quarta-feira, 28 de novembro de 2012

ORAÇÃO DO PREGADOR


 
 

Eis aqui, ó Senhor, um recipiente vazio que precisa ser cheio.

Enche-o, Senhor meu.

Sou débil na fé; fortalece-me! Sou frio no amor;

aquece-me e torna-me fervoroso,

para que meu amor possa chegar ao meu semelhante.

Não possuo fé forte e firme; às vezes,

duvido e sou incapaz de confiar inteiramente em Ti.

Ajuda-me, ó Senhor! Fortalece minha fé e minha confiança em Ti.

Escondi em Ti os tesouros de tudo o que tenho. Sou pobre;

Tu és rico e vieste para ser misericordioso com os pobres.

Sou pecador; Tu és justo. Em mim, há abundância de pecado;

em Ti está a plenitude da retidão.

Permanecerei, portanto, contigo, de quem tudo posso receber,

mas a quem nada posso dar. Amém!


Martinho Lutero

ORAÇÃO DE JABES


 
 

          “Oxalá me abençoes e me alargues as fronteiras, que seja comigo a tua mão e me preserves do mal, de modo que não me sobrevenha aflição! E Deus lhe concedeu o que tinha pedido.”  I Crônicas 4:10.     

ORAÇÃO DA SERENIDADE


 
           Reinold Bilboard, teólogo protestante muito famoso da 1ª metade do século XX, criou o que ele chamou de A Oração da Serenidade.                          
            Ela resume todas as maneiras de lidar com o estresse. Diz simplesmente:

           Senhor, dá-me a serenidade de aceitar as coisas que não posso mudar, força para mudar naquilo que posso e a sabedoria para saber a diferença entre uma coisa e outra.”

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

UM GRÃO DE “TRITICUM VULGARE”


 
 
           “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto”. João 12:24

 

            Introdução.

            Por que Cristo compara, muitas vezes a Palavra de Deus à semente (grão)?

           As parábolas do semeador, da semente, do grão de mostarda de Mt, Mc, Lucas.

 

1 - Grão de trigo.

Pequena semente que, como todas as demais, por si só, isoladamente, pouco significa, mas, uma vez que é colocada na terra, multiplicar-se-á em grãos.

Você já parou para pensar que quando seguras em suas mãos um punhado de sementes de trigo, tens contigo um trigal?

Ou que quando aprisionas em tuas mãos um punhado de sementes de árvores, sabes que é uma floresta que ali repousa?

Antes que seja tentado a pensar que és poderoso, que basta lançá-las ao solo e elas transformar-se-ão num trigal ou numa floresta de árvores frondosas, saiba que as sementes trazem em si o mistério da vida e o milagre da fecundação.

 É o que afirma a Srª Ellen White no livro Parábolas de Jesus, página 63: “A semente encerra um princípio germinativo, princípio que Deus mesmo implantou; porém, abandonada a si própria não teria a faculdade de medrar”.

Para um botânico, em poucas palavras, semente é o grão, ou parte do fruto, próprio para a reprodução, que contém um embrião (no caso do trigo) monocotiledôneo, envolvido por um tecido rico em reservas nutritivas chamado de albume ou albúmem, que se constitui na parte comestível dos grãos.

Para aqueles que ouviam o sermão de Jesus naquela ocasião, trigo era uma das coisas com a qual eles estavam bastante familiarizados.

Supostamente originário da Palestina, Pérsia e regiões limítrofes, já era cultivado desde 5.000 a.C. no Egito e, na China, desde 3.000 a.C. É um dos mais importantes cereais na alimentação humana.

Semente também é a imagem (ilustração) de muitas coisas aparentemente insignificantes, mas que aproveitadas e colocadas em ambiente propício, resultarão numa colheita rica e farta, atingindo assim sua finalidade.

O mesmo pode ser dito a respeito das pessoas. Talvez seja necessário pensar, aqui, em mim mesmo. O que sou eu? Insignificância que guarda em si um enorme potencial.

Por isso, Cristo compara a Palavra de Deus à semente: pequena, insignificante, que nos passa despercebida, que pode ser atirada longe com um sopro, com o vento, com a água da chuva, através de insetos, pássaros ou até mesmo pelo homem, mas que, caindo em “solo bom... produzirão uma colheita de 30, 60 e até mesmo 100 vezes o que foi plantado”. Mt. 13:8. Aqueles que eram sensíveis à verdade espiritual entendiam as ilustrações. Para os outros, eram apenas histórias sem significado.             

            Antes que você se de conta de que não é tão poderoso assim e fique decepcionado saiba que “o homem tem sua parte em favorecer o crescimento do grão”. PJ. pág. 63. Então posso ser útil nesse processo! Como? Trabalhando. “Precisa preparar e adubar o solo, e lançar a semente. Precisa lavrar o campo. Mas há um ponto, além do qual nada pode fazer. Nenhuma força ou sabedoria humana pode extrair da semente a planta viva. Ainda que o homem empregue seus esforços até ao limite extremo, precisará, entretanto, depender dAquele que ligou o semear e  o colher pelos maravilhosos elos de Sua própria Onipotência.

Há vida na semente, e força no solo; mas se o poder infinito não for exercido dia e noite, a semente não produzirá colheita. A chuva precisa ser enviada para umedecer os campos sedentos, o Sol precisa comunicar calor, e a eletricidade precisa ser conduzida à semente enterrada. A vida que o Criador implantou, somente Ele pode despertar. Toda semente germina e toda planta se desenvolve pelo poder de Deus”. PJ. pág. 63.  Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos exércitos”. Zac. 4:6.

