Introdução
Histórias
saborosas, que mesclam tragédia com humor, sempre despertam a atenção das
pessoas. E ganharam espaço nas páginas da Bíblia aquelas que contêm alguma
preciosa lição para o povo de Deus.
Eis alguns
dos elementos que fazem parte deste estudo:
a) Um
profeta que não vivia com o povo de Deus nem foi reconhecido como profeta por
nenhum escritor bíblico. Proclamava-se capaz de ver e ouvir Deus, mas deixou de
atender às instruções mais claras que recebeu diretamente do Senhor, chegando a
enxergar menos do que um asno.
b) Um rei
pagão e trapalhão, a quem o povo de Israel tinha ordens de não atacar, se
dispôs a pagar uma quantia incalculável para que o suposto profeta derrotasse
os israelitas numa batalha espiritual.
c) povo de Israel foi vitorioso e abençoado
enquanto Deus conteve ou dirigiu o estranho profeta, mas caiu fragorosamente
diante da sugestão maliciosa do mesmo profeta de se reunir com os midianitas
para uma festa em homenagem a Baal.
Como
disse Wiersbe: “Satanás, muitas vezes, vem como um leão devorador, mas se isso
falha, ele ataca novamente como uma serpente enganadora.” Este estudo
certamente nos ajudará a ficar mais atentos em relação a essas artimanhas, mas
principalmente nos ensinará a prestar mais atenção à graça e à bondade de Deus.
Época: os
fatos narrados em Números 22 a 24 ocorreram durante a última grande parada de
Israel, antes de entrar em Canaã. Como aconteceu nas duas paradas prolongadas
anteriores (em Sinai e Cades), esse foi um período de preparação, recapitulação
das promessas, das leis e também com a ocorrência de apostasia. Isso se deu
perto do fim do ano 40 desde a saída do Egito.
Local:
Planícies de Moabe, com área de cerca de 150 km2. Algum tempo antes, esse
território tinha sido conquistado pelos amorreus, mas conservava o nome dos
antigos dominadores. Corresponde a uma parte do que hoje é a Jordânia.
Israel
havia peregrinado desde o Sul até Basã, ao norte, que se situava a leste do
Lago da Galileia, e então voltado para o sul e acampado nessas planícies, em
frente a Jericó. Nessa movimentação, havia derrotado os poderosos reis Ogue (de
Basã, ao norte) e Seom (dos amorreus, mais ao sul).
O tempo
(os 40 anos de peregrinações) estava quase cumprido. Em algum momento viria a
ordem para levantar o acampamento, atravessar o Jordão e entrar na Terra
Prometida, mas antes de isso ocorrer Israel teve que enfrentar inimigos ocultos
como o rei moabita (dos descendentes de Ló), os líderes midianitas
(descendentes de Abraão e Quetura), e Balaão, por eles importado a peso de ouro
da Mesopotâmia, para lançar maldições contra o povo de Deus.
O rei
Balaque (significa saqueador) sabia que não conseguiria vencer Israel numa
guerra convencional, por isso teria que apelar para uma guerra espiritual. Mas
ele não confiou nos seus deuses, mandou emissários empreenderem uma viagem de
cerca de duas semanas (650 km) para trazerem, a qualquer custo, Balaão, que
vivia em Petor, na Mesopotâmia (atual Iraque), o qual conhecia o Deus de
Israel.
Ellen
White disse: “Balaão havia sido um bom homem e profeta de Deus, mas apostatara
e se entregara à cobiça, enquanto professava ainda ser servo do Altíssimo”
(Patriarcas e Profetas, p. 439). [Aliás, não deixe de ler todo esse capítulo 40
do livro Profetas e Reis, que dá algumas informações sobre Balaão, as quais
diferem de todos os comentaristas bíblicos.]
Voltando
a Balaque, nesta primeira parte, o estudo leva a duas reflexões:
1. Até o
rei moabita havia ouvido sobre os grandes feitos do Deus de Israel e as
vitórias de Seu povo, por isso os temia.
2. Como
em tantas outras circunstâncias, esse temor, que deveria levar à obediência,
acabou desembocando numa solução completamente estranha: chamar um suposto
profeta para amaldiçoar o povo abençoado por Deus.
A Bíblia não dá muitas informações
biográficas. Cada personagem aparece pronto, construído, desempenha seu papel e
passa para a história, deixando as consequências dos seus atos que interagem
com a marcha do povo de Deus.
É isso
que ocorre com Balaão. Tudo o que sabemos sobre ele vem da análise de sua
participação nesses episódios com Balaque:
1. Devia
ser muito famoso como homem de grande poder espiritual para que Baraque tivesse
informações sobre ele e tamanha admiração, a ponto de contratá-lo com enormes
despesas.
2. Ele
vivia longe do povo de Deus, num país distante, mas se comunicava com Deus de
maneira direta. Deus lhe respondia e ele entendia claramente a vontade de Deus.
Ele
buscava a Deus por sua própria iniciativa (22:8, 19; 23:3, 15) e Deus ia ao seu
encontro (22:22; 24:1, 2).
3. Apesar
dos seus defeitos evidentes (teimoso, ambicioso, mercenário, dissimulado) foi
portador de uma importante profecia messiânica.
Não há nenhuma
impossibilidade nisso, pois na Bíblia a profecia e outros dons de revelação são
considerados sinais de inspiração, mas não de santidade. Deus pode usar
qualquer pessoa (ou até um animal, como no caso de Balaão) sem que isso
signifique atestado de santidade ou de salvação.
