para minha incapacidade de gerar um filho? Não sei. Nunca comentei este incidente com meu marido. Ele tem sido um capítulo fechado em nossas vidas durante cinquenta anos. Mas tenho lido nos olhos dele, milhares de vezes a amor e a gratidão.                                                          

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Mito da Grama Mais Verde de J. Allan Petersen, 4ª Edição/ 1990, Juerp, págs. 111 - 135.