O conselho de Deus para mim e para você é: faça o seu trabalho e deixe os resultados com Deus; confie em Suas promessas, em Suas declarações: “Enquanto a Terra durar, sementeira e sega,... não cessarão”. Gên. 8:22. “Assim será a palavra que sair da Minha boca: ela não voltará para Mim vazia, antes fará o que Me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei”.  Isaías 55:11. “Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará sem dúvida com alegria, trazendo consigo os seus molhos”. Salmo 126:6.

Entretanto, para que toda vitalidade latente, contida na semente se torne visível, necessita a semente submeter-se ao processo doloroso da dissolução: morrer.

 

2 - Morrer.

Para a semente significa decompor-se, sem desaparecer. Mudar de forma, transformar-se, sem deixar de ser. Para a semente é o multiplicar-se.

No momento em que ela entra em contato com o solo, como que se decompõe, incha, explode, transforma-se em raízes e caule, desponta a flor da terra, volta-se para a luz, cresce, torna-se planta. Neste momento, as folhas e depois as flores e, finalmente, os frutos, não só a enfeitam, mas sobretudo a fazem atingir aquele estágio para o qual foi criada: ser árvore útil.

Está você sendo útil à sua família, ao teu próximo, a sua comunidade, a sua igreja, ao seu Deus? Como anda seu testemunho? É você uma bênção?

 

3 - Se.

Pequena palavra ou partícula, porém, de grande poder modificador.

Em gramática, na língua portuguesa, é chamada de conjunção condicional: como o próprio nome já diz, onde ela aprece a frase se transforma em condição, em hipótese, em probabilidade.

Expressa uma condição, sem a qual a frase principal perde sua força.

No caso da frase de Cristo, a partícula expressa uma convicção, sem a qual não é possível atingir o objetivo. Ou mais claramente: a finalidade do trigo é dar vida, prolongar-se, multiplicar-se nas espigas de muitos grãos, ser alimento na mesa do homem. Mas só atingirá este nobre objetivo passando antes por uma condição: a condição de morrer.

Pois é morrendo que produz muito fruto, é deixando-se assumir pela terra que libertará todo potencial de vida nela implantado por Deus.

Está você disposto a despojar-se, a morrer para o eu?

“Ele anseia derramar sobre nós Seu Santo Espírito em fartas medidas, e que aplainemos o caminho mediante à renúncia. Quando o próprio eu for entregue a Deus, nossos  olhos serão abertos para ver as pedras de tropeço que  nossa dessemelhança com Cristo tem posto no caminho dos outros. Tudo isso Deus nos manda remover. Diz Ele: ‘Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis.Tiago 5:16.” – 2TS, pág. 382

A única forma de seguir verdadeiramente a Cristo é dando tudo a Ele; esta precisa ser uma morte total e completa para o eu. Naturalmente, só o Senhor pode fazer isso por nós, se o permitirmos, se tomarmos a decisão de segui-Lo e fazer  o que devemos fazer, como o grão de trigo, primeiro morre. Não existe outra maneira.

“Todavia ninguém se pode esvaziar a si mesmo do eu. Somente podemos consentir em que Cristo execute a obra. Então a linguagem da alma será: Senhor, toma meu coração; pois não o posso dar. É tua propriedade. Conserva-o puro; pois não posso conservá-lo para Ti. Salva-me a despeito de mim mesmo, tão fraco e tão dessemelhante de Cristo. Molda-me, forma-me e eleva-me a uma atmosfera pura e santa, onde a rica corrente de Teu amor possa fluir por minha alma”.  PJ.  pág. 159.

“Não é só no princípio da vida cristã que esta entrega do próprio eu deve ser feita. Deve ser renovada a cada passo dado em direção do Céu”. PJ, pág. 160.

“Não há limites à utilidade daquele que, pondo de parte o próprio eu, abre margem para a operação do Espírito Santo em seu coração, e vive uma vida inteiramente consagrada a Deus”. SC, pág. 254.

Não se trata apenas de um conselho que podemos ou não seguir, mas trata-se de uma condição, de algo indispensável, um sine qua non, uma exigência insubstituível. 

 

4 - Ficar só.

É o estar só, a solidão, o desligamento profundo, sinônimos de esterilidade, de improdutividade, de infecundidade, ou simplesmente de inutilidade.

O homem que ficou só é o grão guardado numa ampola de vidro: as torrentes da vida foram sustadas, embargadas, abortadas. O grão enterrado multiplica-se em mil outros, o grão insepulto fica só.

 Assim as energias, os talentos, as capacidades do homem – inclusive a capacidade de amar – que não passarem pela experiência de dar-se, de entregar-se, de morrer para o eu, ficam só, isto é, fechadas, enterradas, contidas, no próprio homem, sem atingir o outro, o próximo, o necessitado e quando não atingem o outro não há multiplicação.

É a lição contida na Parábola dos Talentos, ou seja, quem não passa adiante os bens recebidos, quem não os usa, não os desenvolve, não recebe por sua vez, novos bens, concluindo-se que quem assim o faz acaba perdendo-os.

 “Não podemos continuar recebendo os tesouros celestiais sem os transmitir aos que estão ao nosso redor”. PJ.  pág. 143.

O homem que não se põe a serviço é como semente guardada.

Que adianta estar em vaso de cristal ou porta-jóias de ouro?

 Não é este o terreno propício para germinação! Semente guardada não deita raízes, não estende ramos, não rebenta em flores, não verga ao peso do fruto. Não cresce. Não atinge a maturidade.

Cristo, ao falar assim, não estava apenas criticando ou aconselhando, estava traduzindo sua experiência ministerial de vida prática: Ele, o Bom Pastor, correndo atrás da ovelha desgarrada, expondo sua vida, amando intensamente e amando até a morte. Não teve medo de machucar-se, nem de ferir-se. “Por que eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também”. João 13:15.

Sabe por que Cristo nos brindou com este memorável conselho?

A irmã White descobriu a resposta: “Um exemplo correto fará mais benefício ao mundo que qualquer profissão de fé”.  PJ.  pág. 383.

