Muitos são os
cristãos abandonam o convívio das igrejas locais e decidem exercer sua
religiosidade em modelos alternativos.
Movimento de
contestação à institucionalização da Igreja cresce, mas líderes apontam
essencialidade da comunhão.
A
Igreja Evangélica brasileira está cansada. E é um cansaço que vem provocando
mudanças fortes de paradigmas com relação aos modelos eclesiásticos
tradicionais. Ele afeta milhões de pessoas que se cansaram de promessas que não
se cumprem, práticas bizarras impostas de cima para baixo, estruturas
hierárquicas que julgam imperfeitas ou do mau exemplo e do desamor de líderes
ou outros membros de suas congregações. Dessa exaustão brotou um movimento que
a cada dia se torna maior e mais visível: o de cristãos que abandonam o
convívio das igrejas locais e decidem exercer sua religiosidade em modelos
alternativos – ou, então, simplesmente rejeitam qualquer estrutura
congregacional e passam a viver um relacionamento solitário com Deus. O termo
ainda não existe no vernáculo, mas eles bem que poderiam ser chamados de desigrejados.
No
cerne desse fenômeno está um sentimento-chave: decepção. Em geral, aqueles que
abandonam os formatos tradicionais ou que se exilam da convivência eclesiástica
tomam tal decisão movidos por um sentimento de decepção com algo ou alguém.
Muitos se protegem atrás da segurança dos computadores, em relacionamentos
virtuais com sacerdotes, conselheiros ou simples irmãos na fé que se tornam
companheiros de jornada. Há ainda os que se decepcionam com o modelo
institucional e o abandonam não por razões pessoais, mas ideológicas. Outros
fogem de estruturas hierárquicas que promovam a submissão a autoridades e
buscam relações descentralizadas, realizando cultos em casa ou em espaços
alternativos.
A
percepção de que as decepções estão no coração do problema levou o professor e
pastor Paulo Romeiro a escrever Decepcionados com a graça (Mundo
Cristão), livro onde avalia algumas causas desse êxodo. Embora tenha usado como
objeto de estudo uma denominação específica – a Igreja Internacional da Graça
de Deus –, a avaliação abrange um momento delicado de todo o segmento
evangélico. Para ele, o epicentro está na forma de agir das igrejas, sobretudo
as neopentecostais. “A linguagem dessas igrejas é dirigida pelo marketing, que
sabe que cliente satisfeito volta. Por isso, muitas estão regendo suas práticas
pelo mercado e buscam satisfazer o cliente”. Romeiro, que é docente de
pós-graduação no Programa de Ciências da Religião da Universidade Mackenzie e
pastor da Igreja Cristã da Trindade, em São Paulo, observa que essas
igrejas não apresentam projetos de longo prazo. “Não se trata da morte, não se
fala em escatologia; o negócio é aqui e agora, é o imediatismo”. Segundo
o estudioso, a membresia dessas comunidades é, em grande parte, formada por
gente desesperada, que busca ajuda rápida para situações urgentes – uma doença,
o desemprego, o filho drogado. “O problema é que essa busca gera uma multidão
de desiludidos, pessoas que fizeram o sacrifício proposto pela igreja mas viram
que nada do prometido lhes aconteceu.”
Se
a mentalidade de clientela provocou um efeito colateral severo, a ética de
mercado faz com que os fiéis passem a rejeitar vínculos fortes com uma única
igreja local, como aponta tese acadêmica elaborada por Ricardo Bitun. Pastor da
Igreja Manaim e doutor em sociologia, ele usa um termo para designar esse tipo
de religioso: é o mochileiro da fé. “Percebemos pelas nossas pesquisas que
muitas igrejas possuem um corpo de fiéis flutuantes. Eles estão sempre de
passagem; são errantes, andam de um lugar para outro em busca das melhores
opções”, explica. Essa multiplicação das ofertas religiosas teria provocado um
esvaziamento do senso de pertencimento, com a formação de laços cada vez mais
temporários e frágeis – ao contrário do que normalmente ocorria até um passado
recente, quando era comum que as famílias permanecessem ligadas a uma
instituição religiosa por gerações.