4. Outras
informações sobre Balaão aparecem em textos que serão estudados no próximo
estudo (Nm 25; 31:8-16; Ap 2:14) e outros do Novo Testamento (Jd 11; 2Pe 2:15).
III. Confronto sobrenatural
Nesta
parte, o estudo analisa o episódio da jumenta, que o apóstolo Pedro (2Pe 2:16)
chamou de a insensatez do profeta.
Veja esta
contribuição de Gordon Wenham: “Da mesma forma que Balaão cavalga sua mula até
ser detida pelo anjo do Senhor, Balaque igualmente impulsiona Balaão a
amaldiçoar Israel até que é detido pelo seu encontro com Deus. Da mesma forma
como Deus abriu a boca da mula, Ele colocou as Suas palavras na boca de Balaão,
para declarar a Sua vontade. Este paralelismo entre Balaão e a mula sugere que
a capacidade de declarar a palavra de Deus não é necessariamente sinal de
santidade de Balaão; revela apenas que Deus pode usar qualquer pessoa (e até um
animal) para ser Seu porta-voz.”
Noutro
ponto, o mesmo teólogo destaca: “Os atos e palavras da mula preveem os
problemas que Balaão estava para enfrentar. A mula ficou três vezes entre a
espada do anjo e a vara de Balaão. Logo Balaão iria se encontrar três vezes
entre os pedidos de Balaque e as proibições de Deus. Mediante esse terceiro
encontro com Deus, Balaão ficou sabendo que Deus usa uma espada, e que a
desobediência significa morte.”
O mesmo
Deus que abriu a boca da jumenta também abriu os olhos de Balaão para que visse
o Anjo temível que estava no caminho com sua espada desembainhada. Finalmente,
Balaão fez alguma coisa certa e se prostrou com o rosto em terra, e o Anjo lhe
disse que a jumenta tinha salvo sua vida.
Em
seguida, Balaão disse: “pequei” (22:34) e, surpreendentemente, o Anjo do Senhor
lhe disse: “Vai com esses homens” (22:35, comparar com v. 20), mas para
declarar as palavras de Deus e não para se submeter aos desejos de Balaque.
Feito
esse acordo com Deus, Balaão concluiu a viagem e se apresentou a Balaque,
antecipando que ele não estava livre a não ser para falar o que o Senhor
colocasse em seus lábios.
IV. “A morte dos justos”
Esta
parte do estudo se refere aos capítulos 23 e 24 de Números, os quais apresentam
as primeiras três bênçãos ou profecias de Balaão proferidas à vista do povo de
Deus.
Como
preparação, Balaão orientou Balaque a que construir sete altares e sobre cada
um sacrificasse um bezerro e um carneiro, e ainda pediu que Balaque se
envolvesse pessoalmente e ficasse junto ao holocausto até que Deus desse ao
profeta as palavras que deveria dizer.
Balaão se
afastou e buscou a orientação de Deus. Como resposta, veio uma profecia. O
mesmo aconteceu após mais duas tentativas ou insistências de Balaque, sempre
precedidas da mesma preparação.
1. A primeira profecia (23:7-10): Este povo
habitará só (“não será considerado como qualquer nação”, diz a NVI). Conforme a
profecia, antes dada a Abraão, não se poderá contar o número dos seus
descendentes. Deus tem um fim glorioso para todos os que fazem parte
(verdadeiramente) do Seu povo (tanto que o próprio Balaão gostaria de ser
incluído nessa bênção).
2. A
segunda profecia (23:21-24): O Senhor é o Deus e o Rei de Israel. Ele já havia
provado isso por muitas evidências e jamais desapontaria o Seu povo. Esse povo
se levantará como um leão e prosseguirá vitorioso até derrotar o último dos
seus inimigos.
3. A
terceira profecia (24: 5-9): Assim como Israel estava acampado de forma ordeira
e bela, o futuro da nação seria de progresso e prosperidade, com completa
supremacia sobre seus inimigos. Israel seria abençoado e seria também uma
bênção entre as nações.
O relato
bíblico informa que, após pronunciar esse oráculo, Balaque perdeu completamente
a paciência com o profeta que trouxera de tão longe, prometendo régio pagamento
para que amaldiçoasse Israel. Interrompeu-o batendo palmas (24:10) e o despediu
sem pagamento nenhum.
V.
Estrela e cetro
Antes de ir embora, Balaão fez uma
profecia final, apoteótica, sem aqueles elaborados sacrifícios preliminares.
4. A
quarta profecia (24:15-25): Uma estrela procederá de Jacó, o Rei que reinará em
Israel no futuro (o profeta sentia uma lacuna cronológica entre a sua visão e a
vinda do Messias) vencerá a todos os inimigos (e Balaão cita os inimigos
daquele tempo como exemplos da dominação e vitória final do Messias).
No
decorrer dos séculos, essa profecia foi considerada uma visão do Messias, cujo
nascimento seria marcado pelo aparecimento de uma estrela do oriente.
É
impressionante Deus ter dado essas profecias através de um ex-profeta
ganancioso ou apostatado em vez de colocar as palavras nos lábios de um
consagrado profeta de Israel.
As
profecias de Balaão foram citadas por profetas posteriores (Jr 48:45 cita Nm
24:17; Dn 11:30 cita Nm 24:24; e Sl 110 contém várias alusões a Nm 24:15-19).
Nota
final: Veja no próximo estudo outra reviravolta surpreendente na vida de Balaão
e seu fim trágico, o que justifica as menções nada elogiosas do Novo Testamento
ao personagem.
Márcio Dias Guarda - Mestre
em Teologia, Editor de livros na CPB
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