Sejamos “um exemplo correto”.

É o meu desejo e a minha oração. Amém!!!

 

 

sábado, 3 de novembro de 2012

NÓS PRECISAMOS UNS DOS OUTROS


 
           “Não são os sadios que têm necessidade de médico, mas os doentes”. Mt. 9:12.

           

           Sadio.  No mundo físico, aquele que tem saúde, forte, em forma, saudável, com boa aparência, que tem as funções vitais em ordem.

           Cristo refere-se, no caso, à saúde espiritual, ou seja, aqueles que estão na graça de Deus, que permanecem junto Dele, que se esforçam por realizar a Sua vontade, aqueles que tem prazer em meditar em Sua palavra, enfim, aqueles que se deleitam em obedecer-Lhe.

           Ele deu esta resposta a uma objeção dos fariseus que criticavam o fato de estar ele comendo com os pecadores. 

           Com esta afirmação Jesus deixou claro o motivo que o trouxe a este mundo: “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc. 19:10); foi por causa de pecadores que Ele veio.

           Por causa daqueles que no âmbito espiritual são tidos como doentes. Por esta razão o próprio Jesus também afirmou nas bem-aventuranças: “Felizes as pessoas que sabem que são espiritualmente pobres, pois o Reino do Céu é delas”. Mt. 5:3 – BJA.

           Caso não houvesse pecadores não haveria necessidade de redenção.

           Mas a verdade é que os fariseus julgavam-se, erroneamente sadios, pois contentavam-se com o observar da lei. E descendência de Abraão mais legalismo, eis a fórmula que lhes parecia suficiente para salvar-se.

           Com isto desprezavam e faziam pouco caso dos demais. Acreditavam não precisar de ninguém, nem mesmo de Jesus que disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”. João 14:6.

           Ser sadio é ter todos os órgãos em funcionamento, tanto fisicamente como espiritualmente. É aceitar o colírio ofertado gratuitamente por Cristo aos laodiceanos (Apoc. 3:18), para que, com os olhos ungidos, ver com amor e compreensão os seus semelhantes.

           Para não desprezar a ninguém. Para não se colocar, tampouco, acima de outrem.

           Para não condenar, pois, conforme as palavras do Mestre, condenar é condenar-se.

           Para não se julgar sadio, às custas da doença dos outros.

           Para não usar a saúde como forma de garantir posições neste mundo e a salvação no outro.          

           O que Deus espera do sadio:

           Que o sadio tenha a capacidade de se alegrar com a saúde do outro, com o bem que outro faz ou que ao outro acontece. “Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram”. Rom. 12:15.

           Que o sadio tenha amor para dar a todos quantos o necessitam - a parábola do bom samaritano que o diga (Lc. 10:30-37).

           Que o sadio, tenha, enfim, a exemplo de Cristo, uma vida a testemunhar e se preciso for, sacrificar-se por todos.          

 

           Médico.  O homem que está preparado para entender as anomalias que se abatem sobre um corpo e contornar os revides do organismo, devido nossa intemperança; aos fatores herdados ou adquiridos ou simplesmente por habitarmos um mundo corrompido pelo pecado.

           Aquele que tem os conhecimentos científicos e a dedicação humana para restituir o homem às suas funções na família e na sociedade.

           Cristo aplica a si mesmo esta denominação. Ele é o médico dos médicos.

           É o médico enviado pelo Pai, para curar, principalmente, os males espirituais que se abateram sobre o homem, desde a entrada do pecado neste mundo.          

           Ao estudarmos os quatro Evangelhos, notamos que Jesus não apenas cuidava dos distúrbios espirituais, mas teve uma grande sensibilidade também para com os males físicos, restituindo aos doentes que o procuravam o pleno uso de suas funções físicas.

           Mas, o seu cuidado especial foi sempre com o espírito, por isso, O encontramos várias vezes exercendo seu poder de cura sobre os endemoninhados, libertando-os do poder das trevas, da dureza do coração, da cegueira espiritual, transformando-o em uma nova criatura e capacitando-o a ser e agir como um autêntico servo de Deus.

           Talvez, o maior exemplo bíblico esteja relatado em Marcos 2:1-11; a cura daquele paralítico levado por amigos e baixado até Jesus pelo telhado.

           A cura física é temporária e não resolve o problema do pecado. Jesus entendia que as necessidades espirituais do paralítico eram mais importantes do que sua enfermidade.       Daí o porque da pergunta feita por Jesus no vers. nove: “Qual é mais fácil? dizer ao paralítico: Perdoados são os teus pecados; ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito, e anda?”. Jesus perdoou o paralítico antes de curá-lo.

           “És tu aquele que havia de vir, ou havemos de esperar outro?”. Mateus 11:3.

           Essa foi a pergunta de João Batista enviada através de seus discípulos a Jesus.

           A resposta não deixa dúvida: “Respondeu-lhes Jesus: Ide contar a João as coisas que ouvis e vedes: os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são purificados, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho”. Mat. 11:4-5.

           Para completar sua obra saneadora entregou-se a si mesmo, no sacrifício da cruz.

 

           Doente.  É o oposto de sadio, que tem a saúde alterada, que padece de algum mal ou alguma enfermidade, débil, fraco, doentio.

           Os Evangelhos pintam um quadro bem nítido da compaixão de Jesus para com os doentes que ia encontrando em Seu caminho.

           Tinha uma maneira toda especial para com aqueles que sofriam, que estavam discriminados por causa de alguma deficiência física ou moral.

           Atendia aos pedidos daqueles que lhe pediam a saúde, atendia aos rogos daqueles que intercediam por alguém, mas espontaneamente também se dirigia aos machucados e lhes oferecia a saúde.