Para
Bitun, a origem desse comportamento é a falta de um compromisso mútuo, tanto do
fiel para com a denominação e seus credos quanto dessa denominação para com o
fiel. O descompromisso nas relações, um traço de nosso tempo, impede que raízes
de compromisso – não só com a igreja, mas também em relação a Deus – sejam
firmadas. “Enquanto está numa determinada igreja, o indivíduo atua
intensamente; porém, não tendo mais nada que lhes interesse ali, rapidamente se
desloca para outra, sem qualquer constrangimento, em busca de uma nova aventura
da fé”, constata.
Modelo
desgastado – O desprestígio do modelo tradicional de igreja, aquele
onde há uma liderança com legitimidade espiritual perante os membros, numa
relação hierárquica, já não satisfaz uma parcela cada vez maior de crentes. “As
decepções ocorrem tanto por causa de líderes quanto de outros crentes”, aponta
o pastor Valdemar Figueiredo Filho, da Igreja Batista Central em Niterói (RJ).
Para ele, um fator-chave que provoca a multiplicação dos desigrejados é
a frustração em relação a práticas e doutrinas. “Nesses casos, geralmente quem
se decepciona é quem se envolve muito, quem participa ativamente da vida em
igreja”. Com formação sociológica, o religioso diz que o fenômeno não se
restringe à esfera religiosa, já que todo tipo de tradição tem sido questionada
pela sociedade. “Há uma tendência ampla de se confrontar as instituições de
modo geral”, diz Valdemar, que é autor do livro Liturgia da
espiritualidade popular evangélica (Publit).
O
jovem Pércio Faria Rios, de 18 anos, parece sintetizar esse tipo de sentimento
em sua fala. Criado numa igreja tradicional – ele é descendente de uma linhagem
de crentes batistas –, Pércio hoje só freqüenta cultos esporadicamente.
“Sinto-me muito melhor do lado de fora”, admite. “Estou cansado da igreja e da
religião”. A exemplo da maioria das pessoas que pensam como ele, o rapaz não
abriu mão da fé em Jesus – apenas não quer estar ligado ao que chama de “igreja
com i minúsculo”, a institucional, que considera morta.
“Reconheço o senhorio de Cristo sobre a minha vida e sou dependente da sua
graça”, afirma. E qual seria a Igreja com i maiúsculo, em sua
opinião? “O Corpo de Cristo, que continua viva, e bem viva, no coração de cada
cristão.”
Boa
parte dos desigrejados encontra no território livre da
internet o espaço ideal para exposição de seus pontos de vista. É o caso de uma
mulher de 42 anos que vive em Cotia (SP) e assina suas mensagens e posts com o
inusitado pseudônimo de Loba Muito Cruel. À reportagem de CRISTIANISMO HOJE,
ela garante que é uma ovelha de Jesus, mas conta que durante muito tempo foi
incompreendida e rejeitada pela igreja. “Desde os nove anos, estive dentro de
uma denominação cheia de dogmas e regras rígidas, acusadora e extremamente
castradora”. Na juventude, afastou-se do Evangelho, mas o pior, diz ela, veio
depois. “Retornei ao convívio dos irmãos tatuada e cheia de vícios, e ao invés
de ser acolhida, não senti receptividade alguma por parte da igreja, o que
acabou me afastando mais ainda dela. Percebi o quanto os crentes discriminam as
pessoas”, queixa-se.
Loba
conta que, a partir dali, começou uma peregrinação por várias igrejas. Não
sentiu-se bem em nenhuma. “Percebi que nenhum dos líderes vivia o que pregava.
Isso foi um balde de água fria na minha fé”, relata. Hoje, ela prefere uma
expressão de fé mais informal, e considera possível tanto a vida cristã como o
engajamento no Reino de Deus fora da igreja – “Desde que haja comunhão com
outros irmãos de fé, que se reúnam em oração e para compartilhar a Palavra,
evangelizar e atuar na comunidade”, enumera.
Igreja
virtual – Gente como Pércio e Loba compartilham algo em comum, além da
busca por uma espiritualidade em moldes heterodoxos: são ativos no ambiente
virtual, seja por meio de blogs ou através de ferramentas como o twitter e
outras redes sociais. É cada vez maior a afluência de pessoas das mais diversas
origens denominacionais à internet, em busca de comunhão, instrução e
edificação. O pastor Leonardo Gonçalves lidera a Iglesia Bautista Misionera em
Piura, no Peru. Mestre em teologia, edita o blog Púlpito cristão.