           Meditemos alguns instantes na cura dos dez leprosos; naquele paralítico introduzido no recinto pelo teto da casa, na filha de Jairo (um dos chefes da sinagoga); na mulher que sofria com uma hemorragia há doze anos; o homem a beira do tanque de Betesda, enfermo há trinta e oito anos. E porque não mencionar também as curas espirituais realizados no encontro com a mulher samaritana, com a mulher apanhada em adultério, com Nicodemos, com Zaqueu e tantos outros.

           “A saúde é um tesouro. É de todas as posses temporais a mais preciosa. Riqueza, cultura e honra são adquiridas ao elevado preço da perda do vigor da saúde. Nada disso pode assegurar felicidade, se falta a saúde”. CSRA, pág. 20.

           Por sua atitude para com os sofredores, há quem acredite que a saúde também é um dom de Deus, pois com ela conseguimos cumprir de forma mais completa a nossa missão.

           Jesus não curou a todos, pois a doença também tem seu valor e pode ser um caminho – ainda que doloroso – rumo a glória do Pai.

           Cristo curava a doença das pessoas, mas não retirava a doença da realidade cotidiana do homem, para nos convidar a conviver com todas as realidades e colaborar, no sentido de aliviar a carga de nossos irmãos que sofrem. A Bíblia aconselha: "alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram”. Rom. 12:15.

           Cristo nos convida a ter olhos de misericórdia para perceber a realidade que magoa e atormenta e ter, como o Pai, coração de misericórdia ou, se preferir, de carne, para que possamos produzir gestos e obras de misericórdia, porque, ensinava Ele: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia”. Mt. 5:7.

           Esta é a grande tarefa a que  nós , como cristãos somos chamados a realizar: no meio do mundo desalmado, desumano, violento de hoje  -  ser a personificação da misericórdia.

 

           Ter necessidade.  Precisar, estar em dificuldades, ser pobre ou necessitado. Indica o estado de alguém que se encontra no despojamento de algo ou na falta de algo, e não está nele a substituição ou o preenchimento do vazio.

           Faz estabelecer uma relação com alguém que pode mais ou está em situação melhor para socorrer  a pessoa e satisfazer a necessidade que a oprime.

           O estado de criatura é um estado de permanente necessidade. A Bíblia afirma que: “Todos pecaram e destituídos estão [carecem] da glória de Deus”. Rom. 3:23.

           É importantíssimo para  o cristão reconhecer e aceitar esta carência, caso contrário o homem se independe dos outros homens e o que é pior, do próprio Deus.

           Deus em sua infinita sabedoria deixou um lembrete: “toda boa dádiva e todo dom perfeito é lá do alto, descendo do Pai das luzes” (Tiago 1:17).

           Você não é o dono dos dons, dos talentos, das riquezas, de todos os bens que o Senhor derramou no mundo, para simplesmente usa-los da maneira que lhe convier, você é apenas um mordomo, um administrador que entre outras funções deve dividir, compartilhar: “Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus”. Lc 12:20-21.

           Ter necessidade é ter a convicção profunda da dependência e da nossa absoluta pobreza. Dependemos de Deus e de nossos semelhantes. Sempre teremos algo para poder dar e sempre teremos algo para poder receber.

           Devemos à  Deus nossa vida, nossa salvação e ele espera que saibamos dar aos outros o que ele bondosa e misericordiosamente concede-nos: “de graça recebestes, de graça daí”, é o conselho de Cristo.

           Agindo assim, o outro e Deus se tornam constantes necessidades nossas.

           Quando verdadeiramente descobrimos os dois, teremos descoberto a fórmula da convivência e da caminhada em companhia para o nosso destino eterno, destino que nunca elaboraremos sozinhos, porque os outros não podem elaborar o seu sem minha co-participação, nem eu sem a deles.

           Deus é bom por muitos motivos, mas neste contexto, porque nos revela, a cada passo, que nós precisamos uns dos outros.

           Que a experiência da dependência de Deus e de nossos semelhantes seja uma realidade em sua, em minha, em nossas vidas.

           É o meu desejo e a minha oração. Amém!!!

 

 

 

 

 

QUANDO SOFREMOS PERDAS


 
 
         Introdução. Sempre que sofremos qualquer tipo de perda somos instados a lidar com ações e reações que estão muito ligadas aos princípios do perdão.

           Podemos dizer que quem não sabe perdoar também não sabe lidar adequadamente com perdas, e vice-versa.

           Daí o motivo de abordarmos o tema das perdas juntamente com o do perdão, para podermos utilizar alguns princípios no aprendizado de ambos.

           A palavra perdão pode parecer com o aumentativo de perda, perdão é uma “perda grandona”. 

     

           Perdas são inevitáveis. Ao longo da vida invariavelmente sofreremos diferentes tipos de perdas, todos nós enfrentaremos, mais cedo  ou mais tarde, perdas significativas.

           A vida é um contínuo movimento de ganhos e perdas, este movimento nos faz crescer. 

 

           Afinal, o que podemos considerar como perdas?   Desde a morte de uma pessoa importante até a simples perda de um objeto; quando perdemos o que foi adquirido, o que é conhecido, aquilo que está estabelecido, o que ganhamos ou herdamos; enfim, tudo aquilo que nos pertence ou que faz parte da nossa situação vigente, todas essas coisas são perdas.

           Quando sofremos alguma mudança, ou a situação sai do nosso controle, também podemos considerar como uma perda.

 

           Efeito da perda em nossa vida. A perda vai desencadear em nós uma série de reações de adaptação que podem ser saudáveis ou não.

          Nossa maneira de lidar com situações de perda revela nossos mecanismos de defesa e a capacidade de adaptação às novas situações.

           Nossas defesas podem ser flexíveis, permeáveis e adaptáveis, ou então, de forma contrária, podem ser rígidas e pesadas.