“Quando comecei esse trabalho, passei a conhecer muitas pessoas que estavam
insatisfeitas com os rumos que o evangelicalismo brasileiro estava tomando”,
revela. “Neste processo, alguns começaram a ver o blog como uma alternativa à
Igreja, ou até mesmo como uma igreja virtual”. Leonardo lida com esse tipo de
público diariamente no blog. “Geralmente, são pessoas extremamente ressentidas.
Consideram-se vítimas de líderes abusivos e autoritários e relatam que tiveram
sua autonomia violada e a identidade quase banida em nome de uma mentalidade de
rebanho que não refletia os ideais de Cristo.”
Outro
que considera natural essa migração em busca de uma comunhão cristã que
prescinde da igreja tradicional é o marqueteiro e teólogo presbiteriano Danilo
Fernandes, editor do blog e da newsletter Genizah Virtual. Voltado à apologética,
seu trabalho tem causado polêmicas e enfrentado resistências, inclusive de
líderes eclesiásticos. “Pessoas cansadas de suas igrejas estão buscando
pregadores com boas palavras, o que as leva à internet”. Para ele, buscar
comunhão virtual em chats e outras mídias sociais é uma
tendência. “A massa está desconfiada por traumas do passado; é gente machucada,
marcada, ferida, gente que viu seus ídolos caírem”, conclui. Ele mesmo tem
atendido diversas pessoas que o procuram para desabafar ou pedir conselhos.
Um
resultado dessa busca por comunhão no ambiente virtual é o surgimento de grupos
como o Clube das Mulheres Autênticas (CMA). Nascido de uma brincadeira entre
mulheres cristãs que se conhecem apenas virtualmente, o grupo tem como lema “Liberdade
de ser quem realmente se é”. A bacharel em direito Roberta
Oliveira Lima, de 31 anos, é uma das integrantes. Ex-membro da Igreja
Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG), ela afastou-se de muitas
das práticas ensinadas no modelo congregacional e se diz em busca de uma igreja
“sem excessos”. Ela se define como “uma pessoa desigrejada, mas não
desviada dos princípios do Evangelho”. Segundo Roberta, o CMA supre carências
que a igreja local já não preenchia mais. “Nosso espaço tem sido um local de refúgio,
acolhimento e alegrias”, relata.
Ela
garante que, até o momento, o grupo não sentiu falta de uma figura sacerdotal.
“Aquilo que nos propomos a buscar não requer tal figura”, alega. “Pelo
contrário, temos entre nós alguns feridos da religião e abusados por figuras
sacerdotais clássicas. O nosso objetivo maior é compartilhar a vida e o
Evangelho que permeia todos os centímetros de nossa existência”, descreve,
ressaltando que, para isso, não é necessário adotar uma postura proselitista.
“Mas nosso objetivo jamais será o de substituir a igreja local”, enfatiza.
“Galho
seco” – “Falta de acolhimento pela comunidade, o desgaste provocado
pelo estilo centralizador e carismático de liderança e frustração com as
ênfases doutrinárias contribuem para esse fenômeno”, concorda o pastor Alderi
Matos, professor de teologia histórica no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação
Andrew Jumper, em São Paulo. Mas ele destaca outro fator que empurra
as pessoas pela porta de saída dos templos: “É quando uma igreja e seus líderes
se envolvem em escândalos morais e outros”.
A
paraibana C., de 37 anos, é um exemplo de gente que fez esse penoso percurso.
Ela relata uma história de abusos e falta de princípios bíblicos na congregação
presbiteriana de que foi membro por mais de quinze anos, culminando com um caso
de violência doméstica de que foi vítima – sendo que o agressor, seu marido,
era pastor. “Havia perdido completamente a alegria de viver, ao me deparar com
uma realidade bem distante daquela que o Evangelho propõe como projeto para a
vida”. C. fala que conviveu em um ambiente religioso adoecido pela ausência do
amor de Cristo entre as pessoas: “Contendas sem fim, maledicência impiedosa e
muitos litígios entre pessoas que se diziam irmãs”.