 

           Nossas reações diante da perda.  O Pr. Fábio Damasceno, em seu livro intitulado Psicologia do Perdão, afirma que diante da perda, reagimos de modo espontâneo e podemos evoluir em diferentes etapas para a resolução daquela vivência.

           Ele apresenta uma seqüência dessas reações, contudo essa seqüência não é obrigatória e nem sempre todas essas etapas são percebidas ou vividas claramente.

           A primeira reação natural é:

 

           Negação.  A pessoa diz: “não, não é possível, não aconteceu, não acredito nisso, não foi bem assim”. A primeira atitude diante de algum problema, de algum conflito, é a negação.          Em geral dura alguns minutos, mas pode durar algumas horas, dias e até a vida toda

           A negação é, até certo ponto, saudável, pois nos dá tempo para podermos ir gradativamente entrando em contato com aquela realidade difícil.

           O problema é quando a negação torna-se um escudo para evitar o sofrimento, ela pode até assumir um lugar de destaque em nossa vida que nos leva a uma espécie de prisão. Como conseqüência, não avançamos para o enfrentamento da realidade e nem para uma nova adaptação.

           Confronto.   A segunda etapa acontece quando a pessoa se permite andar mais um pouco, abrir os olhos para a realidade, travar contato com os fatos, então ela é confrontada.

           Ela começa a “bater de frente com aquela perda, com aquele trauma, com aquele prejuízo ou com aquela dívida.

           Ela se deixa invadir pelos sentimentos e dores compatíveis com os acontecimentos, atravessa aquele vale de dor e se deixa atravessar pela realidade.

           Assim, a pessoa, sente e dimensiona o que está acontecendo, se dá conta do quanto doeu, do quanto foi humilhada, do quanto a feriram, do quanto sofreu, e sofre por passar por aquilo; este é o momento do confronto.

           Isso a prepara para a adaptação que se fará necessária mais na frente.

 

           Reação.   A terceira etapa neste processo é expressa na sua atitude mais espontânea diante do confronto.

           Todas as vezes que você sofre alguma perda, agressão e ofensa, é impossível que você não se incomode, que não sinta raiva ou que não tenha uma outra reação. Nós não precisamos fingir que somos bonzinhos.

           Se o outro o ofendeu, o humilhou, o agrediu, pisou em você, invadiu o que é seu, é humano sentir raiva, é natural reagir com raiva ou ira.

           Jesus, o homem perfeito, sem pecado, irou algumas vezes. A Bíblia diz em Efésios 4:26: “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o Sol sobre a vossa ira”.

           Ah, então eu posso irar-me. Não, não, não. Devagar, ou melhor, alto lá. Não estou autorizando você a se transformar numa pessoa irritadiça a qualquer troco, ou por qualquer coisa.

           Entretanto, dentro do processo de cura , primeiramente, você tem que reconhecer que, se o outro o humilhou, o ofendeu, pisou em você, você pode sentir muita raiva, indignação, tristeza, amor próprio ferido, etc.

           Em segundo lugar, no processo da cura interior, no processo do perdão, aqueles sentimentos mais profundos são conteúdos que precisam aparecer; o desejo da vingança, a ira, as mágoas, a amargura e o amor próprio ferido precisam ser colocados para fora.

           Na maioria das vezes esses sentimentos estão direcionados para as pessoas mais significativas ou até para com Deus.

           Se você ficou magoado com Deus, ressentido com Ele, isso não é outra coisa senão raiva de Deus. Para nós, reconhecer isso, por vezes, é ameaçador, assustador.

           A gente acha que vai entrar num terreno perigoso, a caminho do pecado irreversível, o pecado imperdoável, de ofensa à pessoa dEle, que depois não teremos como controlar essa raiva, e então pensamos que Deus vai querer vingar-se de nós, como geralmente fazemos com os outros, ou podemos achar que Ele vai nos abominar, nos rejeitar.

           Mas saiba que, Deus não tem medo da sua raiva. Você é que tem medo dela. Deus já a conhece; em Sua onisciência, enxerga muito além do seu consciente, Ele vê o coração  (I Sam. 16:7). Você é que não deixa aquilo que está lá dentro aparecer. Então desembuche!

 

           Rendição.  A quarta etapa é a rendição. Rendição significa dizer: “Senhor, agora que tudo veio à tona, de que adianta ficar com esses sentimentos, viver deles e por eles, e cultivá-los? Aconteceu. , é verdade que eu neguei, disse para mim mesmo que não era tão doloroso, mas vi que era, confrontei-me com isso. Derramo a minha alma diante de Ti, e vejo que não adianta ficar esperneando, me debatendo, ou alimentando o caminho da vingança. Vejo que as mágoas e ressentimentos não vão me levar a nada. Então me rendo a Ti, Senhor”.

           O que impede a rendição?

           A revolta não permite que você avance para a rendição. Você precisa reconhecer que realmente não é o juiz dos homens, muito menos Deus. Na verdade somos “caco de barro”, e não compete a nós inquirir o Oleiro – o que diz o hino de nº 502? “És o oleiro e eu esse ...”

           O problema é que mesmo sabendo disso, reconhecendo quem somos, o nosso coração fica inquirindo a Deus; porquê, porquê, porquê. A rendição só acontece quando paramos de perguntar e passamos a esperar na misericórdia e na graça divinas.

           Jó passou por tudo isso mas depois se rendeu e disse algo mais ou menos assim: “Oh, Deus, ponho a mão à boca, falo do que não sei, reconheço que Tu és Senhor, sabes todas as coisas, podes todas as coisas, submeto-me a Ti” (ver Jó 42:2-6). Isto é rendição.

           A verdadeira rendição se dá sem suprimir os verdadeiros sentimentos e reações; ao contrário, as reações acontecem, esgotam-se; os sentimentos são vividos, expressos e esgotam-se. Este é um processo que, quando vem, rasga, dói, fere, mas é um processo necessário e sarador.