Este
ano, C. pediu o divórcio do marido e tem frequentado um grupo alternativo de
cristãos. “Rompi com a religião. Hoje, liberta disso, tudo o que eu desejo é
Jesus, é viver em leveza e simplicidade a alegria das boas novas do Evangelho”.
Ela explica que, nesse grupo, encontrou pessoas que vivenciaram experiências
igualmente traumáticas com a religião e chegaram com muitas dores de alma,
precisando ser acolhidas e amadas. “Temos nos ajudado e temos sido restaurados
pouco a pouco. No âmbito do grupo, um ambiente de confiança foi formado, de
modo que compartilhar é algo que acontece naturalmente e com segurança.”
“As
pessoas anseiam por ver integridade na liderança. Quando o discurso não casa
com a prática, o indivíduo reconhece a hipocrisia e se afasta”, avalia o bispo
primaz da Aliança das Igrejas Cristãs Nova Vida (ICNV), Walter McAlister. Para
ele, se os modelos falidos de igrejas que não buscam o senso de comunhão e
discipulado – como os que denuncia em seu livro O fim de uma era (Anno
Domini) – não mudarem, o êxodo dos decepcionados vai aumentar.
Apesar de compreender os motivos que levam as pessoas a abandonarem a
experiência congregacional, o bispo é enfático: “Nossa identidade cristã
depende da coletividade e, portanto, de um compromisso com uma família de fé.
Sem isso, a pessoa não cresce nas virtudes cristãs e deixa de viver
verdadeiramente a sua fé. Como um galho solto, seca e morre”.
“O
fenômeno dos desigrejados é péssimo. Somos um corpo, nunca vi
orelhas andando sozinhas por aí”, diz Paulo Romeiro. O pastor Alderi, que
também é historiador, recorre à tradição cristã para defender a importância da
igreja na vida cristã. “Da maneira como a fé cristã é descrita no Novo
Testamento, ela apresenta uma feição essencialmente coletiva, comunitária. A
lealdade denominacional é importante para os indivíduos e para as igrejas. Quem
não tem laços firmes com um grupo de irmãos provavelmente também terá a mesma
dificuldade em relação a Deus”, sentencia.
Sinais
do Reino – Dentro dessa linha de pensamento, é possível até mesmo
encontrar quem fez uma jornada às avessas, ou seja, da informalidade religiosa
para o pertencimento denominacional. Responsável pelo blog Lion of Zion, Marco
Antonio da Silva, de 31 anos, é membro da Comunidade da Aliança, ligada à
Igreja Presbiteriana do Brasil, em Recife (PE). Ele afirma que redescobriu sua
fé na igreja institucional. “Para alguns militantes virtuais mais radicais,
isso seria uma heresia, mas tenho uma família com necessidades que uma igreja
local pode suprir – e a congregação da qual faço parte supre essa lacuna muito
bem”, afirma.
“Existe
desgaste, autoritarismo e inoperância em todos os lugares onde o homem está”,
reconhece o pastor e missionário Nelson Bomilcar. Ele prepara um livro sobre o
tema, baseado nas próprias observações do segmento evangélico a partir de suas
andanças pelo país. “Podemos ficar cansados e desencorajados, mas temos que
perseverar e continuar amando e servindo a Igreja pela qual Jesus morreu e
ressuscitou”. Como músico e integrante do Instituto Ser Adorador, Bomilcar
constantemente percorre congregações das mais variadas confissões
denominacionais – além de ser ligado a seis igrejas locais, ele congrega na
Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo. “Continuo acreditando na
Igreja do Senhor. Estou na Igreja porque fui colocado nela pelo Espírito Santo.
É possível viver o Evangelho na comunidade, apesar de todas as suas
ambiguidades, para balizarmos aqui e ali sinais do Reino de Deus. Tenho sido
testemunha disso”.
Mauricio
Zágari - É membro da Igreja Cristã Nova Vida, em Copacabana (Rio de
Janeiro - RJ), jornalista e teólogo e foi professor durante nove anos de
disciplinas como Teologia Prática, Ética cristã, História da Igreja e Filosofia
para bacharelados em Teologia.
Fonte:
www.cristianismohoje.com.br
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