 

           Cicatrização.   Finalmente a quinta etapa do processo. A cicatrização é praticamente uma conseqüência  da rendição.

           Houve uma ofensa, uma ferida, essa ferida foi aberta. A ferida dói e você reage a essa ofensa com mágoa; a mágoa é a infecção da ferida.

           Enquanto você não perdoa, o pus permanece ali e a ferida não cicatriza. Quando você perdoa, mesmo que a princípio possa sentir dor, você está colocando remédio na ferida e ela começa a melhorar, o pus seca e a infecção cede.

           Daí, então, a cicatrização vai se processando. Não pense que porque você perdoou uma vez, magicamente a ferida estará totalmente cicatrizada. O perdão é um processo. Isso demanda um certo tempo, às vezes depende do tamanho da ofensa ou da perda, do grau, do tipo ou da extensão da ferida.  

                        A cicatrização não é automática e nem imediata, o tempo pode variar, o nosso papel é perseverar. Algumas pessoas precisam de mais tempo; outras de menos.

           O mesmo processo se dá com relação às perdas, sendo que neste caso a infecção geralmente representa e não aceitação daquela perda, porém à medida que paramos de nos debater e curvamo-nos diante da realidade e aceitamos o que se passou (aceitação não no sentido de conformismo, mas de rendição), a ferida naturalmente vai cicatrizar e a dor vai cessar.

 

           Conclusão.   Ilustração – Um pássaro nas mãos. A resposta está em suas mãos.

·         O perdão não deixa de ser uma ordenança de Deus – perdoai.

·         Mas é também um ato do livre arbítrio, é uma escolha, uma opção.

·         Se você, lá no fundo, escolhe não perdoar, ninguém poderá demovê-lo dessa decisão.

·         Você pode escolher cultivar o perdão ou pode escolher cultivar amargura.

·         Quem perdoa cresce, aproxima-se de Deus; fica mais semelhante a Ele.

·         Quem não perdoa fica emperrado, sobrecarregado, parado na vida emocional, psicológica e espiritual, não amadurece, não evolui.

           Em nome de Jesus desejo apelar ao seu coração para que você faça, não a melhor escolha, mas a única escolha sensata; escolha o caminho do perdão. Perdoe. Deus te recompensará no presente e na vida futura.

           Saibamos lidar com as perdas. Sejamos igualmente perdoadores.

           Este é o meu desejo e a minha oração. Amém!!!

          

A MULHER IDEAL:


UMA REFLEXÃO HOMILÉTICA SOBRE A ESPOSA VIRTUOSA DE PROVÉRBIOS 31:10-31
Emilson dos Reis, MTP Professor de teologia e pastor da igreja do Unasp Centro Universitário Adventista de São Paulo, Campus Engenheiro Coelho emilson.reis@unasp.edu.br.
           INTRODUÇÃO
Este artigo tem como tema de estudo a mulher ideal. Se você tivesse que opinar a respeito, o que diria? Como a descreveria? Destacaria seus atributos físicos como medidas, cor de pele, de olhos ou de cabelo? Ou valorizaria bastante suas habilidades e qualidades morais? Ou salientaria sua posição social, sua educação e seus recursos financeiros?
Na Bíblia Sagrada, Deus nos deixou uma descrição da mulher ideal. Ela se encontra em Provérbios 31:10-31. É apresentada na forma de uma poesia acróstica com vinte e dois versos, cada um contendo duas linhas poéticas. Para facilitar a memorização do poema, cada verso começa com uma das vinte e duas letras do alfabeto hebraico, na devida ordem. É claro que na tradução isso se perde.
A mulher aqui retratada é uma dama de certa posição, que além de diversas habilidades, possui servas a seu dispor e dinheiro para investir. Por essa razão, relativamente poucas mulheres possuirão seu padrão de vida e poderão realizar o que ela faz. Contudo, precisamos saber também que, sendo um livro de religião prática que trata da conduta, Provérbios tem o propósito de demonstrar os resultados da fé em ação1.
Portanto, ao apresentar várias amostras de comportamento, recomenda que aquelas que demonstram sabedoria sejam imitadas, tanto quanto possível. Assim, nesse relato da mulher ideal, existem alguns aspectos que servem como modelo para as demais mulheres, não importa a época ou o lugar em que vivam. Vamos examiná-los.
 
           1. A MULHER IDEAL É UMA BOA ESPOSA
O texto inicia designando-a como “mulher virtuosa”, embora algumas traduções bíblicas prefiram a expressão “uma esposa excelente”2, que reflete, de modo mais abarcante e fiel, o que o autor pretendia dizer. Como esposa exemplar, por meio de palavras e ações, ela faz bem a seu marido e não o mal (v. 12). Não é implicante, nem crítica, mas fala com sabedoria e bondade (v. 26). Também não o pressiona para gastar mais do que tem, nem esbanja o que possuem. Trata-o com amor, atenção e respeito, sempre e não conforme o humor do momento3.
A conduta dela demonstra que em seu lar não há batalha entre os sexos. Seu estilo de vida coopera para que ele seja respeitado, estimado e bem-sucedido na comunidade. De fato, seu marido é um dos mais nobres homens do lugar e se assenta como um dos juizes nas portas da cidade (v.23). Por tudo isso, ela conquistou a total confiança dele (v. 11). Tal descrição tem por objetivo mostrar as qualidades de uma boa esposa, para estímulo das próprias mulheres, e para indicar aos homens o perfil de companheira que devem buscar para esposa4.
 
           2. A MULHER IDEAL É UMA BOA DONA-DE-CASA
A Bíblia de Jerusalém, considerada como a melhor tradução para a língua portuguesa, traz o seguinte título para este texto: “A perfeita dona de casa”. Embora a espécie de responsabilidades das mulheres difira de acordo com sua condição na sociedade em que vive, cada mulher tem o seu trabalho. Nos tempos antigos, até uma princesa fazia trabalhos domésticos.
A mulher virtuosa não pensa que as deveres domésticos sejam um fardo, uma eterna mesmice, um tédio, antes, trabalha com coragem, entusiasmo e persistência. Possui uma mente bem disposta e mãos diligentes5. O lar é sua esfera de ação e sua missão é tornar seu lar feliz6. Ela não é preguiçosa (vs. 4-6, 27), pois se levanta cedo e trabalha o dia inteiro (vs. 15, 18). Além disso, é precavida (vs. 4 e 7) e confiante (v. 7).
Ela tem muita saúde e força de vontade. É determinada, tem iniciativa (vs. 17, 25) e sabe administrar bem seus recursos de maneira a gerar novas riquezas. Com o dinheiro que adquiriu com seu trabalho compra um pedaço de terra e o limpa e nele planta vinhas, o que o torna mais valorizado (vs. 16)7. Além disso, administra bem sua casa. Distribui a tarefa entre os criados (v. 15) e não deixa faltar o agasalho (v. 21).
Como naqueles tempos, não era fácil encontrar roupas prontas para comprar e se tornava muito dispendioso contratar alguém para confeccioná-las, esperava-se que a esposa fosse uma boa costureira, preparando tanto as roupas comuns como aquelas usadas em dias especiais. Essa habilidade, que era ensinada de mãe para filha através das gerações8, é uma das qualidades da mulher virtuosa. Logo, suas roupas são luxuosas, feitas de ótimos tecidos e belas cores e sua casa é um lugar belo e atrativo, enfeitado com tapetes e cobertas coloridas no chão, nas paredes e nos leitos, como era o costume das famílias ricas nos países do oriente (vs. 21-22) 9.
Ela também não deixa faltar mantimento e, como um navio mercante, faz provisão de tudo que é necessário para sua família (v. 14). Não se preocupa com o dia de amanhã (v. 25) porque tem em sua mente o consolo e a satisfação de quem cumpre seu dever. Em sua velhice se alegrará de haver sido diligente em sua juventude10. É verdade que desfruta de muitas coisas boas, todavia, tudo foi conseguido com muito esforço e trabalho duro.
 
           3. A MULHER IDEAL É ESPIRITUAL
Quando esteve aqui na Terra, Jesus ensinou que nosso dever mais importante é amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a nós mesmos (Mc 12:29), o que indica, entre outras coisas, o amor a si mesmo é parte integrante da vida de um cristão. Também o é de uma personalidade emocionalmente equilibrada. Quem não gosta de si mesmo está em dificuldades e não poderá amar seu semelhante, como Deus deseja. A mulher desse relato é espiritual e, como tal, ama a Deus, ama a si mesma e ama ao próximo.
“Ela se relaciona bem com Deus” (vs. 8 -10). Abriga em seu coração o temor do Senhor e esse é o segredo de sua vida exitosa. Mas o que significa temer a Deus? Ao longo do texto sagrado o temor do Senhor é apresentado como algo positivo, benéfico e imprescindível para a formação de um caráter cristão. Ter o temor do Senhor abrigado em nosso coração significa conhecê-Lo (Pv 2:5; 9:10), o que nos levará a admirá-Lo por Sua grandeza, por Seu caráter, pelo que Ele é e pelo que tem feito (Sl 33:4-8), a reverenciá-Lo (Hb 12:28) e louvá-Lo (Sl 22:23; 115:10, 11, 13; Sl 118:3-4), a confiar Nele (Sl 115:11) e a Ele nos submeter, obedecendo com alegria aos Seus mandamentos (Sl 112:1)11. A mulher ideal tem esse tipo de relacionamento com Deus. O temor do Senhor é seu valor primordial e o que dá verdadeiro valor a todas às demais virtudes12.
“Ela se relaciona bem com seus semelhantes” (vs. 8 e 13). No relato, nós a vemos cuidando bem de sua família, dos criados e até dos pobres de sua comunidade. Freqüentemente o sucesso financeiro das pessoas também conduz a uma completa falta de compaixão pelos menos capazes e pobres. Mas não nesse caso. Essa mulher se preocupa com eles e os socorre em suas necessidades13, sendo generosa para com eles. Além disso, ela atua como mestra, aconselhando e ensinando sabedoria, não de forma crítica ou áspera, mas com a bondade do céu (v. 26).
“Ela está de bem consigo mesma” (vs. 8 e 13). Isso pode ser constatado porque ela, além de valorizar o que é bom e belo, é vigorosa no corpo, elegante no vestir-se, digna,  


animada e bondosa em seu comportamento e devotada e honrada em sua religião. Enfim, cultiva todas as excelências femininas14.

 

           4. A MULHER IDEAL É BEM-SUCEDIDA

Ela é o deleite de sua família. Seu marido a considera a melhor mulher do mundo, e diz isso a ela, enquanto que seus filhos não se cansam de elogiá-la (vs.28-29). Não há conflito de gerações em seu lar. Ela tem sucesso na vida e sucesso no lar15.

Ela colhe o que semeou (v. 31). Uma das grandes leis da vida é que colhemos o que semeamos (Gl 6:7). Cada dia, cada momento, por meio de nossas palavras, de nossas ações, de nosso comportamento, estamos semeando sementes do bem ou do mal e, mais cedo ou mais tarde, haveremos de colhê-las; frequentemente aqui mesmo, nesta vida. A mulher ideal semeou sempre e somente o bem e, agora, é retratada como a colher o que lhe é devido. É respeitada, apreciada e elogiada pelo marido, pelos filhos, pela comunidade e, mediante as Escrituras, pelo próprio Deus.

 

            CONCLUSÃO

Ao descrever a mulher ideal, o texto nada diz quanto à sua aparência física. Não diz se é alta ou baixa, robusta ou esguia, se é loira ou morena, se os seus olhos são azuis, verdes ou castanhos, porque embora os aspectos físicos possam ter os seus encantos, a beleza, a graça e o charme são passageiros e de pouco valor, quando comparados com a beleza moral. “Elegância de formas, simetria na fisionomia, dignidade nas maneiras, beleza no rosto, todas essas coisas são vãs. A enfermidade as deforma; o sofrimento as macula e a morte as destrói”16. Em contraste com aqueles valores encantadores na aparência está o verdadeiro valor, o temor do Senhor, que é o lema do livro de Provérbios.

Embora muitos provérbios deste livro tenham sido sobre mulheres de vida imoral e mulheres contenciosas (2:16; 3:3-13; 6;24-25; 11:22; 21:9, 19; etc.) , cuja companhia é indesejável, suas últimas palavras são um elogio às mulheres virtuosas. Este texto é um verdadeiro espelho para as mulheres cristãs, que seriam ricamente abençoadas se freqüentemente olhassem para ele.

Mas, por que Provérbios, escrito, sobretudo, para os homens, termina exaltando a mulher virtuosa? Primeiramente porque é um livro sobre sabedoria, que aqui é personificada como uma mulher, por um lado porque é um nome feminino e, por outro, porque a mulher é um excelente exemplo da variedade de aplicações práticas da sabedoria. Esta é melhor ensinada e vivida no lar e resulta numa vida equilibrada, e que é dada atenção aos assuntos domésticos bem como aos empreendimentos dos negócios e às obras de caridade, e nos inspira a sermos fervorosos no uso do tempo e dos dons que Deus nos deu, de modo que outros também sejam beneficiados por ela.

Desse modo, vemos a sabedoria em ação no dia-a-dia e assim captamos lições concretas e não apenas a teoria. Ao mesmo tempo este poema vai de encontro à literatura do mundo antigo, que costumava ver a mulher simplesmente como algo decorativo, com charme e beleza, mas sem substância, e constitui-se num modelo para aqueles, homens e mulheres, que desejam desenvolver uma vida de sabedoria17.

Em segundo lugar, uma vez que a sabedoria aqui ensinada se origina no temor do Senhor, que é o tema de Provérbios, o livro encerra com o exemplo prático de alguém cuja virtude principal é justamente o temor do Senhor. De fato, Provérbios, que depois de uma breve introdução na qual são mencionados os objetivos do livro e seu público-alvo (1:1-6), começou com o temor do senhor (1:7), e depois retornou a ele diversas vezes (1:29; 2:5; 8:13; 9:10; etc.), agora termina com uma mulher que o possui (31:30) e que por isso também revela aquelas qualidades que foram exaltadas por todo o livro e é apresentada como um exemplo a ser seguido.

E, finalmente, porque de todas as pessoas com quem um homem se relaciona, quem mais pode contribuir para que em sua vida ele reflita as orientações do livro de Provérbios e se torne um sábio é a mulher temente a Deus: primeiro na qualidade de mãe e, depois, de esposa. Portanto, a descrição da mulher virtuosa encerra com “chave de ouro” as instruções precedentes, dedicadas todas ao homem18 e nos ensina que Deus quer que cada mulher de Sua igreja tenha o Seu temor no coração e dê prioridade em conquistar aquelas qualidades que o céu aprova. Deseja que não viva para si, mas que a sua influência de modo a beneficiar a todos que puder.

 

NOTAS DE REFERÊNCIA

1 Virgínia Everett Davidson, “Provérbios que servem de orientação”, Lição da Escola Sabatina – Adultos, 4º Trim. (Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 1991), 3.

2 Derek Kidner, Provérbios – introdução e comentário, Série Cultura Bíblica (São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1980; reimpresso em 1982), 92 e 177. A expressão hebraica para “mulher virtuosa” inclui prudência, fidelidade, laboriosidade, generosidade e iniciativa. – Matthew Henry, Comentário exegético-devocional a toda la Biblia, 13 vols. (Viladecavalis, Barcelona: CLIE, 1988), 2:374.

3 Ibid.

4 Ibid., 2:373.

5 R. N. Champlin, O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo, 7 vols. (São Paulo: Hagnos, 2001), 4:2693.

6 Joseph S. Encheu, The Biblical Illustrator, 23 vols. (Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, s. d.), 5:688.

7 F. D. Nichol, ed., Seventh-day Adventist Bibelô Commentary [SDABC], 7 vols. (Washington, DC: Review and Herald), 1953-1957, 3:1070. Nos tempos antigos, muitas atividades econômicas eram parte das funções de uma mulher, como esposa e mãe: prover alimento e vestuário para a família e para si mesma, engajar-se em compra e venda e efetuar negócios que requeriam prudência e bom gerenciamento. – The Interpreter’s Bible, 12 vols. (Nashville, New York: Abington Press, 1955), 4:956.

8 Champlin, 4:2693.

9 Ibid., 4:2694

10 Henry, 2:375-376.

11 Emilson dos Reis, “Temor e medo de Deus: um estudo homilético sobre a relação com o divino nas Escrituras”, Parousia, 2° semestre de 2004: 64-65.

12 Henry, 2:375.

13 SDABC, 3:1071.

14 Exell, 5:688-690.

15 Na tradição judaica, este poema era recitado pelos maridos e pelas crianças na hora da refeição na sexta-feira à noite. – Frank E. Gaebelein, ed., The Expositor’s Bible Commentary [TEBC], 12 vols. (Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publishing House, 1991), 5:1128.

16 Adam Clarke, citado em Champlin, 4:2695.

17 TEBC, 5:1130.

18 Henry, 2:372.